sábado, 21 de março de 2009

Quer conhecer uma pessoa? Coloque-a na fila do supermercado


Existe um famoso pensamento que diz que basta dar poder para uma pessoa para conhecê-la de verdade. Tal filosofia propaga a ideia de que, uma vez tendo a possibilidade de estar acima dos demais, tal pessoa se mostra ou grandiosa ou medíocre. Os grandiosos são aqueles que, diante dos humildes se ajoelham e diante dos poderosos não baixam a cabeça.

Já os medíocres, que são os que existem em profusão, esses querem subir por cima dos humildes e parecer humildes perante os poderosos, tendo ainda a pachorra de se declararem humildes. Pois bem, da mesma forma que é possível conhecer a índole de alguém diante do poder, também é possível conhecer a educação, o caráter e o senso de humanidade de alguém e de forma bem simples: basta colocá-lo numa fila de supermercado.


O que existe de gente que tem devoção de ser mal-educado em fila de supermercado (ou outras do gênero) não está no gibi. Talvez seja o fato de que, por estarem pagando por algo, exijam tudo e mais um pouco. Em alguns casos, não basta apenas o serviço prestado de um atendente ou empacotador. É preciso humilhar. Já vi gente trancar fila e bater boca por causa de R$ 0, 1 centavos! Ou outra, que armou um barraco quando a atendente só perguntou se não poderia dar R$ 0,5 de bala.

- E se eu vier aqui comprar carne e pagar com um saco de bala tu vai me vender???
Respondeu ela num tom que deve ter feito a moça arrepender-se até hoje por ter perguntado.

Sempre costumo observar as reações das pessoas nas filas em geral. Mas em supermercados é possível observar alguns pormenores dignos de comentário. Hoje, na Rede Vivo, uma mulher se achegou com o carrinho de compras cheio. Viu todos os outros caixas lotados e escolheu aquele que tinha menos movimento: o caixa das cestinhas. Talvez, tenha até pensado que, em fila de cestinha, quem tem carrinho é rei (ou rainha). E, como o carrinho estava cheio, a dedução óbvia é de que aquela mulher estava com uma quantia necessária para pagar por todas aquelas compras. Ou seja, mais dinheiro que os demais, digamos. E, sem pudor, se apresentou com seu carrinho diante da atendente e ante a tristeza (e indignação) de quem estava atrás dela carregando cestas com poucos ítens. Quando chegou na boca do caixa, a moça alertou

- Desculpe, mas esse guichê é só para cestinhas com no máximo 10 ítens. Ou para idosos.
A mulher olhou com certo desdém para a funcionária e, em seguida, dirigiu o olhar para a plaquinha. Largou o carrinho ali mesmo e saiu pelo mercado. Voltou em seguida trazendo um senhor, possivelmente amigo dela.

- Veja: um idoso. Agora tu vai ter que me atender. Ele vai passar as compras para mim, como se fosse dele.

Ela disse bem assim, na cara-dura. Educada, a moça do caixa ainda tentou convencê-la das regras explícitas na plaquinha (que sendo ela cliente da Rede Vivo, já deveria saber muito bem):
- Sim, o caixa dá atendimento preferencial para idosos. Mas apenas para cestinhas com 10 ítens.
A mulher, em sua empáfia, não se deu por vencida. Pegou uma cestinha e começou a retirar ítens de dentro do carrinho, jogando na cesta e repassando para a caixa.

- Não seja por isso. Veja: 1, 2, 3, 4, 5...

A essa altura, a indignação fervilhava no olhar de quem estava na fila esperando ser atendido e tendo uma vaca incomodativa atravacando o seu caminho.

- Eu sou amiga do dono do mercado, mocinha. Trate de me atender, porque eu sei dos meus direitos como consumidora...

Ainda disse ela, com a voz alta, chamando a atenção de outras pessoas. O fiscal de caixa, vendo a confusão que se armava foi até o local. Ufa, pensei. Vai mandar essa mulher se catar e ir para outro caixa e parar de armar confusão com a atendente. Que nada. Depois de ouvir as reclamações daquela vaca (desculpe, mas estou extravassando a minha indignação ao lembrar e me referir àquela vaca como vaca. Vacavacavaca) o fiscal determinou que a cliente fosse atendida. E ainda pediu desculpas pelo transtorno.

A coitadinha da moça engoliu o orgulho, as regras impostas pelo próprio mercado e, penso, até um choro de raiva, o qual não podia manifestar. Quando o fiscal se afastou, a vaca ainda olhou para atendente, triunfante.

- Eu te disse que eu era amiga do dono...

4 comentários:

Rafael Nemitz disse...

Parabéns Márcio pelo teu posicionamento. As filas dos supermercados nos ensinam muita coisa... principalmente a conhecer as pessoas. Ou melhor, conhecer o lado feio das pessoas!
Infelizmente todos os dias ocorrem episódios lamentáveis nos nossos mercados... e a fila, que sempre bufa de pessoas, se torna ainda mais demorada e aí a confusão tá armana. Pena que na maioria dos casos, o cliente "sempre" tem razão... pelo menos aqui em santiago... afinal o cliente é amigo do dono do supermercado não é? E por isso ele pode colocar o estabelecimento de cabeça para baixo? Sinto que as pessoas esqueceram de ser humildes, cordiais, educadas... agindo de forma ignorante, para chamar atenção sabe-se lá de quem... só para aparecer!

Cristiano Freitas Cezar disse...

Reflexos de uma sociedade decadente, cujomaior valor é o que pode ser transportado nas carteiras, bolsas, cartões ou simplesmente na soberba.
Ridículo.

Sagitarius. disse...

estava procurando dados sobre supermercado pra uma pesquisa que se interessa, exatamente, pelo que acontece nesse espaço. super favoritado esse post e o blog. obrigada.

Sagitarius. disse...

estava procurando dados sobre supermercado pra uma pesquisa que se interessa, exatamente, pelo que acontece nesse espaço. super favoritado esse post e o blog. obrigada.