quinta-feira, 18 de junho de 2009

O catador


Um catador de papel de uma grande cidade passa na frente de um luxuoso hotel. Ele estaciona sua gaiota próximo do meio-fio e se põe a recolher algumas caixas de papelão, olhando de soslaio para os engravatados, madames e podles que entram no prédio. Na porta, um funcionário embecado, usando luvas brancas e chapéu abre a porta para quem chega e quem sai, sempre com um largo sorriso. O catador coloca os papelões dentro da gaiota e se retira devagar. Alguém diz:

- Senhor?

O homem não dá bola. Tinham dito "senhor". É claro que não seria com ele. Ninguém lhe tratava por "senhor". Ele ouve passos. Alguém toca o seu braço. Era um funcionário do hotel, que cuidava da garagem.

- Deixe que eu estaciono o seu veículo.

E, sem cerimônia ou demonstrar desdém, assume a condução daquela gaiota suja e enferrujada, tal como se dirigisse uma Mercedez, conduzindo-a até o estacionamento. O catador fica sem entender, até que o porteiro do hotel o chama.

- Senhor, por gentileza...

Sem entender nada de nada, ele vai até o porteiro. O que teria feito de errado? Será que havia alguma coisa valiosa entre aquelas caixas de papelão que recolhera? Será que iriam chamar a polícia ou coisa assim? Talvez fosse melhor fugir, talvez fosse melhor dialogar. E ele foi até o porteiro de luvas brancas com intenção de pedir desculpas pelo que tenha feito de errado. Ainda que sequer soubesse o que tenha feito. Tirou o boné desbotado e limpou o suor antes de encarar o porteiro que, robóticamente, lhe escancarou um sorriso. Em seguida, abriu a porta do hotel para o catador.

- Entre, por favor e sinta-se plenamente à vontade.

"Plenamente", o porteiro disse. E não apenas lhe sorriu com a boca escancarada, mas também com os olhos. O catador foi entrando naquele saguão de mármore, tão enorme que produzia eco do barulho que seus chinelos Havaiana (pé dum, pé doutro) fazia em seus calcanhares. Há anos, passava todos os dias na frente do enorme prédio e até evitava olhar para dentro, sentindo-se insolente. Não hoje. Ele tinha sido convidado a entrar, sabe-se lá por qual motivo. E foi entrando, esperando que o enxotassem a qualquer momento. Mas, curioso como uma criança, ele foi se encantando com tudo aquilo que estava diante dele. Coisas que ele já tinha visto ou ouvido falar pelas novelas da Globo. Um funcionário do hotel se achega, atencioso, perguntando de sua bagagem.

- Eu...não tenho nada, não, moço.
- Então, deixe que eu carrego o seu chapéu!

E com toda o respeito e reverência, o rapaz se põe a carregar o boné do catador, conduzindo-o até a porta do elevador.
- Entre! Quer que eu ou conduza até a sua suíte ou o senhor gostaria de conhecer o nosso restaurante?
- Eu... não sei. Posso dar uma olhadinha no restaurante?

Já que ele tinha oferecido, por que não? Quando chegasse em casa, o catador poderia contar para a esposa e seus cinco filhos a respeito desse dia. E também para os primos. E os vizinhos. E um dia, até para os netos. Chegaram no restaurante, onde homens e mulheres bem vestidos e perfumados saboreavam pratos requintadíssimos. Ao enxergá-lo, o gerente do restaurante não fez cerimônia. Estendeu a mão para cumprimentá-lo alegremente e, em seguida, puxou a cadeira para que sentasse.

- O senhor nos daria o privilégio de desfrutar das especialidades de nosso restaurante? Faço questão. E vou mandar que lhe tragam o melhor vinho que temos. Sinta-se plenamente à vontade! Sua estadia é por nossa conta!

E ali estava o catador, admirado das maravilhas desse novo universo. Os bacanas, como costumava chamar os engravatados, eram realmente bacanas. Gente educada. Lhe tratavam bem e sequer se importavam com seus chinelos Havaiana, sua camiseta velha e sua calça surrada. Não julgavam pela aparência, ao que aparentava.

