terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pelo fim dos rodeios


Ouvi dois vereadores debatendo que era um "absurda" a ideia de um deputado federal paulista, que pretende acabar com os rodeios em todo o país. "E a tradição gaúcha, como fica?", questionou um parlamentar local. Não sabia desse projeto, mas procurei saber: 

(O deputado Ricardo Tripoli, do PSDB, apresentou em 2011 o projeto de Lei 2086/2011, que proíbe a perseguição de animais em provas de rodeios, prevendo multas de até R$ 30 mil.)

No meu entender, tal iniciativa é muito bem-vinda, pois rodeios são espetáculos de selvageria, onde existe o abuso espetaculoso de animais. Já temos leis que proíbem o uso de animais em circos, o que tem sido respeitado. No entanto, os rodeios estão por aí e é chegada a hora de acabar com eles também, se intentamos ser uma sociedade mais evoluída e menos violenta.

Com relação às tradições, penso que devemos nos concentrar nas que são saudáveis e incentivam o bom convívio entre todos os seres viventes.

Por fim, creio que "absurda", é a ideia de termos legisladores que não cogitam uma sociedade mais pacifista.

Um comentário:

Altamiro Correa disse...

Se é tradição porque precisa de regras do MTG?


Por tradição podemos entender o conjunto dos testemunhos e práticas conservados ou desaparecidos, de uma antiguidade tal que não se pode determinar facilmente sua origem e localização. A tradição serve como reforço de legitimidade às práticas atuais de forma que se pode determinar a moral e a validade de determinadas circunstâncias ou comportamentos.
Para Hobsbawn nem todas as tradições possuem um origem distante, indeterminada, antiga. Muitas delas são inventadas, recentes e formalmente institucionalizadas. Para justificar sua hipótese apresenta vários exemplos de tradições ‘inventadas’ principalmente entre os britânicos.
Neste sentido a tradição inventada tem objetivos ideológicos, legitimadores das relações de status nas sociedades de classe. Veja sua definição:

Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade com o passado. Hobsbawn (p. 9).


É preciso fazer uma distinção entre tradição e costume. Essa diferenciação é essencial visto que a tradição produz resistência, pois sua característica maior é a invariabilidade. O costume já age de forma oposta, visto que é aberto e possível de mudança, “sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência a inovação) a sanção do procedente...” (p.10).
Como as tradições estão diretamente ligadas ao passado, e é o passado consuetudinário ou não quem transmite o conteúdo simbólico da validade e legitimidade do que se quer impor, estabelecer, determinar e fixar como essencial tornar-se necessário que toda nova tradição inventada utilize elementos antigos e de significado forte para o grupo ou comunidade onde ele vai ser imposto.
Hobsbawn (p. 17) relaciona três tipos de tradições inventadas após a Revolução Industrial com seus objetivos, hoje extremamente perceptíveis:
1. As que estabelecem coesão social ou critérios para admissão em um grupo ou comunidade;
2. As que têm como objetivo principal legitimar as instituições e o status nas relações de classe;
3. As que socializam e inculcam as idéias de um sistema de valores e padrões de comportamento.

Inventadas ou não as tradições estão diretamente ligadas à memória, tanto coletiva quanto individual e se constituem num link de identidade e de sentimento de pertença, mesmo que essa identidade e pertença seja fruto de uma manobra ideológica.

Referências:
HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das Tradições: Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1997. p. 9-23.