terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Encontro (im) perfeito

Ele não gostava de usar gravatas. Não se sentia confortável com aquele negócio apertando o seu pescoço. Só as tolerava quando tinha algum compromisso formal, como um casamento ou festa de formatura. Por isso, foi um tanto peculiar a sua decisão de usar gravatas nessa noite. Era apenas um jantar, mas ele estava usando gravatas. E não só: também um par de meias finas e um terno impecávelmente alinhado. Por um momento, questionava se não havia colocado perfume demais,pois ainda estava sentindo aquele cheiro adocicado passadas uma hora depois de ter colocado, a ponto de lhe dar uma certa dor de cabeça. Talvez tivesse mesmo exagerado. Mas, de que outra forma iria se apresentar perante aquele monumento que estava sentada diante dele? O nome do anjo? Gabriella. Até o nome era de um anjo. A mulher mais colossal que ele já havia conhecido. E que, incrívelmente, havia aceitado sair junto com ele. Talvez fosse uma forma dela fazer caridade, ele pensou. Bobagem. Ele estava arrasando. E o que é mais incrível: ela ria das mesmas piadas manjadas que ele contou a vida inteira para os amigos, que sequer esboçavam alguma reação. Eram uns ignorantes, mesmo.

Ela o compreendia. E ria, com seu sorriso formado por dentes perfeitos. E a boca mais desejosa que já viu diante dele, ornamentado por um batom brilhoso. Como é que elas chamam aquele negócio mesmo? Glóss. Bonito de ver. Ruim de beijar. Tudo bem, ele a perdoava por isso. E também por aquele vestido preto (matador), com alcinhas atrás de sua nuca, as quais prendiam aquele decote provocante. Ele se controlava para não olhar. Descontando a hora em que ela se virou para o lado e pediu Four de Graiss para o garçom. Aproveitou para mirar-se naquele decote. Mentalmente, o comparou a uma pequena comporta de uma imensa barragem, insuficiente para conter uma enxurrada. Era como se a qualquer momento aqueles seios fartos fossem saltar para fora. Seios. S-e-i-o-s. Seeeeeiosssss...
Sem dúvida que eram os mais belos seios que ele já tinha visto. Imaginava se todo o investimento que faria naquele restaurante caro lhe dariam a oportunidade de pôr a mãos naqueles peitos.
- O que deseja, senhor? – perguntou o garçom, trazendo-o de volta a realidade.
- Peitos...
- Perdão?
- Aham. Quero peito...de peru. E vinho.

O garçom trouxe o pedido de ambos. Pouparemos o leitor de uma detalhada narrativa a respeito destes momentos. E também sobre o valor despendido pelo jantar. A pergunta aqui é: eles transaram? Vamos pular direto para o apartamento dela. (aliás, foi decisão dela ir para lá, após a famosa pergunta: no seu AP ou no meu. Foram para o dela).

A noite estava apenas começando. Eles continuaram bebendo vinho. E dançavam ao som de Michael Bolton. Estava tudo perfeito: a lareira, o vinho, a dança, a música. Tudo muito civilizado e romântico. Até que ela o largou no meio “When I Fall In Love”. Deu uns três passos para trás, encarando-o de forma insinuante. Secou a taça de vinho e a jogou na lareira. Em seguida, levou aos mãos para trás da nuca e começou a desatar aquele lacinho. A comporta se abriu e veio aquela enxurrada que ele tanto aguardava. A partir daí, a civilizade foi por água abaixo e ele libertou o homem das cavernas dentro dele. A noite foi perfeita.

Já era de manhã quando ele acordou. Olhou para aquela deusa nua ao lado dele. Que bom. Não havia sido um sonho. E poderia contar para todos os seus amigos sobre a noitada. Eles o invejariam. Bocejou e lembrou do sonho que tivera: via-se nadando nu numa barragem. Ninguém estava olhando e ele sentira a vontade de fazer xixi dentro da água. Que sonho mais esquisito. Bem, era hora de levantar e ele inclinou-se com cuidado para retirar o seu braço debaixo da cabeça dela, sem acordá-la. Foi nesse momento que percebeu a tragédia: a cama estava molhada.

Voltou a deitar abruptamente. Não era possível. Isso não pode ter acontecido, não com ele, não naquele momento. O vinho, claro, tivera um efeito devastador durante as horas de sono. Lembrou da sua mãe e daquela vez em que ela colocou o seu colchão para secar ao sol bem na frente de casa, o que fez seus amiguinhos sacarem o que tinha acontecido e lhe importado durante meses:
- Mijão, mijão!
Não. Ele só podia estar dormindo. O seu “amiguinho” que tanto orgulho tivera lhe dado na noite anterior, não poderia lhe causar essa decepção depois de tantos anos. O que ele iria contar para os amigos? Sobre a noite em que ficou com Gabriella e.... Não. Eles jamais poderiam saber disso. Gabriella se mexeu na cama. Ele parou de respirar por um instante. E agora? Quando ela acordar? Se ele conseguisse trocar a roupa de cama...

Tentou novamente mover o braço, debaixo da cabeça dela, mas parou no meio do caminho. Ela poderia acordar e descobrir o ocorrido. O que ele iria dizer? Quem sabe, se usasse um secador de cabelo, um ferro de passar, algo assim. Mas, para usá-lo teria de dar uma pancada na cabeça dela, se certificar que não iria acordar com o barulho. Diacho. O que fazer numa hora dessas? Quem sabe o melhor fosse usar da sinceridade, conversar com Gabriella, contar o que aconteceu e pedir milhões de desculpas. Foi algo involuntário. Mas é claro que isso poderia pôr fim a uma bela história de amor. O pior acabou acontecendo: Gabriella acordou.
- Ei, tu já estás acordado...
- Pois é...
- É impressão minha ou a cama está molhada?
Ele parou de respirar pela segunda vez, ficou vermelho-roxo-azul. Antes que pudesse dar alguma explicação, ela o interrompeu.
- Olha, não quero que tu penses mal de mim...
- Me desculpe, Gabriella, eu sei o que tu vais dizer. Realmente, foi uma coisa involuntária e...
- Eu estou com incontinência urinária.
- Hein?
- É isso aí. E nós bebemos muito vinho, né?
- Quer dizer que tu é que fizeste xixi na cama?
Um tanto corada, ela admitiu. Mas a naturalidade com que ela fez isso o acalmou. Depois tomaram café juntos e conversaram um pouco mais. Antes de ir embora, ela lhe deu o seu telefone.
- Tu me ligas?
- Claro.
E ele foi embora, mas nunca ligou. Pudera. Aquela mijona...

2 comentários:

Betina Marcondes disse...

As vezes isso acontece... e como acontece....bjusbetina...

Anônimo disse...

接続切断さ脳内手術任意の脳葉の接続を切断を指します。過去に統合失調症の深刻なケースで使用された。ロボトミー技術のパイオニア、ほとんどの精神外科の成功した