domingo, 4 de janeiro de 2009

O Conto Proibido



"As vozes o perturbavam, o perseguiam, o assombravam. E ele tentava livrar-se delas. De início, pensou que se tratava de alguma alucinação. Aos poucos, foi descobrindo que a vida não era o único plano de existência e que mortos o perseguiam. E eles vinham até ele, raivóticos, como se tivesse culpa por escutá-los. Queriam fazê-lo sentir também todo o sofrimento e agonia por perder o corpo físico. Queriam fazê-lo pagar por seus pecados, por suas vidas interrompidas. Alguém precisava ser culpado daquilo, afinal, do outro lado assim como no mundo tridimensional eles não enxergavam nenhum Deus para que pudessem praguejar ou jogar pedras. Impedidos do descanso eterno, eles perambulavam à procura de vítimas para aplacar o seu ódio e inconformidade. E desta forma o perturbavam. Ele resolveu dar um fim aquilo tudo. Iria também passar para o outro lado, pois sabia que as visões não o deixariam em paz. Ele seria, então, uma delas. Pegou o revólver que guardava há muito tempo. O revólver encontrado ao lado do que tinha sido a cabeça de seu pai, incapaz de aceitar a traição da esposa e de seguir criando o filho que ele descobria não ser dele. Ele levou o revólver até a boca. Era hora de acabar com tudo aquilo..."

Genaro folheava e lia alguns trechos das páginas do novo livro de João Pedro, seu amigo, que usava o nome artístico de J. P. Benites, sua nova identidade. "Nada a ver comigo", ele pensava. Mas a editora o convencera. "Ninguém vai comprar o livro de um Pedro alguma coisa", foi o que disseram. Era noite do lançamento de seu quinto livro: O Conto Proibido. A fila na livraria era imensa, quase toda ela formada por adolescentes e nerds. Todos adoravam as histórias de J.P. Ele era um especialista em mortes. Seus livros falavam dos pequenos dramas de pessoas anônimas, que morriam das formas mais inusitadas e, no entanto, carregadas de um realismo que atraia os leitores. Pedro ou J.P passou horas dando autógrafos e ouvindo os fãs comentarem sobre suas passagens favoritas em tal ou qual livro.

- Adorei aquela do viciado que morreu esmagado pelo trem.
- Pô, massa aquela da Vida e da Morte disputando a garota. Que troço mais lésbico.
- Minha preferida é aquela do cara que vendeu a alma para o diabo em troca de sucesso e se transformou num demônio no final.
- E a do cara que foi no cemitério dia de finados ver a esposa e morreu? Sepulcral.
- A mulher que se matou com um secador de cabelos na banheira. Show de bola!
- Minha preferida é aquela do filho que morreu e foi ver o pai pela última vez para se despedir e dizer que...
- Eu escrevi essa história. Eu sei como ela é.
- Ah, desculpe.
Era o último autógrafo da noite. Seu amigo Genaro o repreende.
- Tente ser simpático. São eles que te sustentam.
- Eu sei, mas experimente passar algumas horas ouvindo tudo isso. Nossa, como cansa. Ok, por hoje chega. Vamos, eu pago a bebida.
- Eu tava a fim de outra coisa hoje. Ouvi dizer que tem garotas novas lá na boate...
- Poxa, Genaro. Eu preciso acordar cedo.
- Para quê? Não seja moralista. Vamos lá. Vai que ela esteja por lá...
- Ela está lá.
- Aproveite para bater um papo e trepem de uma vez.
- Isso não vai acontecer. Ela é como uma irmã para mim...
- E que irmã gostosa tu tem, hein? Vou te dizer: semana passada comprei uma cópia pirata daquele filme pornô que ela fez.
- Não acredito que tu fez isso. Que nojo, Genaro.
- É, eu sei. Incentivar a pirataria não é legal.
- Estou falando da Thaís. Ela foi tua colega na faculdade e devia respeitá-la.
- Pô. A Thaís era a gata da faculdade, gostosa de arrasar quarteirão. E de repente se transforma numa estrela pornô. É óbvio que eu tinha toda a curiosidade do mundo de vê-la sem roupa. Tu não viu o filme? Todo mundo que eu conheço viu.
- Claro que não vi. E não quero que me fale sobre isso.
- Tá bem, desculpe. Mas ela é um tesão sem roupa. E tem os seios mais lindos que já vi...
- Que tal mudar de assunto?
- Desculpe. Vamos s’imbora.

E eles vão para uma casa noturna. Enquanto Genaro está agarrando-se com uma garota que esfrega os seios em seu rosto, Pedro ficava a um canto bebericando. Uma loira senta ao seu lado, insinuante, com roupas mínimas e perfume adocicado.
- Quer companhia?
- Já tenho companhia...
Ele diz apontando para a garrafa de cerveja.
- Algo mais quente?
- Não fumo.
- Eu quis dizer...
- Não sou idiota. Eu entendi o que quis dizer. Tu é bonita, mas não compro sexo, procure outro.

Ela pensa em dar alguma resposta, em chamá-lo de grosso ou algo assim, mas resigna-se. Afinal, se fosse dar uma resposta à altura para qualquer homem que trate mal as prostitutas, se cansaria. Levanta com ar superior, enaltecendo os seus atributos físicos, como se quisesse dizer com o corpo "veja o que tu não vai ter, babaca". Pedro segue bebendo sozinho, até que sente uma mão feminina tocar em seu cabelo.

- É por esse seu jeito especial de ser que ainda está sozinho. Vai morrer assim- ela diz-
- Aceito companhia- ele responde.
E a morena de pernas e cabelos longos, olhos cor de mel surge à sua frente, vestida como uma colegial. Senta à sua frente, provocante.
- Que roupa ridícula.- Ele diz
- Muitos homens devem achar o mesmo. Pagam caro para que eu a tire.
- Não fale assim, Thaís. Não fale como uma prostituta.
- E o que sou?
- Não para mim...
- O que veio fazer aqui?
- O Genaro queria vir. E é sempre bom te ver. Recebi o cartão de aniversário. Bacana.
- Para o meu amigo de infância. Meu primeiro amor. Meu ex-amor...
- Não gosto de vê-la aqui...
- Nem todos ganham dinheiro contando histórias. Aliás, não gosto desse seu novo estilo. É muita morte para o meu gosto, prefiria as suas historinhas mais doces, sabe? Aquela coisa de final feliz. Por mais que sejam de mentirinha.
- Bem, a vida não tem final feliz, né? E, afinal, as histórias de mortes dão muito mais grana...
- É a sua forma de se prostituir também, né?
- Ou de me punir...
- Ah, claro. Ainda o pobre menino rico em busca de um pouco de culpa e auto-piedade...
- Como psicóloga tu é uma ótima prostituta...
- Eu não me ofenderia com isso. Mas sei que tua intenção foi essa. Então, foi bom te ver...
- Desculpe, Thaís.
- Milene. Como o senhor não me ofereceu nada para beber, vou ver meu próximo "paciente".
E ela levanta, elegante e sexy, deixando para trás aquele misto de cigarro e perfume. "Eternity", ele lembra.

Há poucos metros, Genaro passava as mãos nos seios de uma garota, enquanto ela bebia e olhava para Pedro e Thaís.
- Eu já vi o seu amigo aqui outras vezes. Nunca quer ficar com ninguém e só conversa com a Milene.
- Que Milene?- Ele pergunta, procurando ver com quem Pedro estava- Ah, ela...
- Ele deve ser rico, né? O cachê dela é altíssimo. Ainda mais depois do filme. Eles tem algum lance?
- Acho que ele é meio que... apaixonado por ela desde criança. Eles se conhecem há muito tempo.
- E por que não estão juntos?
- Piff. O Pedro jamais namoraria uma prostituta, é cheio de regras e moralidades.
- Mas eles já treparam?
- Vamos explicar dessa forma: acho que eles nunca se tocaram, nunca fizeram sexo. Mas trepam um com o outro toda vez que seus olhos se encontram.
- Ai, que meigo isso...
- Eh, eh, tu achou?
- Achei muito inteligente, tu é inteligente. Quer me ensinar a ser assim?
- Quero. Ô, se quero.

Pedro vai até o amigo e o convida para ir embora.
- Tu não facilita nada, hein? Que tal relaxar um pouco e gozar?
- Foda-se. Detesto esse lugar. Foi tua idéia vir aqui. A cerveja, pelo menos, está no ponto.
- Então, tu fica com a cerveja que eu vou para o quarto. Essa menina é um tesão. Que idade tu tem?
- Então, tu fica aí e pede um táxi. Vou embora.
- Ah, péra lá, JP.

E ele sai para o pátio, em direção ao seu veículo que estava estacionado. Ao fazer uma manobra, ele olha para a sacada de um dos quartos do prostíbulo. Era ela. Seus olhares se fitam por alguns instantes, antes dela ser abraçada por trás por outro homem. Estava começando a chover. Ele odiou ter vindo a esse lugar. E amaldiçoou ainda mais por ter visto-a. Ele odiava cruzar por ela. Odiava que ainda morassem no mesmo planeta. E odiava ter esses sentimentos todos. Arranca dali e toma o rumo da estrada, para a solidão de sua casa. Logo adiante, na estrada, um policial chamava a atenção dos motoristas para que diminuíssem a velocidade. Há poucos metros um grave acidente de carro. Dois veículos haviam se chocado violentamente. Pedro diminui a velocidade do carro e cruza devagar pelo local para observar o trabalho dos Bombeiros e dos policiais tentando tirar os corpos das ferragens. O cheiro de sangue e morte estava impregnado no ar. Num golpe de luz, Pedro enxerga de relance dentro de um dos veículos: um rosto pálido e ensanguentado olhando para ele, batendo nos vidros. Num piscar de olhos, a imagem não estava mais lá.

