domingo, 21 de junho de 2009

Ao acaso...


Ele costumava se gabar do próprio nome: Paulo Ricardo. Dizia que era um nome bonito e marcante. E que, assim como o líder do RPM, era um cara bonito. Para ter mais semelhanças com o cantor, ele deixava o cabelo crescer (estilo mullet) e gostava de usar uma jaqueta de couro. Sempre quando chegava em casa, o tio Paulo me enchia o saco: me dava cascudos, me levantava do chão, bagunçava meus brinquedos, me tomava das mãos as minhas revistas em quadrinhos e estava sempre me colocando algum apelido odioso. Mas eu o amava.

O tio não era filho legítimo de minha avó/nossa mãe, assim como eu. A diferença é que eu era neto e tinha sido adotado por ela e meu avô. Ele, não. Não era, como se diz, filho de sangue. Mas o era em todo o seu coração. E, não duvido que no coração de minha avó também houvesse uma predileção por aquele maluco. Afinal, ele tinha uma expontaneidade que nenhum dos outros filhos tinha: quando a enxergava, a erguia nos braços e a chamava de "minha velhinha" e a abraçava. Ele sempre fazia assim quando ficava mais ou menos uma semana sem aparecer, mas agindo como se fizesse um ano.

Eu tinha 11 anos. Numa manhã de sábado, a minha avó (mãe de criação, mãe de coração) me fez levantar às 9h30 min, conforme eu tinha pedido no dia anterior. É que era por volta desse horário que passava o desenho dos Superamigos na TV. Em seguida, ela foi para a cozinha passar café para mim. Naqueles dias, a filha de minha avó e minha progenitora biológica (...) estava passando uns dias por ali.

O desenho dos Superamigos estava começando (lembro até do episódio...) quando ouvi gritos na frente da casa. Corri, abri a porta e vi meu avô (pai) abraçado em sua filha. Ele, com a expressão arrasada. Ela, aos gritos, dizendo "meu irmão, meu irmão".

Nisso, minha avó correu da cozinha assustada e ainda segurando a chaleira de água quente, com a qual estava passando o café. Foi a primeira coisa que vi. Olhei de novo para fora e entendi o que tinha acontecido. Corri até a minha avó e lhe tomei a chaleira das mãos.
- Mãe, por favor, me dá isso aqui. E senta no sofá...

Mas ela não sentou e meu pai entrou na casa e deu a notícia: meu tio Paulo Ricardo tinha morrido. Ou para ser mais exato, tinha se enforcado. Minha mãe caiu de joelhos no chão e foi abraçada por meu pai. Em seguida, chegaram os meus outros dois tios. Em poucos minutos, a casa já estava cheio de vizinhos e parentes e todos choravam e lamentavam.

Saí da sala e fui para atrás de um galpão. Fiquei me lembrando que na última vez em que tinha visto o meu tio, eu o xinguei porque tinha extraviado uma revista minha. Fiquei dando socos na parede e pensando "por que ele fez isso?", "por que foi se matar?"

E fiquei por ali um tempo pois não queria ir para junto de minha família por um motivo que me fez sentir culpado, aos 11 anos:

Eu não conseguia chorar!!!

Um pouco porque em meu último contato com o tio Paulo, eu o tinha xingado por uma bobagem (gostaria de ter lhe dado um abraço). Outro pouco porque eu achava que ele deveria ter pensado antes no sofrimento que a mãe iria sentir e na agonia de todos os outros, em busca de uma razão. E, talvez principalmente, porque eu pensei que a morte era uma coisa inevitável e que fazia as pessoas chorarem por algo que não podiam fazer nada e que sempre bate à porta de todos. Talvez mais cedo, talvez mais tarde. Para o tio Paulo, ela aconteceu aos 23 anos.

Ele me enchia o saco: me dava cascudos, me levantava do chão, bagunçava meus brinquedos. Mas eu o amava.

E, porque hoje estou lembrando desse assunto? Sei lá. Porque durante muitos anos evitei de pensar nele. Até porque lembro a minha mãe, naquelas semanas de luto dizer "que o melhor era esquecer". É que, atualmente, estou enfrentando algumas coisas, situações que...não sei. E eu realmente tenho dificuldades para chorar diante de coisas inevitáveis. Nem é dificuldade, é incapacidade, frieza ou inércia. Ou amálgama.

A gente sempre quer que as coisas sejam diferentes, não é mesmo? Mas somos poeira cósmica enquanto Deus joga dados com o universo. Ou o universo joga dados com Deus...

... ou não necessariamente dados. Não necessariamente Deus. Não sei se acredito muito no acaso. Não sei se acredito muito em Deus...

Um comentário:

Marisa disse...

Meu querido amigo!
Ao contrário de você, eu, não contive as lágrimas, imaginei a reação de seus pais... o quão forte foi a sensação de perda e impotência diante da morte.

Beijo enorme!