terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tomar porre é o máximo


Fui criado no meio daquelas tias mais velhas, sabe? Daquelas que adoravam fazer perguntas chatas do tipo "e as namoradas?". Pois, então. Toda vez que eu avistava aquelas tias para quem minha avó oferecia chá com bolachas de água e sal e doces de laranja azeda ou batata-doce, eu tentava permanecer no meu quarto o maior tempo possível lendo meus gibis. Até que me arrepiava todo quando ouvia, lá da sala, alguma delas indagar "e cadê o Marcinho"? Aí, começava um pedido de socorro mental, como se fosse um mantra, para minha mãe (nãomechamanãomechama). E ela me chamava. E lá ia eu, sem jeito, me apresentar para as tias. "E as namoradas? E as professoras? E os teus boletim? Olha as artes, guri. Não fica só lendo gibi e livro. Tem que estudar". Eu tinha um ódio daqueles comentários todos. O pior é que, um dia, uma professora minha pegou um bilhete que eu tinha recebido de uma colega de aula e me entregou para minha mãe. Pronto, meu rendimento escolar tinha caído porque andava de namoro. "Tu é novo para namorar", me aconselharam as tias velhas.

Pois bem. Não sei se foi a minha convivência a vida inteira com pessoas mais velhas. Mas hoje em dia tenho dificuldade de comunicação com alguns jovens fora de meu círculo de amizade. Outro dia, eu e o Chico estávamos lá no Ricardo Lanches. Aí, chegou um conhecido dele e nos cumprimentou.
- Fala, velho!
E ficou conversando com o Chico. Em seguida, cruzaram outros dois por ali, amigos do primeiro e pediram licença para sentar.
- Fiquem à vontade.

E, assim, estámos num grupo de cinco jovens. Depois, apareceu mais duas meninas, conhecidas dos dois primeiros. E assim, já somávamos sete pessoas. Aos poucos, o Chico e eu fomos ficando sem assunto para conversar com aquela gurizada. Tentamos falar sobre filme? Não avançou muito. Falar sobre livros? Não eram de ler. Jornais? Só viam as fotos. Aquecimento global? "Pois é, dizem que acontece". E eu e o Chico, então? Éramos incapazes de acompanhá-los em seus assuntos e risos fáceis. Fui me sentindo temporalmente deslocado e senti que era hora de ir embora o quanto antes.
Ainda mais ao ouvir cada um daqueles guris relatando seus porres. Cada um tinha uma história para contar. E cada um contava sobre um porre pior que o do outro. "E teve uma vez que"...

E todos riam. E eu entendi que entre eles, tomar um porre e ter história para contar era o máximo. Foi quando um deles me perguntou se eu já tinha tomado um porre. Queriam ouvir a minha história. Admiti que não gostava de beber e senti os olhares me transformando no E.T, o extraterrestre.

Um breve silêncio e alguém logo lembrou do dia em que pegou o carro do pai, tomou um porre e nem sabe como conseguiu chegar em casa. Quá, quá, quá. Eles achavam o máximo. Eu e o Chico fomos embora dali, nos achando mínimos. Éramos desinteressantes sem histórias para contar e, para eles, parecíamos tias velhas...

3 comentários:

Anônimo disse...

É Marcio. No lugar onde me criei nem se falava nisso, no máximo se contava do tombo do cavalo, da rodada do cavalo. Eu contava muito de uma égua tubiana que uma vez me deu um coice, mesmo eu estando montado em outro cavalo. Me rachou a canela, até hoje tenho a marca.Também tinha as tias velhas, era bem assim. É amigo, os tempos mudaram, por isso, talvez que eu hoje, com 22 anos, sou casado e dirijo esse singelo Jornal em Santiago, enquanto outros jovens tomam porres e mais porres...

Abraço.

Leonardo Rosado.

Elisandra Minozzo disse...

Márcio, eu também me sentia uma ET e não bebia, não bebia porque não queria. Mas eu descobri que tomar um porre de vez em quando é massa! Não nos deixa emburrecidos ou menos profissionais, nem menos éticos ou mais falsos. Tomar um porre é como rir de si mesmo, no momento e lugar adequado pode ser muito bom. Experimenta!!! Hehehehe!!!

Anônimo disse...
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