Mas foi o tempo que bastou para um calafrio percorrer a sua espinha. "Foi o reflexo da luz", confortou-se, aflito. Pedro chegou em casa, sendo recebido com festa por seu cachorro, o Capeto. Ele dá um pouco de atenção ao cachorro e abre um pacote de ração. Mais tarde, depois de tomar um banho, ele perde alguns momentos pesquisando na internet. Foi ler as críticas a respeito de suas obras. Acessou um fórum. Era sempre a mesma coisa: os críticos detestavam o seu estilo, mas os fãs o veneravam. "É o nosso Stephen King", diziam os mais afoitos. É claro que Pedro sabia que não era nem perto disso, até porque Stephen King era o seu ídolo, seria um sacrilégio. Os críticos, no entanto, eram menos suaves: "não chega aos pés de um Zé do Caixão". Não tinha jeito, os críticos gostavam era de detonar o seu trabalho, por mais inspirado que ele se apresentasse.
- O que acha disso, Capeto? Vou começar a deixar as unhas bem aparadas.

Diz, conversando com o cachorro. Não interessava mais ler aquilo. Era hora dele fazer o que fazia de melhor: escrever. Para isso, Pedro tinha um ritual particular. Apagava todas as luzes da casa e só mantinha o ambiente iluminado pela tela de seu computador. Na noite de hoje, no entanto, os raios da tempestade davam breves flashs. Deixava tocando um CD do Led Zeppelin e ficava esperando a inspiração chegar. Às vezes, demorava um pouco, às vezes, era rápido. Mas sempre a inspiração chegava até ele como um sopro. E assim, começava a descrever os dramas mais reais, as mortes mais terríveis e as transformava em contos proibidos para menores devido as doses de realismo e violência, mas que seduziam milhares de leitores, que o sustentavam. Pedro era convicto de seu talento e, até mesmo por isso, se tornava arrogante. Quando começava a digitar em seu computador, seus braços se tornavam dormentes e as histórias vinham como uma enxurrada. Era como se entrasse em êxtase. Vez por outra, fazia uso de algumas substâncias adquiridas ilegalmente para entrar nesse transe criativo. Pedro costumava usar drogas, mas não era um viciado. Ele acreditava que tinha disciplina e conseguia controlar-se, fazendo uso delas apenas para escrever. E as histórias surgiam na tela à sua frente:

- Uma mulher que ingeriu vidro picado e esvaiu em sangue deitada ao lado do marido, que foi incriminado.
- Uma criança que morreu eletrocutada ao abrir a porta da geladeira.
- Um servente que se enforcou no refeitório de uma escola.
- Um agricultor que foi esmagado por uma colheitadeira.
- Uma menino que, brincando, disparou a arma do pai contra a cabeça da própria mãe, que amamentava o seu irmão. O pai não tinha porte de arma e foi preso.
- Um casal esmagado nas ferragens de um acidente entre dois carros.

Depois de terminar de escrever Pedro se dá conta: havia inserido uma cena que presenciara. Não costumava fazer isso, foi um descuido. Uma pena que ele havia imaginado toda a situação que levara os seus personagens ao minuto fatal. Pensou em deletar toda a passagem, mas estava muito bem construida. Ora, dane-se. É apenas um acidente de trânsito como outro qualquer. Onde está a criatividade disso? Deletou a passagem. Depois, foi descansar. Já era tarde.

Para dormir, Pedro também tinha um ritual particular. Gostava de misticismo e estava estudando sobre isso. Acendeu incensos, fez exercícios de meditação e tentava técnicas para fazer desdobramento astral. Ele havia lido sobre isso e era fascinado sobre o assunto. Nessa busca, procurou todo o tipo de literatura sobre isso e até frequentou alguns círculos ocultistas. A possibilidade de sair fora do corpo e vagar pelo astral é certo que ampliaria a sua criatividade, além de fazê-lo compreender algumas coisas sobrenaturais que o perseguiam desde criança. Eram como sussurros e presenças obscuras. Mas ele usava o medo daquilo que o perseguia (e não compreendia), para tentar ser o melhor escritor possível. Para isso, faria até pacto com o demônio, se acreditasse na existência dele. Naquela noite, ele não conseguia se concentrar, lembrando do acidente na estrada e daquele reflexo pálido e ensanguentado no carro. Alerta, Capeto começa a latir, chamando a atenção de seu dono. Em seguida, o cachorro sai do quarto correndo.

- Ei, JP....
Pedro ouve a voz de Genaro, seu amigo. Ele surge na penumbra do quarto, com a camisa ensanguentada.
- Pô, cara. Uma pena tu não ter ficado. Aquela guria me matou de tesão.
- Como tu entrou aqui?
- O que tu acharia de morrer pelado e excitado? Que sacanagem...
- Do que tu tá falando, Genaro. Tá bêbado?
- Bebi todas. Mas não tô mais bêbado.
- Genaro, faz o seguinte: toma um banho e deita lá no sofá. Eu preciso dormir.
- Ei, JP. Sabe aquela história de que tu tem direito a um telefonema quando vai preso? Pois é....
- Tu não tá falando coisa com coisa.
- A mulher de preto disse que eu teria direito a ver uma pessoa antes de ir embora. E...eu te escolhi, parceiro. Ehehe. Acho que é porque... eu não tenho mais ninguém mesmo ou porque fiquei com medo de escolher alguém que não iria se importar. E eu acho que tu se importaria. Pode parecer meio gay eu dizer isso, mas bem, tu sabe que eu não sou gay. Então...eu te amo, cara. Valeu!
Pedro vira para o lado na cama. Ajeita-se no travesseiro.
- Tá bem. Eu também te amo. Agora, vai te foder e me deixa dormir.
- Eheheh. Eu já me fodi, parceiro...

Pedro senta na cama para insultar o amigo, que se desintegra diante de seus olhos. Antes dele sumir, Pedro percebe os buracos de bala no peito dele. Um calafrio percorre o seu corpo. Pedro acende o abajour.
- Que porra foi essa?

O telefone toca.
- Senhor João Pedro?
- Sou eu!
- Aqui é a polícia. Estamos com o telefone do senhor Genaro. O seu número foi um dos últimos que ele ligou. Temos informação de que o senhor esteve com ele nas últimas horas....
- Aconteceu alguma coisa?
- Três tiros no peito. Foi isso o que aconteceu com ele.

Pedro ouve as palavras do policial, enquanto sua mente tenta ligar o que aconteceu a Genaro àquela visão no quarto há poucos instantes.

- ... E a menina era menor de idade. O pai dela invadiu o local e disparou contra o senhor Genaro.
- Eu...não sei o que dizer.
- Então, peço que vá até a delegacia pela manhã.

Pedro desligou o telefone, ainda pensando que não podia ser verdade aquilo. Genaro bem poderia estar de sacanagem para cima dele. Mas e aquela maldita visão pouco antes do telefone tocar? O pior é que ele tinha certeza de que estava acordado e que, naquela noite, não tinha usado de nada que o fizesse viajar. Genaro, seu melhor amigo tinha sido assassinado. E Thaís, o ex-amor de sua vida, ainda era uma maldita prostituta...

No dia seguinte, na delegacia, ele aguardava impaciente a sua vez de falar com o policial encarregado da investigação.
- Olhe, eu aceitei vir, mas não tenho planos de perder a manhã por aqui...
Diz ele para o atendente.
- O senhor já será ouvido. Só mais alguns instantes.

Pedro resigna-se e volta a sentar. Saca o celular do bolso e fica mexendo nele, impaciente. Detestava ficar parado, ainda mais à espera de alguém. Já haviam se passado longos 30 minutos. Uma eternidade para ele e para qualquer um que se sente numa delegacia. Cruza os braços e suspira alto, com intenção de demonstrar seu descontentamento. Ele começa a sentir uma certa tontura, uma pressão na parte de trás da cabeça. Os pêlos de seu braço ficam eriçados num instante.

- Disseram para eu falar contigo...
Pedro surpreende-se com a voz que surge no sofá ao lado. Ele não tinha percebido a moça que estava ali, sentada.
- Tu trabalha aqui?
Ele pergunta para ela, enquanto o atendente lança um olhar curioso para o escritor.
- Eu o procurei...para revelar a minha história.

Ela diz, evasiva. A moça parecia confusa, é claro que ela não trabalhava aqui. Parecia ter mais jeito de drogada. Talvez tenha sido presa com entorpecentes. "Ótimo. Pelo menos, alguém interessante para conversar", ele pensa.
- Eu usava drogas, sim...
Ela responde, como se tivesse lido o pensamento dele.
- De vez em quando, eu também uso. Só não conte para eles.
Ele diz, sussurrando perto dela e apontando com o queixo para os policiais.
- A culpa é minha- diz a moça, ignorando as palavras de Pedro- eu não sabia que minha mãe sentiria tanto, mas ela sentiu. E isso está me destruindo muito. Mas eu não sabia o que fazer. Eu o amava, mas ele me abandonou e isso doeu demais, foi ficando insuportável. Não dava para viver com toda aquela dor, sabe? É como se o peito da gente pesasse tanto, tanto. Eu não comia, eu não dormia, eu só chorava. Minha mãe acha que a culpa é dela, mas eu queria dizer para ela que não é e que eu me arrependo de ter feito o que eu fiz, porque a dor que eu sentia era realmente pequena, insignificante mesmo. Mas eu só sei disso porque a dor que carrego agora é muito pior. E ela é para sempre. E agora não há uísque ou cocaína que faça passar...

Pedro não estava entendendo nada. O policial o chama. "É a sua vez. Pode passar", ele diz. Pedro desiste de conversar com a garota.
- Preciso ir. Depois a gente conversa.
- Tu não está entendendo. Eu vim de longe para encontrá-lo. Preciso te contar a minha história. Preciso que entenda. Preciso que fale para os outros. Eu não tenho muito tempo.
- Tudo bem, eu entendo. Mas tenho compromissos. O que quer que tenha feito, não se preocupe. Lembre-se: enquanto há vida há esperança.
A garota levanta-se, num grito desesperado, lançando-se em direção a Pedro e mostrando os pulsos dilacerados e esvaindo-se em sangue:
- Não há esperança!!!!!!!!!!

A garota desfalece nos braços de Pedro, manchando sua roupa de sangue e tingindo o chão branco da delegacia de um vermelho intenso. Como ele não percebeu antes
os seus cortes?

