sexta-feira, 15 de maio de 2009

Meu amigo não é desse planeta...


Acordei cedo hoje. Por volta de 9h30, dei uma passada no jornal só para pegar um exemplar do Expresso e tomar o rumo da Prefeitura, onde iria pegar um material. Mas eis que a danada da Patrícia aproveita que eu estava por ali para me comunicar que logo mais uma turma da EMEI Bem-me-quer estaria visitando o jornal. Ela, como secretária, não poderia atendê-los e sair de seu posto de serviço. O Sidi, que tava por ali, é muito tímido. Sobrou para quem? Pro tio Márcio. Então, fiquei no aguardo e recebi as crianças. Mostrei como funciona o trabalho no jornal e falei algumas gracinhas. Depois, fiz uma foto das crianças, que atravessaram a rua e foram sentar no sol em frente ao Skill. O sol de inverno é o mais gostoso mesmo (ainda que não estejamos no inverno, mas o dia está invernal).
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Um guri chegou no jornal vendendo chocolate. Tinha de R$ 0,50, de R$ 1,00 e de R$ 1,50. Ele oferece para a Patrícia, que estava sem dinheiro. Em seguida, me oferece. Pergunto para ele se gosta de chocolate. Responde que sim.
- E tu come esse chocolate aí?
- Eu não!
- Mas por que? Não me disse que gostava?
- Gostar, eu gosto. Mas esses aqui eu tenho que vender.
- Então, eu te compro. Mas só se tu comer. Escolhe o que tu quer.

Na hora de escolher, ele acaba me revelando ser colorado, justo porque escolhe um chocolate com o desenho do logotipo do Internacional. Depois de escolher o dele, compro um para mim e lhe pago outro.
- Esse, tu entrega para aquela moça ali, para mim.
Disse eu, apontando para a Patrícia. Antes do guri ir embora, já tinha devorado metade do logo do Internacional.
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Passei na Prefeitura, mas não encontrei o Éldrio, que tinha dado uma saída, segundo uma amiga me informou. Atravesso a praça (eu gosto muito da nossa praça) e cruzo pelas Rua dos Poetas. O Antônio, popular Bolha, para de bicicleta ao meu lado e reclama da velocidade com que os veículos descem a rua General Osório, onde ele mora, que dá acesso a URI. E lamenta a falta de fiscalização da Brigada, a falta de atuação dos vereadores e senta o pau em todo o mundo.
- Talvez se organizem quando alguém morrer atropelado naquela pista de corrida.

Ele revela que junto com os vizinhos pretende ir até a Câmara na segunda e pedir por uma solução, lombadas, taxões, o que for possível. Elogio ele pela iniciativa e por demonstrar essa liderança.
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Passo no Centro da Beleza para comprar um shampoo e cumprimento o Marco Malheiros, proprietário. Em seguida, aceno para a Joane, moça bonita, que outro dia me deu a melhor das caronas. Terça-feira eu vinha para o jornal comendo nozes pela rua quando desabou o céu. E, claro, eu estava sem guarda-chuva. Caminhei cerca de uns 50 metros me molhando, quando vejo a Joane surgir do meu lado, de guarda-chuva.

- Quer carona?

Melhor carona, né? Eu, debaixo da chuva e um moça bonita chega para oferecer carona. Como ela mora para os lados do jornal, me deixou bem na frente do trabalho. E eu cheguei sem me molhar muito.
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Lá no Bac, bato na porta, mas percebo que ele ainda não estava por ali. Resolvi ir para casa. Lá, me atraco a telefonar para alguns setores da Prefeitura para pegar informações. Fiquei um tempo conversando com a Denise Cardoso, secretária de Educação, que sempre é muito gentil. Em seguida, meu amigo Chico bate na janela do meu quarto. Aquele miserável estava nos fundos do meu pátio catando nozes.

- Enchi duas sacolas...

Ele me avisa. Brinco que vou chamar a Brigada e denunciar o roubo. Ele desdenha e quebra uma noz com os dentes, deixando cair cascas do chão do meu quarto.

- Depois tu junta ali.

Ele me avisa.
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O Chico fica alguns minutos lá em casa. Nesse tempo, conversamos rapidamente. Ele estaria saindo para fazer cobranças (da locadora onde trabalha). Assistimos alguns vídeos que eu tinha baixado. Sobre filmes, naturalmente. Depois, ele toma o rumo. Antes me conta que está acolhendo em sua casa uma amiga de sua esposa, Luana.

- A Camila não tinha onde ficar. O pai dela é um borracho. E a mãe é uma tonta da igreja.

E ele me conta que a menina, de 19 anos, vinha já há algumas semanas parando de casa em casa, porque não aguenta mais o próprio lar. Ela tem problemas motores e uma ingenuidade infantil, mas está decidida a se virar sozinha. No entanto, não encontra pessoas com paciência para ensiná-la, sendo rejeitada constantemente.

- E eu sei o que é ser rejeitado. Por isso, convidei ela para ficar lá em casa, por enquanto. Até se ajeitar.

Diz o meu amigo, que tem o coração mais puro que eu conheço.

- Mas ela trabalha muito bem. Está fazendo faxinas. Se tu souber de alguém que precise. Ela é muito caprichosa...

O Chico me recomenda, antes de subir na bicicleta. Por alguns instantes, fico olhando ele se afastar. Só para ter a certeza que ele poderia flutuar com a bicicleta, igual ao E.T, do filme do Spielberg. Estou convicto de que o Chico não é desse planeta...

Um comentário:

Giovani Pasini disse...

Parabéns pelas histórias!
Gostei de todas, principalmente a do menino que estava vendendo chocolate.

Certa vez, quando eu tinha 12 anos, eu vendia picolé. Eu e mais dois amigos disputávamos clientes e competíamos para ver quem vendia mais.
Certa feita, em uma casa lá perto do Hospital Militar, num calor infernal, um homem perguntou:
- Você tem picolé de cachaça?
Envergonhado, respondi que não.
Então ele me disse:
- Quero comprar todos os picolés de sua caixa, mas escolha um para você...
Instantes depois, eu voltava para a sorveteria com um picolé de morango cremoso e com a caixa vazia...
Isso foi há cerca de vinte e dois anos. Daqui há vinte e dois anos o menino irá lembrar do chocolate que você deu!
Parabéns.