terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pausa para o almoço...


Cruzei na frente de uma construção aqui da cidade. Era por volta do meio-dia e eles estavam sendo sobre pilhas de tijolos e sacos de cimento com suas marmitas acomodadas nos joelhos. Um deles estava em pé, mas aproveitava para saborear seu almoço transformando um andaime numa mesa improvisada. Naqueles poucos segundos em que estive próximo dos operários, percebi que conversavam sobre a aposentadoria do jogador Ronaldo. E riam-se lembrando do famoso episódio dos travestis em que ele se envolveu.

"Mas acontece que esses jogadores de futebol tem que se cuidar. Se pega uma mulher e ela engravida, tem que pagar pensão. Com os travestis não tinha esse perigo", disse um deles, para o delírio dos outros dois que se entregaram numa risada gostosa. Não importavam-se de comer e falar com a boca cheia e nem mesmo de expelir comida enquando se dobravam dando risadas. Um breve instante. Uma pausa na dura lida de trabalhar numa construção.

Esse vislumbre dos pedreiros me colocou numa viagem ao passado. Lembrei das manhãs de minha infância quando minha (falecida) mãe ajeitava a marmita para que eu levasse até a construção onde meu pai trabalhava. Ela envolvia com panos de prato uma pequena panela contendo arroz, feijão, carne e alguma salada. Numa garrafa pequena, um suco de alguma coisa.

Tudo dentro de uma sacola e lá ia eu caminhar algumas quadras pela cidade enorme que era Santiago até chegar na construção onde meu avô trabalhava. Quando ele me via, parava o serviço e vinha almoçar. Ligava o rádio de pilhas para ouvir o Jornal Falado (da Rádio Santiago), enquanto eu ficava por ali, dando uma olhada na construção, saltando sobre a areia e caminhando em cima dos andaimes. Gostava de ver meu pai comer, vendo-o concentrado nas notícias para saber "quem tinha morrido". Eu ficava por ali aguardando para levar a panela embora, livrando-o de carregar o utensílio e também evitando que esquecesse quando fosse embora.

Afinal, no outro dia, eu teria de voltar. Naquela época, lembro que cumpria muito feliz com essa rotina. Com o passar de semanas, essa tarefa já não parecia tão atrativa, visto que perdia alguns minutos a mais para manter-me com meus amigos antes de ir pro colégio. No entanto, sabia que era uma atividade justa e muito honrada. Afinal, levava o almoço de meu pai. E isso era, afinal, uma honra.

Naqueles poucos segundos em que cruzei na frente daquela construção, embarquei numa viagem ao passado. E é interessante perceber o quanto o passado pode ser atraente. O quanto a nostalgia nos parece tão mais aconchegante do que o presente.

Mas o mais incrível é verificar que é justamente no passado que estão raízes que explicam aquilo que cada um é em seu presente. Hoje, ao sentar ao lado de meu pai para conversar, puxei esse assunto. Assim, dessa maneira, fazendo-o compreender o quanto penso que tenho coisas dele em mim. Não tanto quanto eu gostaria, mas muito mais do que eu admitiria...

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