- Um médico!!! Ambulância!! Socorro!!! Alguém... por favor, chame uma ambulância!!! Meu Deus, meu Deus!!!!

Os gritos de Pedro chamam a atenção de outros policiais, funcionários e pessoas que estavam na delegacia. Em segundos, vários estavam ao seu redor, mas ninguém ajudava.

- Não estão vendo??! Ela vai morrer!! Por que ninguém faz nada???

O delegado observa a cena. Pedro, cada vez mais nervoso, pega a garota no colo e a deita no sofá. Em seguida, vai para cima do atendente da delegacia, irritado.

- Por que ainda não chamou socorro??? Por que todos só ficam parados??

O atendente olha para o delegado que o autoriza. "Chame a ambulância", ele ordena.
- Ah! Finalmente! É preciso que alguém te dê uma ordem para salvar uma vida??

O delegado chega próximo de Pedro.
- Fique calmo. Vai ficar tudo bem....

O escritor ignora e vai até a garota e percebe que o sangue não para de jorrar. "Preciso estancá-lo", ele pensa. Levanta rapidamente e apanha um estilete de cima de uma mesa, ante o olhar preocupado de todos. Corta as mangas de sua camisa, transformando-a em faixas. Ele ata os pulsos da garota. O sangue dela está espalhado no piso, em suas roupas e no sofá.

- Isso deve adiantar até o socorro chegar- diz ele, nervoso e suando muito.
- Procure ficar calmo- aconselha o delegado.

A garota murmura alguma coisa. Pedro ajoelha-se perto dela.
- Minha história...escreva sobre ela. Conte o que eu te revelei. Minha mãe não tem culpa...me ajude. Disseram que tu iria me ajudar...
- Quem disse?
- Outros...como eu, que fizeram mal a si...e outros que foram interrompidos. Que foram tirados da luz.

Os enfermeiros entram na delegacia. Pedro os percebe. Vai até eles.
- Graças a Deus. Rápido, ela perdeu muito sangue.

Um enfermeiro o surpreende, imobilizando-o. Outro aplica um injeção no pescoço de Pedro que vê sua visão enuvear-se.

- O que é isso? Vocês estão loucos! Ela é que precisa de ajuda...
Num instante o colocam numa maca. Pedro olha para o sofá. A garota não estava mais lá. Ele força a visão para tentar encontrá-la entre os vários rostos à sua volta. Alguns com uma nuvem negra no olhar. Todos na delegacia o observam, assustados. A garota aparece de pé, ao seu lado. Não está mais sangrando.

- Enquanto há vida, há esperança. - Ela diz mostrando os pulsos com profundos cortes, mas sem sangue.

E Pedro não vê mais nada.



Vista de cima, a cidade parecia muito mais tranqüila e organizada. O vento acariciava os seus cabelos. Pedro sentia-se leve como fumaça, flutuando pela cidade. "Que sonho bom", ele pensa. Estava voando, livre de compromissos, contas e decepções. Finalmente, um sonho realizado: o de desprender-se de tudo e viver livre, voando pelo mundo. Nem bem esboçou um sorriso, percebeu que havia uma espécie de cordão enfumaçado acima de sua nuca. Olhou para trás e viu que aquele cordão se estendia por vários quilômetros, resplandecendo aquela cor-de-prata translúcida. Pedro não gostava daquilo, era uma amarra. "Vou desatar isso", ele pensa, levando às mãos à cabeça, mas não conseguia tocar no cordão, nem saber como estava amarrado. "Vou ver onde dá isso", pensa ele, com intenção de ver a origem de sua amarra. Num piscar de olhos, ultrapassou vários quilômetros e viu-se no teto de um quarto de hospital. O cordão estava ligado a um corpo que repousava sobre uma cama. Surpreendeu-se: era o corpo dele mesmo. Pedro caiu do teto, acordando-se de sobressalto. Ele suava e teve a intenção de passar a mão atrás da nuca, mas estava algemado.

- Que porra é essa?
Alguém no quarto responde sua pergunta.
- É a porra de uma algema.
Pedro olha para a janela e vê aquela silhueta, acompanhada do indefectível cigarro. "Maldito planeta. Malditos sentimentos", ele pensa. Era Thaís.

- O que está fazendo aqui? E o que eu estou fazendo aqui?
- Digamos que eu estava alegremente prestando depoimento numa delegacia a respeito de um assassinato, quando alguém resolveu surtar e estragar ainda mais as últimas 12 horas de minha vida.
- A garota...como ela está?
- Depende: a garota que causou a morte do teu amigo ou a tua suicida imaginária? Dito isso, chegamos a resposta de tua terceira pergunta nessa manhã - considerando a da "porra da algema" como a primeira- tu surtou dentro da delegacia tentando salvar uma garota que teria cortado os pulsos. Pelo menos, foi isso o que disse ter visto. Ainda fuma maconha?
- Thaís, eu sei o que eu vi. Eu toquei nela. Ela manchou minha roupa de sangue.
A garota aponta para o sofá.
- Tu diz aquela roupa que está ali, limpinha?

Pedro fica sem resposta por um instante. Sua mente tenta encontrar alguma lógica. Há algumas horas, seu amigo Genaro surgiu ensanguentado em seu quarto, pouco antes de descobrir que ele tinha morrido. Depois, uma garota suicida na delegacia. E Thaís diante dele, julgando-o. Ela era o ex-amor de sua vida. E, por isso mesmo, era a última pessoa para a qual gostaria de demonstrar fraqueza.
- Talvez eu tenha fumado qualquer coisa mesmo...
- A confissão redime os pecadores...- ela provoca.
- Até quando vou ficar aqui?
- Até os médicos disserem que já pode ir. Mas, falando nisso, tu não precisa de mim e eu preciso ir. Veja só, não tenho algemas...
- Por que veio?

Pedro a acompanha com o olhar. Thaís pára na porta.
- Sinto muito pelo Genaro. E por nós...
- É...eu também.

E ela vai embora deixando aquele rastro inconfundível, mistura de cigarro com perfume. "Eternity ainda", ele pensa, fechando os olhos e afundando a cabeça no travesseiro.
- Essas algemas devem estar apertadas, não, filho?
Havia mais alguém no quarto. Era um negro velho, vestido de branco.
- O senhor é enfermeiro?
- Eu cuido de muita gente por aqui há muito tempo. Vamos tirar essas algemas aí. Não gosto de ver gente acorrentada. É coisa que herdei de meus antepassados. - Ele diz sorrindo- tu sabe: eles eram escravos.
Num instante o velho o livra das algemas.
- Eu me chamo Virgílio.
- Pedro.
- "Tu és pedra"...
- Nem tanto...
- Não duvide da força de um nome bíblico. Tu tem um dom, guri. Tu pode ouvir o outro lado. E agora também vê...
- É o que me dizem, que sou talentoso e tal. Grande coisa.
- Ah, mas tu ainda não sabe. Tu é dos burros que negam...

Pedro estava agradecido por Virgílio tê-lo livrado das algemas, mas não gostava de ser chamado de burro por alguém que não o conhecia. Mesmo assim, era impossível não simpatizar com ele.
- Com quem eu falo para ir embora?
- Tu é livre. Todo mundo é...só não tente mais desatar o teu cordão. Ou vai ficar "nem lá, nem cá", como eu...
- Como disse?
- O cordão de prata. É ele que te prende ao teu corpo e tu precisa dele para cumprir o teu estágio. Não queira desatar, ele não atrapalha em nada, não te impede de ir para onde quiser e nem vai se emaranhar no canto de uma mesa. Eh, eh, eh.
- Como o senhor sabe...?
- É que eu cortei o meu...
Virgílio levanta levemente o pescoço e mostra profundas marcas de corda. Em seguida, toma o pulso de Pedro e reprova os cortes em seus braços.
- Não tente mais fazer isso. Apesar de que tava fazendo errado, mesmo...
- O senhor está confundindo. São marcas do estilete quando fui cortar a manga de minha camisa para estancar o sangue da garota.
- Tem gente que quer te confundir, guri. Alguns não gostam que tu conte aquelas histórias todas. Entende? Eles querem ser esquecidos. Tuas histórias fazem com que os pecados que cometeram sejam lembrados por muito tempo e quanto mais tempo forem lembrados, mais demoram para serem perdoados. Mais tempo demoram para terem outra chance. Tu se tornou um problema e eles são vingativos. É por isso que querem que tu passe para o lado de cá...
- Que lado?
- Dos sem cordão. Dos sem-perdão.

Por um instante Pedro fica em silêncio encarando aquele negro velho, sorrindo para ele. No sofá, o celular toca. O escritor vai atender. "Número não identificado", ele atende e a ligação cai. Ao virar-se para Virgílio descobre-se sozinho no quarto. A porta não tinha sido aberta, não em menos de um segundo por um velho de oitenta e poucos anos. Aos poucos, a mente lógica de Pedro começa a duvidar da própria lógica. E um calafrio, cada vez mais frio, percorre a sua espinha...

"Preciso sair daqui", ele pensa. Veste suas roupas. A camisa estava destruída, sem as mangas. Sai do quarto e caminha pelo corredor do hospital. Diferente de outras vezes em que esteve ali, hoje o hospital parecia um lugar aterrador. De todos os quartos, ele ouvia vozes, gemidos, choros e lamentações. Não parecia um hospital, era como se o lugar tivesse virado um sanatório de uma hora para outra. Ao cruzar por um quarto com a porta aberta, ele vê um homem no parapeito de uma janela. "Ele vai pular", ele pensa, entrando instintivamente para tentar evitar, mas chegando tarde demais. Pedro chega até a janela e olha para fora. O suposto suicida estava voando em círculos poucos metros abaixo, rindo dessa possibilidade. Ao olhar para o corpo na cama, ele descobre que era o mesmo homem. No sofá ao lado, uma mulher e uma garota choravam, abraçadas.

