terça-feira, 10 de março de 2009

Um sorriso no céu

Aos 22 anos, Clarissa era a moça mais bonita do bairro, da universidade e, dizem,até da cidade. Era boa filha, boa profissional e também dedicada nos estudos. Trabalhava de dia, estudava à noite e seguia uma rotina quase normal à das outras garotas. Porém, não costumava ir à baladas, barzinhos e, dificilmente, estava em rodas de amigos. Não bebia, nem fumava, não discutia religião e nem fazia questão de entender futebol ou falar retóricas. Pretendentes para ela não faltavam, pois todos gostariam de namorar uma garota como Clarissa: apaixonante, atraente, inteligente, deslumbrante, inacreditável. No entanto, ela não tinha olhos para ninguém. Se isolava em seu mundo de quatro paredes e se perdia em meio a livros (como "Clarissa", de Érico Veríssimo). Entre sorrisos e lágrimas, cantava "Antologia", de Shakira ou perdia horas na internet, lendo mensagens no Orkut de outras pessoas.

Clarissa estava só. Tinha na parede de seu quarto o quadro "O Nascimento da Vênus", de Boticelli e se sentia como a própria deusa desnuda em cima da concha, mas como se estivesse fechada dentro dela, alheia ao mundo (ou protegida dele?). Ingênua, rabiscava sentimentos em seu diário. Clarissa teve poucos namorados, os quais nada representaram. Nenhum foi capaz de compreendê-la, nem de tocar o seu nobre e meigo coração de alguma forma. Tampouco foram capazes de enxergar a tristeza de seu semblante. Os homens que conhecera tinham o péssimo hábito de serem idiotas e agirem como idiotas (também, esperar o quê de idiotas?). Os dias passavam e o coração de Clarissa apertava e ela sentia saudades de algo, cada vez que olhava as estrelas, incapaz de explicar o que era. Clarissa acreditava em destino, em almas gêmeas e em amor verdadeiro. Para ela, o mundo era permeado de magia e sentia isso na beleza de tudo. Adorava a lua minguante que para ela, parecia o sorriso do gato de Alice solto no ar. Se reconhecia minúscula, ao olhar para as estrelas e sentia que em algum lugar alguém também olhava com a mesma aflição para o infinito. Era como uma conexão telepática. Sabia que em algum lugar do planeta perto ou longe, estava a pessoa que completaria a outra metade de sua alma dividida.

2 comentários:

tainã disse...

Por alguma razão me identifiquei com esse texto...

;*

Micheli Pissollatto disse...

Também me identifiquei com este texto.
Ficou muito bom! Parabéns.