segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O último dia

(Em homenagem ao Dia da senhorita Morte)

Ele levantou cedo, mais cedo do que costumava fazer. Aproveitou para exercitar-se um pouco. Estava eufórico com tantos planos que tinha em mente. Resolveu fazer uma surpresa para a esposa e postou a mesa do café da manhã, o qual saboreou ao lado dela e dos filhos. Era um dia diferente. Sentia que estava entrando numa nova etapa de sua vida ao completar 40 anos. Iria fazer um grande jantar e formulava mentalmente a lista de convidados. Queria a presença de amigos, colegas de trabalho e parentes chegados. Chegava a hora de ir para o trabalho. Beijou a esposa, abraçou os filhos e partiu. No carro, um singelo bilhete desejando-lhe um feliz aniversário, devidamente assinado pela família. Decidiu que não iria trabalhar naquele dia, afinal, era seu aniversário e ele merecia isso. Queria estar ao lado das pessoas que amava, levá-los a praia, ao parque. E assim o fez. Naquele dia, revelou seus planos à esposa, imaginou os próximos anos e fez cálculos sobre a faculdade dos filhos que ainda brincavam, despreocupados com suas possibilidades futuras. O olhar apaixonado e admirador da esposa era um convite para ele dizer novamente o quanto a amava e o quanto era feliz ao seu lado, em todos esses anos. Resolveu ir comprar mais sorvete para as crianças. Na volta, uma bala perdida o encontrou. E ele morreu no parque, num dia de sol.

Ele levantou cedo. Pretendia iniciar seu expediente um pouco antes, pois tinha muitos compromissos para atender. Não tomou café, nem se despediu de ninguém. Estava tão absorvido em seus problemas que arrancou aquele bilhete no vidro do carro e colocou no porta-luvas. Leria depois. No caminho para o trabalho, párou no sinal vermelho. "Um atraso?", foi o seu último pensamento, antes de seu coração parar para sempre.

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