- Ele morreu. O seu pai morreu!!
Pedro observa a cena, pensando em dizer qualquer coisa. A mulher percebe sua presença, mas o ignora e segue chorando. Em seguida, o homem voador ultrapassa a parede de tijolos surgindo ao lado de seus familiares, tentando passar a mão em suas cabeças. Pedro olha assustado, ainda mais, quando o homem lhe direciona o olhar.

- Diga para elas que estou bem, Pedro. Mas não quero que esbanjem o meu dinheiro.

Aquela frase o perturba mais do que qualquer outra coisa nas últimas horas. Ele o enxergou e chamou por seu nome. Seu coração acelera e Pedro sai correndo do quarto, assustado como uma criança. Em um flash, ele lembra da infância e do medo que tinha de dormir no escuro, os barulhos que escutava, as presenças que sentia no quarto. Remotamente, enxerga-se como um bebê no berço, chorando com as aberrações em volta tentando sugar um pouco de sua essência e a mãe, sem nada saber, tentando fazê-lo dormir. "Tem dor de barriga o pobrezinho". E o bebê chorava vendo um homem sem a metade da cabeça ao lado de sua mãe, alheia àquelas presenças horrendas.

E Pedro corre, assustado ainda ouvindo o homem clamar.
- Volte, diga para elas!
Os gritos do homem se misturam a outros gritos de visões que cruzam o seu caminho, enquanto corre. Pedro já sabia o que estava acontecendo, mas não queria aceitar, como aquilo era possível? Ele enxergou o espírito daquele homem morto na cama. Pelo corredor, ele cruza por várias pessoas e tem medo de conversar com qualquer uma delas.

- Tenho fome!! Me dê alguma coisa para comer!!! - brada um homem gordo, que tenta lhe pegar pelo braço, rasgando um pouco mais de sua camisa e o persegue por alguns metros- há dias não como nada. Meu estômago está secando por dentro. Me dê comida. Me dê comida!!!!
- Saia daqui!!! Não olhe para mim!!! Eu sou um monstro!!!!!!!!- diz uma jovem magra, cruzando os braços na altura do rosto, tomado por uma espécie de tumor.
- Tu chamou os bombeiros?? Alguém chamou os bombeiros??- grita um homem com as roupas queimadas e partes dos braços e do rosto derretidos e impregnados de cinzas.

"Mortos?" O que estava acontecendo? Ele corria e corria e não estava encontrando a saída do hospital. "Parece que esse lugar está maior", ele percebe. Em sua aflição, os quartos se multiplicavam e os corredores pareciam infinitos. Pedro grita:

- Onde eu estou??!!??

Alguém toca a sua perna. Ele olha para baixo e vê um homem ensanguentado se arrastando, com várias partes do corpo esmagadas. A cabeça era enorme e os olhos com pálpebras inchadas e escuras.
- Me ajude, estou preso nas ferragens! Está doendo muito!!! Chame ajude! Chame ajuda!!!!!!!

O homem suplica tentando segurar firme a perna de Pedro, que consegue se soltar e fugir pelos corredores, mesmo sem encontrar a saída, nem saber para onde ir. Ele corre, apavorado, mas olha para trás e o homem se arrastava em sua direção, deixando um rastro de sangue. Pedro se choca contra um menino, que cai longe no chão. O menino, aparentemente de uns 11 anos, começa a respirar com dificuldade e se contorce, como se tivesse convulsão. Vai ficando roxo. "Ele não está conseguindo respirar", pensa. Pedro tenta ajudar. Pensa em chamar por socorro, mas não vê mais ninguém no corredor. Há poucos metros, no chão ele percebe uma bombinha para asma. "Deve ter caído quando me choquei com ele", pensa enquanto vai recolhê-la e entregar para o garoto. Pedro pega o remédio e ao virar-se na direção do menino descobre que ele não estava mais lá. Nem a bombinha estava mais em suas mãos. O garoto era mais uma alucinação.

- Agora tu vê. Mas sempre os ouviu. -Uma voz conhecida faz ecoar a frase pelo corredor.
Pedro vira-se. Era Virgílio, sentado num banco logo à frente, com o garoto asmático ao seu lado, usando a bombinha e respirando calmamente.
- Acho que tu conheceu o Nicholas. Ele é caçula daqui. Chegou faz poucas horas, mas não vai ficar muito tempo...- diz, sorrindo, e passando a mão na cabeça do menino.
- Eu não...sei o que está havendo- diz Pedro, com medo de manter qualquer diálogo, num misto de querer ficar e querer correr. Ele já conhecia Virgílio, que lhe parecia simpático. Mas, afinal, ele era um morto também. Como poderia querer conversar?

- Pelo menos, não tentei puxar o teu pé, não é, rapaz?
- Ele... está bem?
- Oh, não se preocupe. Na verdade, o Nicholas não sente nenhuma dor. É que certos hábitos são um pouco demorados para se largar. Mas do lado de cá não existe asma, fome e nem dor alguma. A não ser a dor da culpa...
Pedro olha para o homem que ainda se arrastava ao longe no corredor, suplicando por ajuda.
- Sim, a dor que ele diz sentir não é física. Até porque o Roberto não tem mais nada "físico". A dor que ele sente é a da culpa. Sabe aquela história de "não beber e dirigir, né"? É por isso que ele está ali, se arrastando com pena de si mesmo. Ainda não aceitou e nem compreendeu. Leva um tempo...
- Quanto tempo?
- Às vezes horas ou dias. Às vezes, o tempo de viver e morrer várias vezes. Muitos ainda acham que estão vivos e agem como se estivessem.
- Eu tenho que ir embora. Como faço para sair daqui?
- Só precisa abrir a porta e ir.
Vírgilio aponta para o final do corredor. Pedro olha e enxerga a porta e o hospital se torna familiar.
- Obrigado. Se eu continuar aqui vou enlouquecer. Ou melhor, estou louco, conversando contigo.
Pedro caminha em direção à porta. Ouvindo as palavras de Virgílio.
- Pode ir para onde quiser. Eles são muitos e onde tu estiver eles estarão também. A tua porta se abriu para sempre. Não era isso que buscava com tanta meditação?

Pedro pensa em olhar para trás, mas não queria ter de novo a desagradável sensação de descobrir que o velho não estava mais lá. Deixou para trás e manteve o olhar à frente, para a saída do hospital. Chegou até um saguão de espera, onde várias pessoas pareciam esperar pelo atendimento de urgência. Familiares aguardavam ao lado de parentes enfermos. Logo que Pedro passou pela porta, todos os olhares se voltaram para ele. O escritor baixou a cabeça e se dirigiu para a saída. Ao lado da porta, sentado, havia um homem com o braço enfaixado que não parava de olhar para Pedro, que fitou-o por um tempo, tentando decifrar se ele estava vivo ou morto. E da boca do enfermo, saiu uma palavra apenas.
- Morra!
Pedro se irrita. Era mais um maldito fantasma atormentando-o.
- Me deixe em paz, seu desgraçado!! Vá para o inferno!!

A mulher que estava ao lado o repreendeu.
- Por que está gritando com meu marido? Ele é surdo-mudo. Não fez nada para ti e não vai entendê-lo desse jeito.

Pedro pensa em desculpar-se, mas sai apressado do hospital. Já no pátio, ele se depara com uma aglomeração de pessoas, mas evita olhares. Havia uma confusão por ali, enfermeiros e funcionários estavam distraídos olhando uma ação do caminhão do bombeiros que elevava alguém vestido de Super-Homem até um dos quartos. "Que palhaçada seria essa?", ele pensa, mas aproveita para sair logo dali, sem chamar atenção. Ele caminha por várias quadras, sentindo o sol e a brisa. Era bom estar vivo. Era bom livrar-se daquela loucura toda. Precisava chegar logo em casa e descansar de tudo aquilo. Pegou um táxi e durante o trajeto manteve a cabeça baixa, poucas vezes arriscando-se a olhar para o lado. De qualquer forma, parecia que as coisas tinham voltado ao normal e as visões tinham sumido. "Será que não fui drogado de alguma forma? Ontem, naquele bordel, a bebida..."
Pedro chegou a sua casa e viu o seu carro estacionado na garagem e um bilhete. "A chave está com o vizinho". A letra era de Thaís. Com a confusão na delegacia, ela trouxe o veículo de volta. Pedro entrou, sendo recebido por Capeto, que tentou fazer festa, mas seu dono ignorou.

- Agora não, Capeto. Estou muito...muito...muito cansado.

E atirou-se na cama, pensando em dormir. "Droga. O Genaro", ele lembrou. Precisava descobrir sobre o enterro dele. Ligou para a esposa do amigo, inconsolada e inconformada. Num misto de tristeza e de raiva, ela sabia que o homem que ela amava tinha morrido nu nos braços de uma ninfeta, numa boate imunda. "
- Tu é culpado por isso, seu merda!!
Ela gritou do outro lado.
- Desculpe, Jéssica. O Genaro não queria ir. Eu é que o forcei...
Pedro mente. Jéssica o amaldiçoa para sempre, gritando e chorando.

No enterro, ele procurou ficar afastado para não ser visto, acompanhado de Capeto. Sabia que Jéssica poderia ter alguma reação e tudo o que Pedro não queria era chamar a atenção. Afinal de contas, ele era um escritor famoso e isso seria publicidade negativa. Depois que todos se afastaram, ele foi até o túmulo de Genaro e colocou um aparelho de som em cima, apertando o play. Patience, do Guns' Roses. Genaro se gabava de ser o único capaz de imitar com perfeição o assovio de Axl no início da música, que era a que mais gostava. Pedro depositou um maço de Free na lápide e uma garrafa de vodka, alisando a foto em porcelana de seu melhor amigo. Jamais tinha imaginado ver-se nessa situação. A medida em que a música tocava, ele foi arriscando cantar alguns versos.

Little patience, mm, yeah, mm, yeah
Need a little patience, yeah...
Just a little patience, yeah...
Some more patience, yeah...


Depois de terminada, a música reiniciou. Estava gravada 17 vezes. Pedro arriscou assoviar o início da canção, mas desistiu. Em seguida, ouviu uma voz.

