sexta-feira, 16 de julho de 2010

O locutor e o guri


Era uma tarde de verão, dessas escaldantes e até difíceis de imaginar em tempos de invernia. Naquela época, vender picolé era atividade que muita gurizada desejava. Sair empurrado um carrinho ou carregando uma caixa de isopor era o máximo. Era sentir-se útil e responsável, prestando um serviço importante, o de levar um pouco de alegria para outras crianças que ouviam os gritos de “picolé e sorvete” pela rua e iam cutucar os pais para pedir uma moeda. Era preciso memorizar as ruas em que tinha mais crianças, público-alvo favorito. E, claro, também os pedreiros nas construções pela cidade, àvidos para se refrescar com um picolé. Com isso, o guri ganhava o seu dinheiro, que muitas vezes era usado para comprar alguma calçado, roupa e até revistas em quadrinhos

Numa daquelas tardes, o guri chega na porta de uma rádio, ao ouvir uma voz conhecida. Vai entrando devagar. Pela vidraça do estúdio, ele vê o locutor, falando com muita alegria e energia, dedicando músicas. O radialista faz um sinal para o guri esperar e vem até ele, compra o picolé e o convida a entrar no estúdio. Que mundo fantástico era aquele, de microfones e equipamentos de som. O locutor diz para o guri: “eu vou te entrevistar um pouquinho”. Nervosismo. Mas ele faz perguntas fáceis de responder, sobre a escola, a família e os amigos. E, ao final, pede para que o guri cante alguma música. E ele canta Somos quem podemos ser, do Engenheiros do Hawaii. Tudo não durou mais que três minutos, mas foi o temp
o suficiente para ser maravilhoso. O locutor chamou o guri de amiguinho e apertou a sua mão. Em seguida, aconselhou “siga trabalhando e estudando”. O guri sorriu. Agora, era amigo do locutor...


A rádio, era a Santiago. O vendedor de picolé era eu. O locutor era o Nelson Abreu.

3 comentários:

Vanderlei Machado disse...

TEXTO emocionante e de profunda sensibilidade. parabéns amigo!!!

Weimar Donini disse...

Para o Nelson, poderá ter sido mais um instante belo mas corriqueiro em sua brilhante carreira profissional.

Para v., ao contrário, um momento decisivo e determinante. Um divisor de águas. Uma opção de vida que se vislumbrava.

Um belo exemplo de interação onde a bondade e o respeito sobrepõem-se às dificuldades do dia-a-dia.

Anônimo disse...

Olá!

Parabéns pelo blog!

Estou passando para convidá-lo para visitar o blog da Casa do Poeta de Santa Maria.

É só digitar: http://poetacaposm.blogspot.com/

Abraços
Haydée Hostin Lima
Presidente da CAPOSM