quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Grandes Esperanças


Era uma noite chuvosa, dessas em que os raios nos causam um arrepio e os trovões chegam a assustar. Lá fora, o vento criava açoites com a forte chuva que caia. A falta da energia elétrica mergulhava a cidade na escuridão. Dentro de casa ele andava com uma vela grudada na tampa de um vidro de Nescafé, igual sua mãe tantas vezes fez quando ele era criança. Porém, ao contrário dela, ele não tinha medo da tempestade. Achava bonito de ver a natureza mostrando a sua força. Para ele, era uma noite bonita. Uma noita em que a natureza mostrava uma de suas faces e ele a respeitava por isso. A respeitava pelos sábados ensolarados, pelos domingos calorosos e também por esta sexta-feira chuvosa. Não havia nada para fazer. Acostumado com a comodidade da energia elétrica, ele não podia ligar seu computador ou mesmo assistir a um DVD. "Como é que nossos antepassados viviam? Como eles faziam com seus e-mails?", pensa ele. Logo, apanha um livro na prateleira e vai para o quarto. Recosta-se em seu travesseiro e abre as páginas de "Grandes Esperanças", de Charles Dickens. Ele já havia lido esse livro em repetidas ocasiões, mas vez por outra o tomava apenas para reler alguns diálogos. Nesta noite ele o fez novamente durante algum tempo, chegando a adormecer com o livro em seu peito. A vela ao lado de sua cabeceira flamejava fracamente, perdendo o brilho e aos poucos sendo vencida pela escuridão, que tomava conta do quarto. Barulho na porta. Uma, duas batidas. Ele abre os olhos na escuridão, pensando ter ouvido algo. "Imaginei", pensa. Pam-pam-pam. Sim, havia alguém à porta. Mas quem a essa hora? Ele levanta tateando pela casa, vai acender outra vela. Pam-pam-pam na porta.
- Já vou.
Ele avisa, enquanto acende outra vela e direciona os passos rumo à porta da frente. O relâmpago revela uma silhueta de mulher. Ao abrir a porta, um pé-de-vento sopra a vela. Na escuridão, ele não decifra o rosto, mas ouve a voz.
- Posso ficar aqui essa noite?
Ela diz, entrando. Ele, totalmente tomado pela surpresa se mantém estático, ainda com a mão ao trinco da porta.
- Eu posso?
Ela repete a pergunta.
- Oh, sim, claro...
Ele responde apalermado, com o coração tomado por uma súbita aceleração.
- Desculpa aparecer assim...
Ela tenta justificar-se.
- Aconteceu alguma coisa?
Ele pergunta, procurando esconder a alegria dela estar ali, não importando o que tivesse acontecido.
- Prefiro não dizer...
Ele controla a curiosidade, afinal, pouco importava. A presença dela mesmo que fosse por breves instantes enchia a casa (e a vida dele) de luz. Mesmo que a casa (e a vida dele) estivessem mergulhados na escuridão.
- Que livro é esse em suas mãos?
Ela percebe. Ele não se deu conta que ainda o segurava.
- É aquele do Dickens.
Ele revela.
- Ah, esse. Tem final infeliz...para ele.
Ela folheia as páginas iluminadas fracamente pela vela.
- Bobagem folhear um livro no escuro, né?
Ela diz, enquanto ele a alcança uma toalha.
- Tu está molhada. Posso ver alguma roupa para ti. Mas são as minhas, ou seja, vão ficar grandes em ti.
Ela sorri, não havia problema.
- Desde que tu me faça um café...
Ele separa a roupa e leva para ela. Depois, vai até a cozinha preparar o café. Tinha mil perguntas para fazer a ela. Algumas, ele teme a resposta. Para outras, ele tinha grandes expectativas. Mas faz de conta agir normalmente, como se todos os dias chegasse alguém à sua porta pedindo-lhe pouso e café. Ela pensou em dizer que não queria atrapalhar, mas sabia que ele iria responder com um sorriso e dizer que ela não o atrapalhava de forma alguma. Talvez até aproveitasse para dizer que ele a amava. Melhor não perguntar o que estava implícito. Mesmo no escuro, ela percebia o brilho no olhar dele. E sabia que seu coração se enchia de luz. Ela sabia o que significava para ele e se via invadida por mil lembranças felizes e outras nem tanto. Ele preparava o café com a máxima concentração, como se aquela xícara de café fosse a coisa mais importante do mundo. Queria agradá-la.
- Cuidado, está quente.
Bobo. Ele se achava um bobo em dizer coisas óbvias. Mas era ela que o desnorteava, o tirava fora de seu eixo, o transformava num menino inseguro e medroso. Vulnerável, ele tenta não encarar os olhos dela e refugia-se folheando novamente as páginas do livro. Ela bebe o café enquanto passeia o olhar pela casa fracamente iluminada pela vela. Às costas dele, em cima de um armário, ela percebe um porta-retrato com uma foto deles dois, juntos. Ele se constrange por isso. Fraco, bobo, patético, nostálgico, tolo.
- Esqueci de tirar daí, desculpe. Digo, pensei em tirar, eu devia ter tirado só que...
Ela o surpreende, calando suas palavras com um beijo. Um beijo com sabor de Nescafé. Ele a abraça. Primeiro com ternura, depois com fervor. E deixa "Grandes Esperanças" cair no chão...

No dia seguinte, após ter acordado tarde, ele recolhe o livro no chão da sala. A luz da manhã invadia a casa toda. Havia respingos de vela aqui e ali, mas nenhum outro vestígio. Toalha e roupas estavam no lugar. "Foi imaginação?", ele questiona, colocando a própria sanidade em dúvida. Tomado por um misto de dor, tristeza e raiva ele joga longe o porta-retrato, tranformando-o em cacos. "Estou ficando senil", ele sentencia. Senta no sofá para chorar. Apesar do sol ultrapassar os vidros da janela e repousar em seu rosto, ele achava-se na mais completa escuridão. "Chega de autopiedade", ele pensa, levantando-se para refazer-se com um gole de café. Foi quando percebeu em cima da mesa aquela xícara pela metade. E uma marca de batom.

Um comentário:

Rúbida Rosa disse...

Final com "chave de ouro", gostei!