- Só o Genaro sabia fazer isso com perfeição. Além do Axl, claro...

Era Thaís. Ela veio trazer flores ao túmulo de Genaro. Era a terceira vez que os dois cruzavam seus caminhos em menos de 24 horas. Muito mais do que tinham se visto durante meses.
- Bonitas flores. Ele iria odiá-las.
- A idéia é essa. O Genaro e eu nunca fomos tão próximos. Mas a gente dividiu um apartamento junto com outros amigos, antes de eu trancar a faculdade de Psicologia. Então, convivi pouco com ele. Mas ele era uma pessoa boa, até onde eu sei...
- Eu sei disso...eu o conheci nessa época. A gente tava fazendo parte de uma banda de garagem. Ele era o vocalista. Queria ser o novo Axl ou Bon Jovi. Eu era o bateirista apenas. Mas a gente não era muito amigo. Só me aproximei dele quando descobri que ele dividia o AP contigo. Como a gente não se falava naquela época, era através do Genaro que eu sabia de ti.
Ela senta-se ao seu lado. Dava para sentir a fragrância de seu Eternity espalhar-se pelo ambiente fúnebre, fazendo-o esquecer que estavam num cemitério. No céu, nuvens carregadas prenunciam chuva.
- Tu está bem?
- Obrigado por perguntar. Sinal de que se importa comigo...
- Estou apenas sendo educada- ela ri e senta ao lado dele- Esqueci de perguntar como foi o lançamento do novo livro?
- Normal. Os nerds estavam lá para comprar.
- Sobre o que é a história?
- Em resumo: é sobre um homem que levou séculos para se vingar de seu melhor amigo que tomou sua mulher e o matou. Eles se encontram a cada nova existência, com resultados negativos para cada lado, sempre. Suas reencarnações estão interligadas, sempre prenunciando uma vingança. Ora, como amigos ou parentes, sem nunca perdoarem o passado. Assim, vão repetindo a sua vingança e os seus pecados no decorrer dos séculos. A história tem morte, mistério e sangue e é bastante complicada de entender, o que dá aquele ar de "inteligente". É o que os leitores querem hoje: uma leitura fútil que os faça parecer inteligentes. E é isso que eu ofereço. Gostaria de ter escrito Harry Potter e ficado bilionário, mas essa inspiração não veio para mim, então, vou escrevendo essas besteirinhas que sobraram aí. Enfim, tem quem goste, tem que compre e vou levando a vida...
- Escreva uma história sobre a mim. Sobre nós. Mas alguma coisa que não inclua mortes, nem prostituição ou amores interrompidos. Escreva alguma coisa que tenha final feliz.
- Eu...eu já escrevi sobre ti muitas vezes. São aquelas histórias que tu chama de "doces". Teu nome não está nelas mas...a inspiração está lá. Toda vez que eu escrevia alguma delas, era como se eu falasse a respeito das possibilidades entre nós. Das possibilidades que ficaram para trás ou que talvez tenham mesmo acontecido em algum universo paralelo. Eisten dizia que isso era possível, vai saber. Não entendo de física ou física quântica...mas o que eu quero dizer é que... eu realmente pensava em ti quando as escrevia.
- É mesmo? Eu não lembro de nada disso. E olhe que eu acompanhei sua fase mais...romântica. Gostava daquelas coisas. Enfim, é o meu lado "menina sonhadora". Sempre imaginando um príncipe, sempre querendo um final feliz.
- É. Vocês, mulheres, parecem sofrer do complexo de Cinderela. Esse tipo de história devia ser proibido. Pelo menos até completarem 18 anos.
- Concordo contigo. Devia mesmo. A realidade nunca é doce, não é?
- A não ser que teu nome seja Willy Wonka.
- Não acredito. Tu fez uma piada...
- Infame, claro.
- Nem tudo está perdido. Acabo de recuperar a minha fé na humanidade.

Os dois riem e conversam bem à vontade, em meio àquele cenário fúnebre, inusitado para um bate-papo tão descontraído. Pedro se sentia à vontade ao lado de Thaís. Se sentia em paz.
- Por que...nós não ficamos juntos?
- A vida nos afastou, não foi assim?
- A vida nos uniu também.
- Quando já era tarde.
- Enquanto há vida....
- Nem complete a frase se não quiser que eu vomite. Pára de falar como um escritor. Fale comigo sendo quem tu é. Não use frases feitas. Eu não mereço isso. Originalidade, please.

Os dois ficam em silêncio durante um momento. Pedro percebe os primeiros pingos de chuva. Pensa em ir embora, mas estranhamente sentia-se em paz naquele lugar, ao lado de uma pessoa tão importante para ele. Thaís retoma a conversa.
- O Genaro foi ao lançamento de teu livro?
- Sim. Ele... estava lá comigo antes da gente ir para...bem, tu sabe para onde.
- A clínica onde trabalho?
- Desculpe por dizer aquilo...eu só não entendo por que abandonou os estudos. E por que insiste em continuar nessa vida...
- Não quero iniciar um longo monólogo para te fazer sentir pena de mim. Quem gosta de auto-piedade aqui é tu.
- Ei, ei: eu venho em missão de paz!!
- Ok.
- E o assassino?
- O pai da menina? Foi preso, claro.
- Como deixaram uma menor se prostituir naquele...lugar?
- Olha, eu não sabia. Eu apenas faço o meu trabalho e não me envolvo com o resto. Foda-se.
- O Genaro se fodeu...mesmo.

Thaís vai acender um cigarro. Pedro desliga o aparelho de som. Os pingos de chuva vão se intensificando, ao mesmo tempo em que o vento cria uivos, por entre os túmulos e cruzes.

- Eu...logo que cheguei em casa, não conseguia dormir e...eu tive uma visão. Como se ele tivesse ido se despedir, sabe? Ele me contou o que tinha acontecido e desintegrou na minha frente. Instantes depois, a polícia me ligou contando...
- Como aquelas visões que tu tinha quando era criança?
- Não. Eu nunca tinha visto nada tão nítido assim. Sempre ouvi vozes, sentia presenças, mas dessa vez foi diferente. Foi tão...real. Na delegacia também e depois no hospital.

Pedro percebe que Capeto fica agitado e começa a rosnar. Em seguida, vê um homem de branco sair detrás de um jazigo e chegar próximo ao túmulo de Genaro. Era Virgílio.
- Muitas vezes é no passado que estão as chaves para compreender o presente e desvendar o futuro...
- Não vem com essa pose de Mestre dos Magos. O que está fazendo aqui?

Thaís estranha o comportamento do escritor.
- Pirou? O que quer dizer com isso?
- Eu disse... para ele- apontando para Virgílio, mas em seguida, cai em si- ah, claro. A assombração é só para mim. Tu não enxerga, desculpe.

Vírgilio ri de Pedro.
- "Assombração". Ah, ah, ah. Essa é boa. Tu é espirituoso. Mas vou te dizer: não tem nada aqui no túmulo do teu amigo, a não ser a carcaça que ele usou. Ele teve sorte. Só Não sei para quê tanta flor. Que mania é essa que os vivos tem de trazer flores?

Pedro fica incomodado com aquela visão e convida Thaís para irem embora. A chuva estava começando a incomodar. Puxa Capeto pela coleira, que segue rosnando. Dá as costas para Vírgilio que segue dialogando.
- Ele te odeia. Tu sabe disso, não?
Pedro procura ignorar Virgílio para não parecer um louco, ao lado de Thaís. Mas fica intrigado com a frase. "Quem me odeia?", ele pensa.
- O teu pai - Virgílio responde, percebendo seus pensamentos- e ele persegue os teus passos.

Thaís nota a inquietação de Pedro.
- O que está havendo? Parece que fechou o tempo. Tu está esquisito e assustado.
- Eu só quero sair daqui, Thaís.

Um arrepio percorre a espinha do escritor. Seus pêlos ficam eriçados e ele sente os braços levemente adormecidos, assim como as suas pernas. Começa a sentir uma leve tontura, causada por uma pressão na parte de trás de sua cabeça. Seu coração acelera. Ele conhecia aquela sensação, a mesma que sentira na delegacia, quando a garota apareceu e no hospital, logo depois de falar com Virgílio. Ele olha em volta e parece que o cemitério é tomado por diversas formas nebulosas que aos poucos vão se definindo diante de seus olhos. Pedro sabe o que está para acontecer. Ele começa a enxergar aquilo que estava invisível até poucos instantes: os mortos.
Ele enxerga uma velha varrendo o próprio túmulo. Vê um homem chorando, agachado e recostado numa lápide, com as mãos grudadas ao peito. Uma criança, de uns três anos, puxando o rabo de Capeto, fazendo-o rosnar. Um jovem com o corpo inchado, com água saindo de sua boca e demais orifícios, tentando abrir o seu próprio túmulo, em vão. Uma garota esquelética vomitando uma gosma verde-fluorescente. Um homem sangrando pelos poros. Um jovem com ares de aidético arrancando os próprios cabelos aos tufos, junto com o couro cabeludo. Um casal transando em cima de um túmulo. Uma mãe chorosa, amamentando um bebê esquelético. Dois homens brigando de faca, ao lado de um jazigo, cada qual perfurando ou arrancando alguma parte do corpo do outro, e seguem brigando. Um homem com o corpo queimado. Outro, com os braços esmagados e com pedaços de metal atravessados no tórax. Pedro vê todas essas coisas e outras mais, para cada lado que olha. Até que surge ao seu lado a garota da delegacia, com seus pulsos ainda sangrando.

- Tu veio me ver??? Eu preciso que me ajude.
As palavras da garota chamam a atenção dos demais. Alguém avisa. "Ele consegue nos ver. Ele pode nos ouvir". Em seguida, mortos começam a se aglomerar em torno de Pedro pedindo atenção, pedindo ajuda, pedindo perdão, pedindo para que ele leve algum recado para alguém, pedindo para que acenda uma vela, pedindo para que se vingue de alguém, pedindo para que vá embora, amaldiçoando-o, chorando, tocando-o com suas mãos gélidas, tentando sugá-lo, clamando por alguma coisa. Para todo lado que ele tenta sair surge outro morto, outra mão suplicando ajuda ou ameaçando matá-lo. Pedro delira, diante os olhos de Thaís cambaleando entre os túmulos, falando coisas imcompreensíveis. Capeto rosna, late e choraminga. A chuva chegou com força e pequenas corredeiras se formam dentro do cemitério.

