domingo, 8 de fevereiro de 2009

10 segundos...

Em silêncio, ele olhava para a sua bela esposa deitada e quase dormindo ao seu lado na cama. Há 30 minutos, os dois estavam com seus corpos colados e cobertos de suor. Ele deslizou a mão por suas costas macias e nuas, causando leves arrepios nela, que costumava gostar dessa sensação. Há 32 minutos eles gozaram juntos, depois de muito sexo. Em silêncio, ela sentia os dedos do esposo deslizarem por seu corpo, num carinho frio. Há 50 minutos ele tirava a roupa dela e chupava os seus seios com voracidade. Naquele instante, nenhum dos dois queria falar mais nada e ficavam ouvindo o próprio silêncio e adivinhando cada suspiro um do outro como se fosse o prenúncio para algo que seria dito. Nenhum dos dois quis dizer mais nada.
Ele levantou-se da cama e caminhou até a cozinha, evitando de pisar em cacos de vidro. Há duas horas, os dois tiveram uma terrível discussão, mais uma. Ele abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água mineral, abri e bebeu num gole só, matando a sede e tirando o gosto do sexo dela que ainda sentia em sua boca. Há duas horas e quinze minutos ela arremessou uma travessa com lasanha no chão.
Depois de beber, ele foi até a torneira e encheu novamente a garrafa, colocando-a de volta na geladeira. Sabia que ela implicava quando ele as deixava pela metade ou quando o flagrava bebendo no bico. Há três horas, ele pediu o divórcio mais uma vez. No quarto, ela tentava dormir buscando esquecer as palavras duras que ele mais uma vez proferiu, com sua fúria. Há cinco horas ela cozinhava para ele, esperando-o. Com os olhos fechados, ela ouviu o barulho na cozinha. Por algum milagre, ele devia estar enchendo a garrafa de água. Há sete horas ela ligou para sua melhor amiga para chorar as mágoas, acreditando que ele estava se encontrando com a amante.
No banheiro, ele fechou o zíper de sua calça e puxou a descarga. Olhou-se no espelho, desgostoso com sua própria imagem. Há seis horas, ele prometeu para alguém que iria se separar. Ele caminha até o quarto onde repousa o seu filho e lhe beija a face. Há dois anos, ele o levava para o colégio pela primeira vez. Ela ouviu o barulho na porta do quarto do menino, o pai dele havia entrado lá. Há oito anos eles foram juntos no ginecologista.
No quarto, o menino dormia com seu MP3 nos ouvidos. Ele não queria ouvir a briga dos pais. Há oito anos, ele fazia fotos enquanto ela o amentava no peito. Ele fechou a porta do quarto e atravessou a casa sem fazer barulho. Pegou sua chave, abriu a porta dos fundos e caminhou em direção a garagem.
Há 10 anos ele conheceu sua esposa. Ela era linda e compreensiva. No quarto, ela ouviu o barulho da chave na porta dos fundos. Será que ele estava saindo furtivamente para encontrar aquela vadia de novo? Há nove anos, os dois ficaram noivos. Ela se vestiu rapidamente para seguí-lo, pois não aguentava que isso continuasse acontecendo, não era isso o que queria para a sua vida.
Na garagem, ele pensou várias coisas ao mesmo tempo, parecia que sua vida tinha se passado diante de seus olhos, todas as horas de sua existência com a velocidade de um piscar. Há oito anos, ele jurou que iria ficar com ela até que a morte os separasse e beijou seus lábios coloridos de batom.
Vestida, ela atravessou a casa, correu até a porta dos fundos e saiu para fora. Ela ouviu um som retumbante na garagem, alguma coisa tinha acontecido. Ela abriu a porta e o enxergou com a cabeça mergulhada numa poça de sangue e uma arma na mão. Há 10 segundos ele se matou...

5 comentários:

Rúbida Rosa disse...

Gostei do jogo de inversão do tempo.Parabéns, ficou muito bom.

Froilam de Oliveira disse...

Grande Márcio!
A fórmula do tempo é inédita. Nesse conto, você se superou (deu um passo rumo a um estilo literário). Sou teu fã, sem bajoujice, claro. Abç

anabailune disse...

Há dez minutos li seu texto pela primeira vez. Há cinco minutos, li de novo. Neste exato momento, estou postando um comentário para dizer que você é um escritor maravilhoso!

Alessandro Reiffer disse...

Creio que este é o teu melhor conto, alías a melhor coisa que já escreveste entre contos e crônicas, pelo menos entre o que conheço de teus escritos. Concordo com o Froilam, tem muito estilo este conto. Espero que continues desenvolvendo esta linha. Abraço.

Micheli Pissollatto disse...

Magnífico conto! Realmente incrível, meus parabéns!