quinta-feira, 3 de setembro de 2009

...E se hoje fosse o último dia?


Levantaria cedo, extraordinariamente cedo. Talvez, aí por volta de 6h30. Tomaria um banho, faria a barba. Escolheria uma roupa que eu gosto, usaria um pouco de perfume. Colocaria uma toalha na mesa e esquentaria o leite, prepararia um sanduíche de queijo e mortadela. Nesse dia, tomaria café sem pressa, sem ser de pé. Esquentaria uma água, colocaria na térmica e tentaria preparar um mate. É claro que não saberia fazer isso, porque nunca soube fazer.

Mas quando meu pai levantasse pelo menos poderia dizer que a água já estava quente e era só cevar o mate. Enquanto ele fizesse isso, iria olhar de perto. Talvez até pedisse para que me ensinasse. Se hoje fosse o último dia gostaria de aprender algo a mais com ele. Depois, aceitaria compartilhar de alguns goles (mesmo que não tenha tanto esse costume). Nesse dia, isso proporcionaria alguns minutos que tornariam-se eternos.

Ele seguiria sua rotina. Eu iria fugir da minha. Se hoje fosse o último dia, cada minuto contaria. Não perderia tempo arrumando o guarda-roupa. Em verdade, sempre detestei perder tempo arrumando o guarda-roupa. Mas ainda assim pensaria que iriam ver ele depois e pensar "nossa, que bagunça". Tudo bem então. Arrumaria o guarda-roupa rapidamente, dando uma última olhada nos meus filmes, revistas e CDs. Cada objeto daqueles ocupou um pedaço de minha vida. Ideias, imagens e sons que proporcionaram horas felizes. E que também tinham sido compartilhadas com pessoas importantes para mim.

Se hoje fosse o último dia olharia para tudo o que tenho e perceberia que nada disso poderia levar comigo. "O conhecimento que elevamos ao nosso coração é o que levamos com a gente", iria refletir. E perceberia, talvez, que tudo é amor. E que o amor acontece a cada minuto. E que a felicidade é de instante a instante.

E pensaria que iria partir em paz, se hoje fosse o último dia. Porque até então, cada dia tinha sido único e cada pessoa tinha sido especial. E os singelos momentos ao lado de cada uma delas tinham sido raros.

Talvez, se tivesse mais tempo, iria querer escrever ou tentar abraçar todas e dizer o quanto suas vidas viviam dentro de mim. O quanto seus sorrisos me faziam sorrir e suas lágrimas me dilaceravam também. E tantos sorrisos eu dei, tantas lagrimas derramei, que compreenderia que tudo vira ensinamento. E o quanto todos deixamos de compreender os mistérios da vida justamente porque, assim como em cenas importantes de algum filme, "piscamos", justamente naquela hora.

Se hoje fosse o último dia, iria querer encontrar ou falar com pessoas que tanto significam para mim. Lhes daria um forte abraço e lhes agradeceria pelo ensinamento que proporcionaram. E lhes diria "até logo". No dia do último dia, se soubesse quando seria, afastaria qualquer pensamento injusto, qualquer mágoa que pudesse ter guardado.

No dia do último dia, se soubesse quando seria, trataria de libertar o perdão que há muito tivesse aprisionado ou negado ou ignorado. Porque, tenho certeza, o amor ganharia outro significado.
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Para o gigante de bigode em volta do berço, dedicaria minha primeira palavra em sua língua, chamando-o "pai".
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Abraçaria com muita ternura aquela mulher que me levou pela mão no primeiro dia de aula. E que ensinou tudo que o mundo jamais ensinaria.
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Teria coragem de dar uma flor para a garota por quem me apaixonei pela primeira vez (ao invés de aproveitar o recreio para deixar-lhe bilhetes anônimos de "eu te amo" no meio do caderno. PS: alguém).
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Diria para a primeira professora que nunca esqueceria o seu nome. E agradeceria por sorrir para mim.
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Diria para a menina de olhos verdes o quanto a amei (e ainda amo naqueles dias que estão acontecendo agora no passado que viveremos no próximo ciclo da roda de Sansara).
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Eternizaria aquele dia em que não viajamos para ir ao cinema, quando a princesa dos gatos se deitou no meu colo, no sofá vermelho e ficou me ouvindo cantar dezenas de músicas bregas (com minha voz brega e descompassada). Quando fecho os olhos volto com facilidade.
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Aos sete melhores amigos da minha vida, dedicaria as sete maiores virtudes de minha alma multifragmentada.
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Para a garota do pôr do sol, deixaria meu coração no lugar do pote de ouro no final do arco-íris.
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Na natureza nada se perde, tudo se transforma: a química, o amor, a dor. Vida e morte são dois lados de uma mesma moeda. Numa terrível simetria, uma é celebrada e a outra é temida, mas ambas são intensamente belas e cada qual carrega o mistério mais profundo e a verdade absoluta, só vislumbrada quando as luzes se acendem. E novamente quando se apagam.

A morte não existe, a não ser como uma ilusão que nos ensina que a vida se encerra. O que se encerra é uma existência, uma etapa. Pois somos todos como atores, vivenciando papéis no teatro da vida.

Se hoje fosse o último dia, minha alma se desprenderia. Dançaria e cantaria. O fim se torna o princípio e o que fica é a certeza infinita de que o universo possui variantes de única vibração/composição/força/arte/química/sensação:

Tudo é Amor...

...e se hoje fosse o último dia, eu saberia?

5 comentários:

Cristiano disse...

Excelente texto. Excelentes pensamentos. Grande abraço e ótimo último dia pra ti, my friend. rs

Melo disse...

Olá!rs,obrigada!
Pois é que na verdade ás vezes queremos falar , mas ninguém quer nos escutar, ai, lá vai a gente escrever!
adorei o seu blog, já ri muito, adoro isso: senso de humor!!!!
Fica bem.
bjinhos!

Tainã Steinmetz disse...

Eu ia pirar!!! Ainda não escutei todas as músicas que eu preciso!!!

Anônimo disse...

Vamos pensar ao contrário, e se hoje vc descobrisse que irá ficar, para sempre, onde vc está??? Com a mesmas pessoas ao seu redor, com sua vida da forma que ela está agora??? Isso nao seria aterrador?
A nossa transitoriedade também nos leva à felicidade, é preciso saber aproveitá-la. Um abraço!!

Giovani Pasini disse...

Parabéns pelo texto!

Continue sempre producente!

Abraços

Giovani