Depois de deliciar-se com as comidas e os vinhos, o catador foi levado para a suíte. Entrar naquele quarto foi como se entrasse num disco voador. Bastava apertar um botão que o ar ficava quente ou frio. Bastava apertar um botão que uma tela de cinema se iluminava. Bastava apertar um botão que a banheira lhe massageava o corpo escalavrado. E o vaso sanitário, então? Era mais limpo que os copos de massa de tomate que usava para beber cerveja.

Da janela do quarto, ele enxergava um outro universo, uma outra cidade, que não era a mesma cidade de todos os dias. Ele via prédios que nunca tinha visto, praças que não pareciam estar ali, um trânsito tão perfeito. E ele, que nunca tinha voltado o seu olhar para cima estava vendo a vida acontecer, lá embaixo. E bem ao longe, distante dali, enxergava a pontinha do bairro onde morava, lá no morro. Toca o interfone. Era o pessoal da recepção, preocupado com o seu bem-estar. "Se desejar alguma coisa", ofereceram.

- Quero jogar canastra!

Em dois minutos, vieram três funcionários. Um trazia o baralho. Outros dois vieram para formar as duplas. E durante algumas horas, o catador jogou canastra e tomou cerveja (em taças, em taças!!) com seus amigos do luxuoso hotel de onde catava papelão. Pareciam velhos conhecidos. E talvez fossem mesmo. Ele até se sentiu culpado de não reconhecê-los da rotina diária de cruzar por ali em frente. Talvez eles lembrassem dele e, hoje, casualmente no dia do seu aniversário o estivessem presenteando com um pouco de gentileza.

- Acho que preciso ir. Perdi a minha rota hoje, mas valeu a pena.

Os funcionários do hotel ficaram preocupados com sua decisão de ir embora
- Mas por quê? O senhor não gostou de nosso hotel?
- Que avaliação o senhor fez de nosso serviço?
- Alguma coisa não está de seu agrado?

Ele não entendia o porquê de tanta preocupação. Queriam saber da sua opinião. Mas, para ele, que não entendia muito dessas coisas de gente bacana, estava tudo bem. Se despediu dos novos amigos. E até deu o seu boné de presente para um dos rapazes. Na recepção apertou a luva branca do porteiro, que desejou que ele voltasse em breve. E lhe escancarou um sorriso colgate. O outro funcionário vinha conduzindo a gaiota de papelão. E, feliz da vida, o catador voltou a cumprir o seu ofício. Chegou em casa atrasado e todos riram de sua história, de seu delírio.

- Vocês vão ver. O pessoal é meu amigo!

E foi tanto que riram-se dele, que ele se revoltou com as provocações. E fez questão de levar a mulher e os filhos para o acompanhar no dia seguinte. Ele nem levou a gaiota para não atrapalhar. Como o hotel tinha muitos quartos, seus amigos achariam um cantinho para seus parentes passarem um dia de bacanas, como ele tinha passado. Ao chegar na recepção do hotel com a mulher e a filharada, o homem do sorriso colgate olhou-os como se fossem cárie.

- Peço que se retirem daqui antes que chame a polícia!
- Mas sou eu, lembra? Nós jogamos canastra ontem...
- Foi um engano que cometemos. Apenas isso.

Mas o homem fechou a cara e não se mostrou disposto a dar explicações. O filho mais novo do catador puxou-lhe pela camisa.

- Vem pai. Vambora!

Há alguns metros, uma pilha de papelão. Pena não ter trazido a gaiota, mas não podia perder todo aquele material. E cada filho juntou algumas caixas para levar para casa. No meio do lixo, o seu boné desbotado, com o qual tinha presenteado um funcionário do hotel.

- Eles devem ter ficado magoados porque eu quis ir embora...

Resignou-se. E foi embora com sua família. Um pouco cuidava as caixas de papelão nas lixeiras. Outro pouco olhava para o alto dos prédios...

3 comentários:

José Cláudio disse...

Se isso fosse um sonho,poderíamos chamar de pesadelo. Muito lindo! Paz e bem.

Micheli Pissollatto disse...

Parabéns! Maravilhoso.

anderson disse...

Ótimo quando eu crescer quero ser igual a você, mas na escrita hehehhe