- Me deixem em paz. Saiam de perto. Saiam de perto de mim. Foge, Thaís. Foge. Sai daqui.
- O que tá acontecendo contigo, Pedro??
- Os mortos...os mortos...
Pedro tenta escalar uma capela para fugir dos mortos, machuca os dedos, arranha a parede, tenta se erguer. Um dos mortos consegue puxá-lo pela perna. Thaís fica assustada ao ver o amigo escorregar e cair de certa altura, num surto psicótico. “Ele está delirando como aconteceu na delegacia”, ela pensa.. No chão, Pedro é cercado pelos mortos que continuam seu lamento, sem se importar com o seu pequeno acidente. Querem ser ouvidos, querem ser ajudados, quer ser lembrados, querem ser esquecidos, querem ser vingados, querem dizer aos seus entes que ainda existem e que não se conformam de ter perdido o seu corpo físico. Não era a sua hora, não era a sua hora. Pedro está assustado, encolhido como uma criança. Capeto late vendo o desespero de seu dono. Thaís pensa em gritar por ajuda, mas não há ninguém por ali. Pedro fecha os olhos e tapa os ouvidos para não vê-los e nem ouvi-los. De repente, ouve um som conhecido. Um assovio ecoa no ar. Ele conhece aquele som. Ele conhece aquele assovio. Era de Patience.
Ainda de olhos fechados, ele percebe que a movimentação ao seu redor cessou. Ele ouve a música e sente um perfume agradável perto dele. Eternity. Em seguida, mãos quentes e macias tocam na sua pele. Era Thaís. Pedro abre os olhos procurando por alguém que ele tinha certeza de que estava por ali.
- Genaro? É o assovio do Genaro. Ele está aqui.
Thaís o conforta.
- Shh. Está tudo bem. É a música. Eu que liguei o som. Fui eu. Está tudo bem, Pedro. Está tudo bem agora.
E Pedro chora como uma criança sem mãe, abrigado nos braços de Thaís. Ela passa a mão em seus cabelos e toca de leve o seu rosto. O silêncio é quebrado pelo latido de Capeto, que não estava muito satisfeito com a chuva. Pedro levanta-se, percebendo o barro em sua roupa após ter caído e rolado no chão. Ele vai até CD player, com intenção de levá-lo embora, mas se dá conta que o aparelho está completamente encharcado. Ri de si mesmo.
- Acho que vou deixar o som para o Genaro.
Thaís sorri, linda. Pedro se encanta olhando para ela. Sua blusa molhada revelava o formato de seus seios. Ela percebe e fica envergonhada, levando as mãos para escondê-los. Desconcertado com o gesto dela, Pedro a convida para irem embora. Os dois saem do cemitério e vão em direção ao carro do escritor. No carro, eles se acomodam nos bancos. Thaís segue protegendo os seios, envergonhada. Pedro mais ainda. Capeto se chacoalha no banco de trás, molhando o veículo e respingando nos dois. Thaís ri.

- Vou te levar para casa- Diz Pedro.
- A sua é mais perto. Aceito uma ducha quente e um café- ela responde.
Em minutos, eles atravessam algumas quadras e chegam até a casa do escritor. Ele indica a direção do banheiro, observa que lá tem um secador de roupas e diz que vai até o quarto buscar toalhas para ela. Thaís o segue até o quarto e surpreende-o com um beijo. Pedro fica ofegante, mas permanece em silêncio. Ela pega em sua mão e faz com que toque e acaricie os seus seios.

- Tu ficou me olhando de um jeito lá no cemitério...- Ela sussurra em seu ouvido, beijando o seu pescoço
- Desculpe, não tive intenção...
- Tudo bem. Eu me senti...pura. A última vez que alguém me olhou daquele jeito faz...muito tempo. E foi tu. Lembra do nosso primeiro beijo?
- Do único beijo? Éramos crianças...
- Eu fui danadinha, né?
- Me atingiu.
- Me marcou...
- Me machucou...
- Eu te amei...
- Eu te amo.
Pedro estava excitado com as carícias de Thaís. De súbito, ela pára ao ouvir a frase de Pedro. E o encara. Ela lembra da última vez em que estiveram num momento íntimo assim. Ambos estavam na faculdade e após anos afastados tinham reatado a velha amizade. Pedro mostrava fotos dos dois, aos 12 anos, festejando seus aniversários. Foi quando ele disse exatamente isso “eu te amo”. Foi quando Thaís contou sobre sua vida, sobre ter se tornado uma garota de programa. Foi quando ele fez aquela cara de julgamento e condenação, considerando-a uma impura. Foi quando ela tornou a sumir de sua vida. Mas o destino tratou de colocá-los frente a frente em diversas oportunidades, como agora. Há 24 horas atrás eles se encontraram novamente na boate em que ela estava trabalhando. E aqui estavam os dois, novamente. Thaís pensa em sair de perto, mas Pedro a prende.
- Não vá embora. Não fuja toda vez que eu digo o que tu significa para mim. Fique. Fique para sempre.
- Eu sou uma prostituta. Lembra?
- Eu sou o João Pedro. Lembra?
- Não somos mais crianças, Pedrinho. Não há mais inocência. E a sociedade lá fora é bem preconceituosa. E todos me conhecem. E todos te conhecem. Eles compram os seus livros. E deitam na cama comigo.
- E podem nos condenar como quiserem...
- Até quando? Até onde tu suportaria? Até onde iria o teu amor?
- Até que a morte nos separasse. Talvez nem então...
- A vida não tem final feliz, meu amigo escritor.
- A gente pode escrever um, juntos.

Thaís ri deliciosamente com a frase de Pedro.
- Quantas vezes eu te pedi para ser original? Isso soa como frase feita.
- E isso soa como o quê?
Diz Pedro, tomando a nos braços e beijando-a intensamente. Joga Thaís em cima da cama, ficando por cima dela. Excitado, ele beija o seu pescoço, atrás de sua orelha, desce até os seus seios molhados. Pedro percebe algo diferente.
-Piercings??!?
- Cale a boca e continue.
E, assim, ele arranca a blusa de Thaís a joga longe, sem perceber na cabeça de Capeto. O cachorro resmunga e resolve sair do quarto para achar outro canto e dormir. Pedro segue acariciando-a num misto de tesão e ternura. Os dois estão nus, com seus corpos quentes e fogosos. Pedro desliza a ponta dos dedos pela pele de Thaís. Ela passeia suas unhas pelas costas dele. Com suas línguas desejosas do sabor um do outro. Com seus gemidos e ais de um prazer há muito imaginado. De uma satisfação incontida e que, nesse instante, é extravassada com beijos, alguns arranhões, algumas mordidas, abraços apertados e muito suor.
*****
Pedro dormia em sua cama, sentindo-se em paz com Thaís ao seu lado. As visões no cemitério o perturbaram muito, pois eram muito reais. Ele não sabia porque elas aconteciam. Talvez fosse resultado de suas meditações, talvez fosse o efeito das drogas que tantas vezes usou, obcecado com a possibilidade de expandir a mente para criar histórias cada vez mais intrigantes e tornar-se um escritor mundialmente famoso. Logo depois da faculdade, após ter começado a desenvolver o seu talento como escritor, ele foi bebendo da fonte da fama e dinheiro. E ao passo que foi gostando disso, foi se deixando seduzir, envolver e querer mais e mais. Seus dois primeiros livros foram um sucesso, mas nada comparados à explosão nas vendas com a sua terceira obra, já entrando no segmento de morte e mistério, o que conquistou uma gama maior de leitores.
As descrições dos crimes, das mortes e a forma realista com que conduzia os dramas de seus personagens atraiam os leitores, àvidos por aquele tipo de literatura sobrenatural. Temendo que a fonte pudesse se esgotar, Pedro ficou obcecado na busca de inspiração, recorrendo a notícias retiradas das páginas policiais, crimes violentos, estudo sobre ocultismo, demonismo, meditação, práticas místicas e, em busca de novas experiências, buscou também as drogas. Não era um viciado e acreditava que se mantinha sob controle.
Algumas vezes usou maconha e cocaína, não passando disso. Ele escondia isso até dos amigos mais íntimos, como Genaro. Apenas Thaís sabia disso. Sua mente lógica, logo tratou de acreditar que as visões que estavam lhe perturbando eram fruto de algum distúrbio causado pelas drogas. Por isso, Pedro havia decidido parar com elas, afinal, não era um viciado. Melhor voltar a escrever as histórias doces de final feliz, como sugeria Thaís, do que continuar vendo aquelas monstruosidades.
Deitado em sua cama, Pedro percebe vozes na cozinha. Aos poucos, abre os olhos e descobre que Thaís não estava mais deitada. O estalar de ovos sendo fritos e o cheiro característico acabam por despertá-lo. Na cozinha, ela parecia estar conversando com alguém. Quem seria, a essa hora da madrugada? Pedro veste-se rapidamente e vai até a cozinha. A primeira pessoa que vê é Thaís, rindo de alguma piada. Ela o vê e convida para juntar-se.

- Oi, Pedro. Bateu a fome. Não queria te acordar. Estava aqui conversando com o teu amigo...
Pedro entra na cozinha tentando descobrir quem seria o amigo e se arrepia ao descobrir. Era Virgílio. O escritor fica desorientado por um instante. Vírgilio o cumprimenta.

- Olá, Pedro. Tu não se despediu lá no cemitério...
- O senhor estava lá no enterro do Genaro? - Thaís pergunta.
Pedro chega próximo de Thaís, sem tirar os olhos de Virgílio.
- Como...que tu está enxergando ele agora? Lá no cemitério tu não viu nada do que eu vi. Nem a ele...
- Do que tu está falando, Pedro?- Questiona a garota.
- Os mortos. O Virgílio é um deles. Como que tu está enxergando ele agora?
Thaís ri.
- Do mesmo jeito que tu, ora.
- Mas eu achei que só eu conseguia ver...

