domingo, 15 de fevereiro de 2009

Laços de ternura


Ambos nasceram em 1950, em meses diferentes. 14 anos se passaram e, em 1964, estudavam no mesmo colégio. Seus olhos testemunharam as transformações da época. Em 1965, ele notou o seu jeito de caminhar. Ela parecia deslizar pelo pátio da escola. Em 1966, sentaram lado-a-lado no ônibus. Em 1967, eram colegas de aula. Para eles, 1969, não foi lembrado pela chegada do homem à lua, foi o ano de seu primeiro beijo. Em 1973, ele a pediu em casamento. Em 1974, ela disse o sim. Em 1976, ele a traiu. Em 1977, ela pediu divórcio. Em 1981, reataram. Em 1983, assistiram juntos "Laços de Ternura". Ele jurou amá-la para sempre. Ela sorriu. Em 1984, ela fugiu com outro. Em 1985, ela escreveu uma carta, pedindo perdão e dizendo que o amava. O carteiro entregou o envelope a uma vizinha, que extraviou a carta, que ele nunca leu. Eles sempre se amaram.

Em 2009, ele é guiado pelos corredores do supermercado por sua netinha, de 03 anos, espevitada. A pequena esbarra numa senhora e derruba sua cesta. Ele ajuda a recolher as verduras e olha em seus olhos. Os mesmos que, em 1969, o encantaram. Ele não repara nas marcas de um rosto de 59 anos. Diante dele, novamente a garota de 19 anos, para quem jurou amor eterno. Passaram-se tantos anos e, engraçado, parece que foi ontem. Ela pensa no que dizer. "Tu leste a carta? Não significou nada?". Não, ela resolve calar. Ele força o joelho para levantar. Osteoporose.
- Vamos embora, vô.
Insiste a pequena, tomando o avô pela mão e puxando-o rumo à parte dos doces. Eles encaram-se uma última vez (como dois estranhos). Ele desculpa-se.
- Crianças...
Dá de ombros. Suspiram. Ela sorri e encosta seus dedos nos dele, quando ele a alcança o maço de couves que caíra no chão...

Um comentário:

Alessandro Reiffer disse...

Vejo que segues na "linha do tempo". Mais um ótimo escrito, não tão intenso como o "10 segundos", mas sempre com as tragédias dos relacionamentos humanos que tu expressas sempre com muita propriedade e sentimento.