segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Humildade: rara como diamante

O colunista de Zero Hora, Paulo Sant'Ana é, sem dúvida, um dos articulistas mais respeitados do Rio Grande do Sul e já escreveu inúmeras crônicas maravilhosas, compartilhando suas experiências, suas dores, suas opiniões etc. Creio que todos que lêem ZH repousam sempre os olhos nas palavras de Sant'Ana. Isso não quer dizer que todos compactuem de suas ideias, mas ele esteve sempre aberto e incentivou o contraditório. Respeito imensamente o Sant'Ana e, não raras vezes, considerei-o próximo da genialidade.
E isso, acredito, é um fenômeno recorrente entre sua legião de leitores. Porém, sua crônica de domingo em ZH causa espanto, justamente pelo colunista apresentar uma vaidade exacerbada, glorificando-se em linhas e entrelinhas.
Como bem observou o Ruy Gessinger em seu blog (clique e leia), talvez ele esteja só ironizando ou querendo ser canonizado.


Não foram poucas as vezes em que o Sant'Ana reconheceu em si mesmo a genialidade que os leitores o atribuiam. Na crônica de domingo, ele disse ser "benévolo, condescendente, piedoso, construtivo, diligente no bem". Outro dia, discursou que a humanidade tinha perdido seus maiores gênios, entre eles Beethoven e Eistein. "E eu não estou me sentindo muito bem", avisou.

Talvez o colunista faça isso apenas por brincadeira com a própria aura mítica que experimentam pessoas públicas (sejam eles escritores, atores, juízes, médicos, jornalistas, políticos, cantores etc). Mas talvez (espero que não), o admirável Sant'Ana esteja mesmo fazendo um afago em si. Idolatrando seu ego.

Mas que seja isso, Sant'Ana constitui-se num precioso e necessário debate: sobre homens e mulheres que, ao conquistarem o pódio da fama (nem que, por 15 minutos), revelam-se ególatras por natureza. E pior: ousam vestir-se com o manto da humildade.

Ser humilde, creio, é uma qualidade extraordinária e impossível de ser imitada. A humildade é uma qualidade tão majestosa, que o próprio humilde não se reconhece como tal. Não se pronuncia desta forma. E, tampouco prenuncia seus talentos ou constrói altares para suas aptidões. Isso, quem faz, são os falsos humildes facilmente reconhecíveis aos borbotões e cujos olhares brilham fascinados pelas glórias do poder ou da fama.

Infelizmente, muitos confundem humildade com condição social, atribuindo que os humildes são aqueles que têm pouco dinheiro. É um erro tão comum, quanto equivocado. Afinal, são inúmeros os casos de pessoas pobres que ascendem socialmente, tornando-se parasitas sociais. E há tantos casos de pessoas ricas que se dedicam de coração pelas causas sociais. A humildade está (ou não) no coração de cada um.

Dito isso, lembro-me de uma coluna (do próprio Sant'Ana) em que ele falou sobre a humildade. Ele descreveu o encontro que teve com o cantor Julio Iglesias, quando fez um show em Porto Alegre. Momentos antes do show, Sant'Ana o encontrou nos bastidores e elogiou os sapatos de Iglesias. Este, pediu para que uma assistente trouxesse outro par, o qual presenteou ao colunista. Iglesias, então, prostou-se aos pés de de Sant'Ana para atar-lhe os sapatos. "Ele ajoelhou-se diante de mim com a humildade dos gigantes", relatou Sant'Ana.

Outra belíssima definição de humildade, eu ouvi certa vez ser proferida pelo ex-prefeito de Santiago, José Francisco Gorski (Chicão). Disse ele: "um homem jamais pode se abaixar perante os grandes. Mas deve se ajoelhar diante dos humildes". Eis porque a humildade é a máxima possibilidade humana, muito admirada entre pessoas de valor. E uma qualidade tão rara como um diamante e tão brilhante quanto.

Um comentário:

Nivia Andres disse...

Caro amigo,

Obrigada por teu comentário em meu blog. És sempre muito hábil e criativo no manejo da palavra. Cada vez mais refinado e sensível. Percebes, como poucos, as nuances de cada fato que examinas e, tão gentilmente, expressas opinião particular, dividindo-a com os teus leitores, que são muitos.

Tens toda a razão quando dizes que a humildade é uma virtude rara, encontrada em poucas pessoas, certamente naquelas que compreendem que elogios, fama, diplomas, honrarias, títulos, não servem para nada. No máximo, são úteis para estimulá-las a crescerem, a melhorar como seres humanos. Do contrário, corrompem e concorrem para nos tornar vaidosos, presunçosos, arrogantes, e pior, autossuficientes, insuportavelmente pretensiosos.

Quanto ao Paulo Sant'Ana, compartilho da tua opinião e acrescento que, talvez pela gravidade dos problemas físicos que enfrenta, com a vida sempre por um fio, busca tornar-se inesquecível. E dual. É Paulo e Pablo, à semelhança (resguardadas as devidas proporções) de Fernando Pessoa e seus heterônimos, que sempre viveu perigosamente, mas eternizou-se através da sua poesia de múltiplas vozes. Paulo (Pablo) quer eternidade através das suas crônicas...Para muitos, isso soa como pedantismo. Pode ser uma maneira de prender-se à vida, que se escoa.

Um grande abraço e vamos seguir trocando figurinhas de cordialidade, gentileza, opinião e contestação, como bem sugeres em outra significante postagem. Trocas sempre são valiosas.