quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Trecho de uma história que estou escrevendo...

Abaixo, o trecho de um longo conto que estou escrevendo. Só não me pergunte como inicia e nem como será o final. Em breve, publico ele por completo.

"No dia seguinte, na delegacia, ele aguardava impaciente a sua vez de falar com o policial encarregado da investigação.
- Olhe, eu aceitei vir, mas não tenho planos de perder a manhã por aqui...
Diz ele para o atendente.
- O senhor já será ouvido. Só mais alguns instantes.

Pedro resigna-se e volta a sentar. Saca o celular do bolso e fica mexendo nele, impaciente. Detestava ficar parado, ainda mais à espera de alguém. Já haviam se passado longos 30 minutos. Uma eternidade para ele e para qualquer um que se sente numa delegacia. Cruza os braços e suspira alto, com intenção de demonstrar seu descontentamento. Os pêlos de seu braço ficam eriçados num instante.

- Disseram para eu falar contigo...
Pedro surpreende-se com a voz que surge no sofá ao lado. Ele não tinha percebido a moça que estava ali, sentada.
- Tu trabalha aqui?
Ele pergunta para ela, enquanto o atendente lança um olhar curioso para o escritor.
- Eu o procurei...para revelar a minha história.

Ela diz, evasiva. A moça parecia confusa, é claro que ela não trabalhava aqui. Parecia ter mais jeito de drogada. Talvez tenha sido presa com entorpecentes. Ótimo. Pelo menos, alguém interessante para conversar, ele pensa.
- Eu usava drogas, sim...
Ela responde, como se tivesse lido o pensamento dele.
- De vez em quando, eu também uso. Só não conte para eles.
Ele diz, apontando com o queixo para os policiais.
- A culpa é minha- diz a moça, ignorando as palavras de Pedro- eu não sabia que minha mãe sentiria tanto, mas ela sentiu. E isso está me destruindo muito. Mas eu não sabia o que fazer. Eu o amava, mas ele me abandonou e isso doeu demais, foi ficando insuportável. Não dava para viver com toda aquela dor, sabe? É como se o peito da gente pesasse tanto, tanto. Eu não comia, eu não dormia, eu só chorava. Minha mãe acha que a culpa é dela, mas eu queria dizer para ela que não é e que eu me arrependo de ter feito o que eu fiz, porque a dor que eu sentia era realmente pequena, insignificante mesmo. Mas eu só sei disso porque a dor que carrego agora é muito pior. E ela é para sempre. E agora não há úisque ou cocaína que faça passar...

Pedro não estava entendendo nada. O policial o chama. "É a sua vez. Pode passar", ele diz. Pedro desiste de conversar com a garota.
- Preciso ir. Depois a gente conversa.
- Tu não está entendendo. Eu vim de longe para encontrá-lo. Preciso te contar a minha história. Preciso que entenda. Preciso que fale para os outros. Eu não tenho muito tempo.
- Tudo bem, eu entendo. Mas tenho compromissos. O que quer que tenha feito, não se preocupe. Lembre-se: enquanto há vida há esperança.
A garota levanta-se, num grito desesperado, lançando-se em direção a Pedro e mostrando os pulsos dilacerados e esvaindo-se em sangue:
- Não há esperança!!!!!!!!!!

A garota desfalece nos braços de Pedro, manchando sua roupa de sangue e tingindo o chão branco da delegacia de um vermelho intenso. Como ele não percebeu antes
os seus cortes?
- Um médico!!! Ambulância!! Socorro!!! Alguém... por favor, chame uma ambulância!!! Meu Deus, meu Deus!!!!

Os gritos de Pedro chamam a atenção de outros policiais, funcionários e pessoas que estavam na delegacia. Em segundos, vários estavam ao seu redor, mas ninguém ajudava.
- Não estão vendo??! Ela vai morrer!! Por que ninguém faz nada???

O delegado observa a cena. Pedro, cada vez mais nervoso, pega a garota no colo e a deita no sofá. Em seguida, vai para cima do atendente da delegacia, irritado.
- Por que ainda não chamou socorro??? Por que todos só ficam parados??

O atendente olha para o delegado que o autoriza. "Chame a ambulância", ele ordena.
- Ah! Finalmente! É preciso que alguém te dê uma ordem para salvar uma vida??

O delegado chega próximo de Pedro.
- Fique calmo. Vai ficar tudo bem....

O escritor ignora e vai até a garota e percebe que o sangue não pára de jorrar. "Preciso estancá-lo", ele pensa. Levanta rapidamente e apanha um estilete de cima de uma mesa, ante o olhar preocupado de todos. Corta as mangas de sua camisa, transformando-a em faixas. Ele ata os pulsos da garota. O sangue dela está espalhado no piso, em suas roupas e no sofá.
- Isso deve adiantar até o socorro chegar- diz ele, nervoso e suando muito.
- Procure ficar calmo- aconselha o delegado.

A garota murmura alguma coisa. Pedro ajoelha-se perto dela.
- Minha história...escreva sobre ela. Conte o que eu te revelei. Minha mãe não tem culpa...me ajude. Disseram que tu iria me ajudar...
- Quem disse?
- Outros...como eu, que fizeram mal a si...e outros que foram interrompidos. Que foram tirados da luz.

Os enfermeiros entram na delegacia. Pedro os percebe. Vai até eles.
- Graças a Deus. Rápido, ela perdeu muito sangue.

Um enfermeiro o surpreende, imobilizando-o. Outro aplica um injeção no pescoço dele que vê sua visão enuvear-se.
- O que estão fazendo? Ela é que precisa de ajuda...
Num instante o colocam numa maca. Pedro olha para o sofá. A garota não estava mais lá. Ele força a visão para tentar encontrá-la entre os vários rostos à sua volta. Alguns com uma nuvem negra no olhar. Todos na delegacia o observam, assustados. A garota aparece de pé, ao seu lado. Não está mais sangrando.

- Enquanto há vida, há esperança. - Ela diz mostrando os pulsos com profundos cortes, mas sem sangue.

E Pedro não vê mais nada."

Um comentário:

Prof. Nei Colombo disse...

Olá caro Márcio. Realmente surpreendente o fragmento de teu conto. No aguardo do ínicio e do final. Um abraço