quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Caio Fernando Abreu de Santiago


Ontem estive na prefeitura, onde pude conversar por uns instantes com a Ionara Salbego, que é gestora administrativa. Ela, como sempre, estava mergulhada no serviço. Mas numa pausa comentou que esteve assistindo ao programa da jornalista Marília Gabriela, no canal por assinatura GNT, onde ela entrevistava o ator gaúcho Carmo Dalla Vechia, que falava sobre sua carreira. Lá pelas tantas, o ator comentou que seu escritor preferido era Caio Fernando Abreu, que segundo Carmo, era natural da "região de Santa Maria". Maria Gabriela se empolgou e revelou que além de ser fã de Caio, tinha sido amiga do escritor. E contou que após concluir o primeiro livro que lera do escritor santiaguense, ela tratou de descobrir seu telefone e ligar para ele, se derretendo em elogios. Foi o princípio de uma amizade entre ambos.
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Quero enfatizar nas palavras de Carmo Dalla Vechia de que Caio era natural "da região de Santa Maria". Claro que ele não tinha a obrigação de dizer que o Caio era de Santiago, mas como a Ionara disse, por que ele não falou? Afinal, o próprio Carmo conhece a nossa cidade, pois já esteve aqui em 2001, onde ministrou um curso de interpretação. Tive a oportunidade de conversar com ele, inclusive. Comento sobre episódio para ilustrar a importância do Caio Fernando Abreu e da necessidade que nós, santiaguenses, temos em propagar a literatura desse maravilhoso escritor brasileiro, tão respeitado nos segmentos intelectualizados de nosso país. Aproveito para mandar um recado para a nossa secretária de Educação, a Denise Cardoso. É hora da SMEC, através de seu Departamento de Cultura, criar mecanismos para enaltecer e propagar a obra do Caio. De que forma? Vamos descobrir e sou parceiro nisso.
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Desde o final de 2007 eu venho insistindo numa possibilidade: transformar o prédio ao lado da Câmara de Vereadores, que está ocioso, num Auditório Multicultural que sirva para teatro, dança, exposições, palestras, reuniões etc e que seja batizado com o nome de Caio Fernando Abreu, onde possa ser criado também um espaço especial dedicado à obra do escritor.
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Tomemos o exemplo de Cruz Alta: o município se orgulha de ser a cidade do autor de O Tempo e o Vento. Tem avenida Érico Veríssimo. Museu Érico Veríssimo etc. Qualquer um na cidade é capaz de dizer quem ele foi e citar ao menos o nome de uma obra sua. Chegou a hora de fazermos o mesmo e transformar o Caio Fernando Abreu em nosso embaixador cultural.
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Alô, Carmo Dalla Vechia: o Caio Fernando Abreu é daqui, é nosso, é de Santiago.

3 comentários:

Marina Schutz - Santa Maria disse...

Talvez o Caio quisesse que pensássemos que ele era da região de Santa Maria. Até onde sei, ele sempre foi muito recriminado por grande parte da sociedade de sua terra, Santiago. Ao contrário de muitas outras cidades gaúchas, que não ligavam para sua opção sexual, em Santiago nunca valorizaram como deveríam o talento do Caio Abreu enquanto ele esteve vivo. Agora decidem gritar que ele era de Santiago, talvez só para chamar atenção para promissora "terra dos poertas". Um pouco de hipocrisia não acha?
Marina

Márcio Brasil disse...

Prezada Marina. Tu tens toda a razão, sim. De fato, o Caio viveu numa Santiago onde o preconceito era algo muito sólido. E acho que devemos desculpas a ele e não só a ele, mas a todos quantos foram perseguidos por expressar sua natureza ou seu pensamento. Outro dia mesmo ainda ouvi alguém comentar que eu não deveria insistir tanto em falar no Caio, porque "pegaria mal" porque ele era homossexual e sua vida particular não era algo exemplar. Foi quando lhe perguntei a respeito de determinado escritor gaúcho de enorme respeitabilidade. Ele me respondeu que era um escritor maravilhoso e eu complementei: "pois ele passava borracho, caía pelas esquinas e era motivo de piadas". Em seguida, comentei que não interessava a vida particular de um ou de outro, mas ideias que cada um propagava e eternizava através de seus contos ou poemas.

Assim como são válidas as ideias de Renato Russo, Cazuza ou outros grandes que nos deixaram o seu legado artístico a nos inspirar. Sua crítica é bem vinda e bem correta. Mas é chegada a hora da cidade se redimir. Afinal, os tempos são outros e não devemos pagar pelos erros do passado. Não sou muito ligado em passado ou história, a não ser para que ela sirva de lição para corrigir o presente e construir o futuro.

Um fraterno abraço!

Júlio César de Lima Prates disse...

Sabe, Márcio, eu concordo com a moça aí de cima. Eu nunca quis me manifestar sobre esse assunto, mas sei que é verdade; o Caio era odiado, perseguido, debochado e nunca foi reconhecido. Agora, após sua morte, e o reconhecimento fora, é que algumas pessoas se apropriaram dele como patrimônio de Santiago. Sei que não é o teu caso, que adora honestamente o Caio na mesma proporção que adora Santiago. A sociedade santiaguense é muito cínica mesmo. Eu acho bobagem a terra do Caio, isso é apenas um incidente. O que conta é que ele foi um cidadão do mundo e suas bandeira foram universais. Isso é uma terra boçal, estúpida e preconceituosa. E quem fala é um filho da terra, tanto quando vc e Caio. Os valores aqui cultivados são afetos a posse, a propriedade e tudo é medido com base nos hectares de terra e cabeças de gado. E nem estou falando na estupidez de uma sociedade dividida entre propriétários e não proprietários, onde o que mais flui sao valores reacionários e gananciosos. Eu não acredito em alma, mas almas podem existir e a do Caio, se existir, deve viver momentos de agonia com esse culto cínico que fazem do seu nome e o desprezo que lhe impingiram em vida.