Vírgilio resolve intervir.
- A resposta para estarmos conversando não te parece óbvia, Pedro?
O escritor segue em silêncio, enquanto Thaís deixa-os conversando e segue comendo os ovos fritos.
- Eu disse que tu tinha um dom. Podia ver e ouvir o outro lado. Um dom para poucos...

Pedro não conseguia entender as palavras de Vírgilio. Thaís resolveu responder.
- Eu estou morta, Pedro. É isso que ele está querendo dizer.
- Não...não brinque com isso, Thaís.
- Não estou brincando.

Vírgilio aponta para o quarto, sugerindo que Pedro vá olhar algo. Caminhando devagar, ele teme o que possa estar lá dentro. O quarto parece estar muito distante, há quilômetros. Um corredor longo e escura aponta para a porta, com a luz do quarto acesa. Pedro chega até ela e estremece, vendo o corpo de Thaís ensanguentado na cama. Seus seios retalhados, a garganta dilacerada e os lençóis encharcados de sangue. O pavor toma conta do escritor que, desesperado, se lança em cima da cama, abraçando o corpo de sua amada, enquanto uma dor desesperadora toma conta de seu peito.
- Não, não é verdade. O que foi que aconteceu??? O que foi que aconteceu??
- Tu não lembra?? Tu recebeu uma ordem para fazer isso. Alguém te inspirou a fazer isso. Do mesmo jeito que tu é inspirado a escrever aquelas histórias dos desencarnados. Da mesma forma que o teu amigo Genaro fez com que ela tocasse aquela música no cemitério. Os mortos influenciam a tua vida. É por causa deles que tu ganha dinheiro. É por causa deles que tu vai ser destruido. Há uma razão para isso.
- Eu preciso chamar uma ambulância...
- É tarde demais, Pedro. O espírito dela não voltará para o corpo...
Pedro vai para cima de Virgílio e o toma pelo colarinho.
- Quem fez isso, quem a matou? Quem foi o desgraçado??
Vírgílio aponta com o olhar para o enorme espelho fixado numa das paredes do quarto. Pedro percebe uma névoa que, aos poucos, vai se definindo. Então, ele vê: Thaís e ele nus, na cama, fazendo sexo. Em seguida, ela dorme profundamente. Pedro se levanta, abre o roupeiro e retira uma caixa. Dentro, guardava um invólucro contendo cocaína. Ele aspira a droga e bebe um alguns goles de uísque. Em seguida, sai do quarto. Thaís, nua e dormindo, ajeita o travesseiro. Pedro volta até o quarto com uma faca na mão. E rasga a garganta de Thaís, que acorda afogando-se com o próprio sangue. Ela leva às mãos ao pescoço instintivamente, ao mesmo tempo em que Pedro crava a faca no seu peito e, num movimento circular atinge os seios dela. E, assim, Pedro assassinou a mulher que ele amava.

Ele jogou-se ao lado do corpo de Thaís, abraçando-a, chorando muito. Ele ouve a voz de Virgilio.
- Só um de vocês continuará vivendo. O outro deve pagar pelos pecados da existência anterior. Não há paz para o teu espírito nesta vida. Ainda não.
Pedro não quer saber de Virgílio e seus mistérios. Ele fecha os olhos querendo que aquilo não fosse real e que Thaís estivesse viva. Ele chora toda a dor do mundo por perder a mulher que ama e mais ainda por ter sido o seu assassino.
****

Thaís acorda ao ouvir o choro de Pedro, abraçando-a fortemente, pedindo perdão.
- Pedro, acorda!!! O que tá acontecendo??
Encharcado de suor ele acorda do pesadelo. Thaís estava viva.
- Graças a Deus, graças a Deus. Eu não te matei. Foi...foi tão real.
- Pedro, eu tô preocupada contigo. Ainda não conversamos sobre o que aconteceu lá no cemitério, sobre o que aconteceu na delegacia e o que está acontecendo agora. O que tá havendo contigo?
- Eu...eu não sei.
- Tu continua se drogando?
- Não são as drogas, Thaís. Eu...eu vejo coisas. Coisas que ninguém mais vê. Eu te falei sobre isso. Pessoas que morreram estão aparecendo e me pedindo coisas, me amaldiçoando. É horroroso, é insuportável.
- Desculpe, mas para mim isso parece tão...impossível de acontecer. Lá no cemitério tu falava algumas coisas, estava desesperado, depois pensou que o Genaro estava por lá, também...
- Por que tu ligou o som? Por que tocou Patience?
- Eu...me ocorreu na hora que tu pudesse ouvir aquilo e sair daquele...transe. Sei lá...
- Foi o Genaro. Ele te fez ligar o som. Ele tentou me ajudar através de ti. É dessa forma que eu escrevo, entende? Alguma coisa é soprada para mim. Talvez eu tenha despertado algum tipo de mediunidade inconsciente. Só que eu não sei lidar com isso. Eu achava que era o meu talento de criar. Mas são os mortos. Eles podem me ver. E eu, de alguma forma, escrevo sobre as suas histórias. Não existe inspiração nenhuma. São histórias reais, de pessoas que morreram mesmo e que estão vagando por aí. E são elas que me perturbam.
- Que razão teriam para isso?
- O Virgílio disse que há uma razão. Só não sei qual...
- Quem disse?
- É...um espírito ou guia ou sei lá o quê. Ele aparece para mim e me dá algumas dicas.
- Dicas? Um morto te dá dicas?

Pedro faz que sim com a cabeça, praticamente percebendo os pensamentos de Thaís que o encarava num misto de pena e preocupação.
- Pedro, tem certeza de que não é um efeito "colateral" das drogas? Alguma sequela?
- Tu não está acreditando em mim...
- Desculpe.
O telefone dela toca. Os dois se encaram. Thaís levanta-se da cama, vestindo-se. Pedro a acompanha com o olhar.
- Para onde tu vai?
- Eu...tenho compromissos.
- Eu me abri para ti. Eu te disse o que eu sinto. Eu não quero que tu volte para lá.
- Pedro...eu não posso abandonar essa vida...dessa forma. Não é assim que funciona...
- Tu não acredita em finais felizes?
- Só para a Cinderela. Ou em histórias que não sejam ditadas pelos mortos.
- Thaís. Não vá.
- Esta é a minha decisão. Esta é a minha vida.

Ela termina de se vestir e sai do quarto, deixando Pedro inquieto. Ele vai logo atrás e resolve atingi-la.
- Tu tem escolha. É isso o que quer para a tua vida? Continuar se prostituindo e fazendo filmes pornôs? Deitando cada noite com um homem diferente? É pelo dinheiro? Eu tenho dinheiro. Eu posso pagar por tua companhia. Eu posso pagar para trepar contigo também, sua...

Thaís pára na porta. Ele não completa a frase. Ela apanha sua bolsa e vira-se, com lágrimas nos olhos.
- O teu amor não foi tão longe assim, Pedro. Durou só até a porta do teu quarto...
- O...teu telefone. Eu sei que estão te chamando naquele prostíbulo...
- Minha mãe está me ligando, Pedro. Mas isso não importa. Eu estou indo embora. E não voltarei mais aqui...

Pedro se arrepende de vê-la daquele jeito. Se arrepende de sua reação intempestiva. Ela abre a porta. Encara a chuva que ainda caía lá fora. Depois, vira-se para Pedro.
- Mas tu sabe onde me encontrar. Se quiser trepar, eu aceito o teu dinheiro, sim. Como o de qualquer outro. Afinal, é o que o que sou. É o que faço.

Thaís fecha a porta e vai embora. Pedro pensa em ir até ela, mas fica com medo de piorar a situação. Ele vai até o quarto, abre o roupeiro e retira um caixa. Dentro um invólucro. Cocaína. Ele usa a droga e deita na cama por um instante, relembrando das últimas horas. Em seguida, veste a roupa e vai até o banheiro do quarto lavar o rosto. Antes, encara-se no espelho. “Tu é um idiota”, diz para o seu reflexo. Depois, agacha-se para encher as mãos de água e molha o rosto. Ao encarar novamente o espelho, percebe outra imagem. Era o rosto de seu pai. Ele sorri com maldade para Pedro, que vê o braço dele rapidamente saindo de dentro do espelho e agarrando os seus cabelos com força. Em seguida, ele o puxa contra o vidro, que se espatifa. Um corte na testa o faz sangrar.
Ele salta para fora do banheiro, assustado. Na parede do quarto, no outro espelho, ele encara a figura do pai que, apoiando-se na moldura vai saindo para fora e caminhando em sua direção. Pedro pensa em dialogar.
- Pai?? O que...o que o senhor quer de mim? Por favor, pai. Me ajude...me ajude a suportar isso tudo. Me ajude a dar um fim nisso tudo.
O pai de Pedro chega próximo dele, que está covardemente agachado num canto. O homem à sua frente desfere-lhe um coice, fazendo-o cair. Em seguida e sem nada dizer, ele puxa um revólver. Pedro se desespera.
- Não, pai. Por favor, não!
- Eu não sou teu pai! E tua mãe é uma adúltera do inferno...uma cadela que não vale nada.

E o homem aponta a arma para a cabeça de Pedro e, em seguida, começa a chorar. “Eu não consigo fazer isso. Eu não consigo”, ele lamenta e senta na cama chorando, largando a arma. Pedro caminha até ele e tenta tocá-lo. O homem levanta o olhar, vermelho de raiva e pula no pescoço de Pedro, apertando-o com uma força sobrenatural. Quase sem conseguir respirar, ele pede por socorro, enquanto é invadido por uma remota lembrança de infância. Instantes depois, o som de um tiro e a cabeça do pai explodindo à sua frente e espalhando sangue e miolos por cima dele e pelas paredes do quarto.

