quarta-feira, 7 de abril de 2010

A poesia vive de exceções...


Já ouviu falar que toda regra tem a sua exceção? Então tá, vamos partir desta sentença e estabelecer o seguinte: o poeta é a regra, mas a poesia é a exceção. Dito isso, esclareço: há muitas pessoas que escrevem poesias e que buscam desenvolver-se no meio literário. E isso é louvável, admirável e requer estudo e incentivo. Porém, é ingênuo considerar que quaisquer versificações podem ser consideradas como arte.

No meu entender, em sua absoluta maioria não temos tantos poetas, mas sim aspirantes a poetas. Isso porque entendo que o poeta verdadeiro seja o supra-sumo da literatura. Alguém que tenha ascendido a um nível extratosférico, convivendo no apogeu da genialidade, lugar reservado a tão somente alguns poucos, como Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Cruz e Souza, Casimiro de Abreu, Mário Quintana e outros de igual quilate.

Considerar todo aquele que escreve como sendo um poeta é vulgarizar tal arte, sendo esse um erro cometido pelos leitores e também pelos aspirantes a poesia. Lembro que há pouco, tempo durante o lançamento de um livro do Poeta (com P maiúsculo) Oracy Dornelles, um jovem estava na fila de autógrafos da obra. Quando chegou sua vez, Oracy perguntou-lhe:
- Tu és um poeta?
Sem pestanejar, o rapaz respondeu.
- Sim. Eu sou.

Quando chegou minha vez de solicitar-lhe um autógrafo, Oracy me fez a mesma pergunta, porém com um sorriso levemente irônico.
- Tu também te considera um poeta?
- Não escrevo poesia. Escrevo algumas porqueiras de contos e crônicas. E perto do senhor, eu não sou é nada...

Oracy autografou-me o livro, dedicando "ao irmão de letras". Lógico, uma bondade da parte dele. Em seguida, recomendou-me.
- Assim te considero. Mas tome cuidado para não escrever bobagens...

Essa foi apenas uma de tantas histórias e tantos encontros que tive com o Oracy. Cada um deles sempre rendeu alguma pecualiaridade. Houve também vezes em que ele foi bem sincero-tal qual um coice de cavalo- ao fazer suas considerações críticas com relação a alguma coisa que eu tenha escrito. Até brinco que nenhum escritor de minha cidade possa se considerar como tal, se não tiver passado pelo batismo de fogo, ao ser criticado pelo Oracy.

Não escrevo poesia, não sou poeta. E mesmo que eu escrevesse poesia, não poderia me considerar um poeta. Ao fazer isso, estancaria o constante aprendizado literário para ousar sentar-me ao lado dos verdadeiros poetas, lugar onde jamais pretendo estar, porque não tenho o dom da poesia.

É por isso que digo: que a maior parte das poesias produzidas em Santiago, no Rio Grande ou em qualquer canto do Brasil tem o seu valor, devido o esforço do aspirante. Porém, pouquissimas podem ser consideradas poesia verdadeira. Dizer que todo aspirante a poeta é um poeta é como considerar que toda ostra produza uma pérola. E não é assim. E justamente por não ser assim, é que as pérolas são valiosas. E é por isso que digo que o poeta é o supra-sumo da literatura. E é por isso que digo que a poesia vive de exceções.

Por fim, como estou falando de poesia, encerro com uma do Oracy:

O que admiro em ti
não são teus olhos lucilantes,
tua paz iniciática,
tua intuição arrojada;

O que admiro em ti
não é a tua voz languor,
teu coraçãozinho,
tua alma pura,
teus dentes em "n"...

...também não é o teu amor!

o que admiro em ti
é a dignidade
com que me desprezas!...

2 comentários:

Tainã Steinmetz disse...

"a dignidade
com que me desprezas"

Bonito isso.

suzi disse...

Muito bem escrito.
Me lembrou um trecho do Ariano Suassuna e vou posta-lo aqui.

"0 Mundo é um livro imenso, que Deus desdobra aos olhos do Poeta!
Pela criação visível, fala o Divino invisível sua Linguagem simbólica.
A Poesia, além de ser vocação, é a segunda das sete Artes e é tão sublime
quanto suas irmãs gêmeas, a Música e a Pintura!
Vem da Divindade a sua essência musical.
Mas, meus Senhores, ninguém queira tomar como Poesia qualquer estrofe,
pois há muitas Poesias sem estrofes e muitíssimas estrofes sem Poesia...
Ser Poeta, não é somente escrever estrofes! Ser Poeta, é ser um "geníaco",
ser "filho assinalado das Musas", um homem capaz de se alçar
à umbela de ouro do Sol, de onde Deus fala ao Poeta!
Deus fala através das pedras, sim, das pedras que revestem de concreto
o trajo particular da Idéia!
Mas a Divindade só fala ao Poeta que sabe alçar seus pensamentos,
primando pela grandeza, pela bondade, pela glória do Eterno,
pelo respeito, pela moral e pelos bons costumes, na sociedade e na família!"

(Ariano Suassuna - A pedra do reino)

.