sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ser ou parecer: eis a questão!

Quando estudava no 1º ano do ensino médio, lembro que tinha algumas colegas que adoravam escrever framentos literários nos cadernos alheios. Era ver um caderno dando sopa em cima da classe, que elas tascavam algum fragmento literário entre aspas e assinado por elas. Era uma mania. Ao autor dificilmente era dado o crédito. Não que fosse a intenção parecer que um fragmento de Shakesperare, Dostoiévski ou Nietzsche soasse como sendo uma ideia delas e nem tampouco usar disso como forma de legitimar algum discurso frágil.

Era uma simples citação, um pensamento e nada mais. Minhas colegas viam beleza na literatura. E eu via beleza nelas vendo beleza na literatura (especialmente se estivessem de vestido curto...). Portanto, se conseguisse me dar bem com a literatura, poderia me dar bem com elas. Se era de poesia que elas gostavam, legal, vamos aprender sobre poesia, recitar poesia, escrever poesia e conversar sobre poesia. A literariedade rendia conversas e poderia ser útil para perder a virgindade. Sabe como é, para tantos a poesia abriu portas (e pernas...).

Veja o exemplo do Vinícius de Moraes: quantas transas ele engatilhou (e proporcionou) por causa do Soneto da Fidelidade? Isso, os livros não contam. Mas era uma dúvida que eu tinha, na adolescência. (Mas, se deu certo para ele, não deu certo para mim, porra. Poesia não era para mim...)

No entanto, apesar de compreender o romantismo de minhas colegas, eu me invocava com o fato de não reproduzirem as suas próprias ideias. Não apreciava essa coisas de catarem frases daqui e dali, colecionando pensamentos alheios. Vez por outra elas até rabiscavam alguma linha que refletisse aquilo que pensassem mas, inseguras, logo recorriam para as citações dos grandes autores, como forma de legitimar suas opiniões.

Tinha uma colega com quem costumava discutir a diferença entre ser inteligente e parecer inteligente. O primeiro não precisa se autoafirmar porque, putz, tudo na vida é passageiro, né? E a compreensão disso resulta no respeito e na compreensão do pensamento alheio e na observação do que é fugaz. Já o segundo seria o que se costuma chamar de intelectualóide, figuras empilhadeiras de livros e repetidoras de ideias intelectivas, dando a entender como se soubessem de algo. No mundo do rock é o que se costuma chamar de poser.

Sempre tive certa implicância com os intelectualóides que se colocam num pedestal (adotando uma postura semelhante a do Pensador, de Rodin) muitas vezes sugestionando leituras. Os intelectualóides geralmente se julgam aptos a (des) classificar a opinião dos outros fazendo as suas (des) considerações sobre o que é bom ou mal (como se o mundo se resumisse a isso...). E, óbvio, o bom geralmente é o que a maioria não gosta. Tipo, se todo mundo gosta de Paulo Coelho, vamos meter o pau no Coelho. Ele não presta, sua literatura é fraca etc.

Assim, se cria uma imagem de "oh, sou melhor que essa pessoa a quem estou criticando". Pura vaidade, claro. O bom mesmo é ler Nikos Kazantzakis (mesmo que as pessoas nem saibam quem é). E, dê-lhe o intelectualoide a querer fazer valer suas receitinhas para todo mundo. Exatamente como minhas colegas e seus fragmentos pueris assinalados nos cadernos, legitimando um conhecimento que não tinham. Mas eram belas posers.


Um comentário:

Milla disse...

Afff...parece que vc abduziu o meu pensamento agorinha.
Acho divertidísimo qd algumas pessoas se "descabelam" para parecerem naturais,sábias e expontâneas. Tolas...Blargh!
Tenho um blog tb: http://milla-delapraca.blogspot.com
Mirella.