Pedro levanta assustado, questionando a própria sanidade. Ele vai saindo de costas do quarto, sem conseguir tirar os olhos do corpo do pai. Na cozinha, ele ouve vozes. Caminha até lá e vê o seu pai e a sua mãe discutindo.
- Eu descobri a verdade. Tu é uma puta, uma vadia. E aquele moleque não é meu filho. Eu te amava, Maria Helena. Eu te amava de uma forma que ninguém vai te amar. Agora, tu tem o meu ódio, o meu desprezo mais absoluto. Tu e aquela criança maldita.
- Não fale assim. Ele...ele te ama. Tu é o herói dele.
- Tu destruiu comigo...
- Foi há muitos anos. Não significou nada para mim...
- Como não significou?? O moleque está lá no quarto, dormindo!! Ele está lá. E eu achava...eu achava que ele era meu filho!!! Eu fui traído e não merecia isso de ti. Não significou nada?? Eu não signifiquei nada, sua desgraçada. Enquanto eu só queria o melhor para ti, para o nosso futuro, tu...fornicava, no nosso quarto...com aquele desgraçado. Ele...destruiu com a minha vida. Primeiro, me transformou num corno estúpido, enquanto gozava no teu corpo, na tua boca...agora, por causa dele e por tua causa, eu vou me tornar um assassino...
- Não, por favor. Não faça isso. Não o mate...foi culpa minha. Só minha.
- Vou matá-lo, sim. Não sou sossegar enquanto não matá-lo. Mas primeiro, vou matar o filho dele.
- Não!!!
A mulher tenta impedi-lo de ir até o quarto, mas ele a joga longe, arremessando-a contra um armário, quebrando o vidro e caindo no chão. Raivoso, ele cruza por Pedro parado no corredor e segue em direção ao quarto, onde uma voz de criança emitia um choro sufocado. A mulher levanta-se, cambaleando e corre até o quarto. Pedro acompanha a sua trajetória, assustado. Ele a vê parar na porta e entrar devagar. Instantes depois, o som de um tiro. Um minuto depois ela sai do quarto com uma criança nos braços. Era o pequeno Pedro, aos três anos, com o rosto coberto de sangue e chorando muito assustado. Os dois cruzam pelo escritor e desaparecem ao passar pela porta da frente. Tudo fica em silêncio por um instante. Até que Pedro começa a ouvir algo semelhante a um sussurro. “Está escrito. Está tudo escrito”. Instintivamente, ele vai até a prateleira e apanha um exemplar de seu último livro, “O Conto Proibido” e folheia algumas páginas. Lá, estava descrita a história de um homem que, não aceitando a traição da esposa planeja matar o amante dela, mas é morto antes pela própria esposa, que simula como se tivesse sido suicídio. Ela procura o amante para que ele a ajude e fiquem juntos para criarem o filho, fruto de sua traição ao marido legitimo. O amante, porém, se recusa a ficar com ela, pois tinha a sua própria família.
Não era uma coincidência. Aquilo tinha acontecido. “Vingança. É isso o que ele busca”, ouve Pedro. Logo, ele lembra de seu padrinho, a quem só via raramente no dia de seu aniversário, quando ele deixava presentes caros. Sua mãe não gostava muito dele. Dizia que tinha sido amigo de seu pai e que não era uma boa pessoa. Uma vez, ao chegar em casa, Pedro vira sua mãe discutindo com ele e chorando. Mas ao vê-lo, parou a discussão. Depois da morte de sua mãe, ele nunca mais manteve contato. Agora, tudo parecia óbvio: aquele homem era o seu pai. “Tu deve matá-lo”, ouviu Pedro. “É preciso matá-lo para se libertar”. O escritor foi até o quarto e abriu uma gaveta do roupeiro, retirando uma arma. A arma que estourou a cabeça do pai que o criou até os três anos. Era com aquela arma que ele deveria matar o seu pai verdadeiro. E era isso que ele Pedro iria fazer. Pedro pegou a arma e se dirigiu até a garagem. Lá fora, ao lado de seu carro, estava a jovem suicida, ainda clamando por ajuda. Pedro a ignorou e entrou no carro, dando partida. A chuva estava cada vez mais forte.
Durante o trajeto, enquanto dirigia, ele vê surgir uma mão escalando o capô do carro. Era o homem com partes do corpo esmagadas que vira no hospital, ainda implorando por ajuda. Pedro fecha os olhos e, ao abri-los, percebe tarde demais que havia atropelado uma mulher que surgira rapidamente atravessando a estrada. Ele olha para trás e percebe que não havia nada e que se tratava apenas de mais uma visão.
O escritor chega até a casa de seu padrinho. Ele desce do carro e antes de chegar até a porta, sente uma mão em seu ombro. Em seguida, a voz de Virgílio.
- Tu tem escolha. Essa vingança não é tua.
- Eu não quero continuar tendo alucinações. Não vou conviver com isso. Preciso dar um fim à essa loucura toda. Eu não sei mais o que é real.
- Tu tem um dom. Só precisa aceitá-lo.
- Suma da minha frente.
A porta da casa abre. Um velho aparece. Ele reconhece o filho de sua amante. O filho que nunca assumiu. Os dois se encaram por alguns segundos. “Estranho”, pensa Pedro. “Olhar para ele é como olhar para um velho inimigo. Como se esse acerto de contas fizesse parte de nossos destinos”. E Pedro dispara, abrindo um rombo em sua cabeça. Em câmera lenta, ele vê o seu corpo despencar no chão, frágil e ridículo, ao mesmo tempo em que algo se desprende do corpo, como uma cópia translúcida do homem que acabara de matar. Pedro ouve gritos dentro da casa e uma mulher corre até o corpo do marido. Instantes depois, uma criança de uns três anos grita pelo avô. “Assassino”, ele ouve a mulher gritar, enquanto manda que alguém tire a criança dali. Pedro a encara e leva a arma até a boca, mas o tiro não sai. A única bala havia sido usada. Assim, Pedro se ajoelha no chão e, como se estivesse em transe, parece ouvir ao longe os choros da mulher abraçada ao corpo do homem morto. À sua volta, Pedro percebe algumas figuras se definirem. Eram vários mortos e, entre eles, o homem que tinha sido o seu pai. Todos olham para ele, sem qualquer reação. Em seguida, um a um, eles começam a sumir. E Pedro parece ouvir algo semelhante a um barulho de sirenes. Segundos depois, viu surgirem policiais ao seu redor. E ele sorri ao lembrar do final do Conto Proibido. Exatamente igual ao que estava acontecendo com ele, nesse instante. “Sem finais felizes”, ele sussurra para si mesmo.



*****
Uma semana depois, Thaís se preparava para ir à universidade já que havia retomado os estudos. Alguém bate à sua porta. Era um homem usando terno e gravata. Ele se apresenta como advogado, dizendo representar João Pedro Benites.

- Creio que tu sabe o que aconteceu com ele. Bom, todo o País sabe. Afinal, ele é um escritor famoso. Enfim, ele foi preso e depois foi submetido a alguns exames. Por determinação judicial, acabou recolhido a uma clínica psiquiátrica por apresentar alguns delírios, resultantes do uso de drogas, talvez. Bem, não sei se tu sabia, mas antes disso tudo acontecer ele havia assinado um termo em que te beneficiava caso viesse a morrer ou algo assim acontecesse. Ou seja, ele passou para ti as contas bancárias, direitos autorais e todo o lucro que vier de suas publicações. E, olhe, depois disso tudo que aconteceu, os livros dele estão vendendo muito mesmo.

- Eu...eu não sabia disso. Ele está bem?
- Está sob medicamentos fortes. Ele diz que vê e conversa com mortos. Segundo os médicos, a abstinência das drogas faz com que ele tenha essas alucinações.
- Eu posso ir visitá-lo?
- Pode. Bom, eu precisava que tu passasse no escritório para resolver a papelada. Mas estou aqui por mais um motivo.- o advogado aponta para o seu veículo. Capeto, o cachorro de Pedro estava mordendo o banco.- Por favor, aceite. Antes que ele destrua o meu carro.
O advogado abre a porta do carro e Capeto corre até Thaís, que o acaricia.



****
No dia seguinte, a garota caminha pelo corredor da Clínica Psiquiátrica onde Pedro estava. Ela pára diante de uma porta. Através de uma pequena janela na porta, ela o vê deitado inconsciente, com os braços e as pernas amarrados. Ela se sente culpada, pois acredita que poderia ter feito alguma coisa por ele, ajudando-o, assim que soube que ele usava drogas com a absurda idéia de vivenciar outras experiências e despertar idéias para escrever. Ela se sentia responsável por ele, pois sabia que da maneira que fosse, Pedro a amava.

- Não se preocupe. Nós estamos cuidando bem dele.
Thaís olha para o homem vestido de branco e estende a mão para cumprimentá-lo.

- Obrigado doutor...fico aliviada. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Ele estava meio perturbado nos últimos tempos. Morava sozinho e...dizia ouvir vozes e coisas assim. O senhor sabe, ele...costumava usar drogas. Enfim, ele é uma pessoa muito especial para mim. A gente se conhece a vida inteira.
- Eu sei disso, Thaís.
- Como o senhor sabe meu nome?
- Está no seu crachá- Diz o médico.
- Ah, claro- ela percebe, olhando o crachá de visitante da clínica.
- O Pedro é meu amigo. Tenho uma certa dívida com ele. Digamos que os seus livros ajudaram alguém que era especial para mim. Fizeram com que uma mensagem fosse compreendida e...ajudasse essa pessoa a seguir vivendo. Bom, eu vou andando. A gente se vê por aí.

O médico se despede. Thaís volta a olhar para Pedro, através da janela. Em seguida, ela torna a falar com o médico, que se distancia pelo corredor.
- Perdão, mas qual é o seu nome, doutor?
Ele pára e faz uma reverência para ela.
- Oh, desculpe. Esqueci de me apresentar. Pode me chamar de Virgílio.



FIM

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom... gostei do estilo. Denso e cativante. Não arredei olhos até chegar ao final. Prevejo sucesso literário. Parabéns.
Weimar.