quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Futebol e pena de morte

No último domingo, fui jogar futebol com os amigos no ginásio municipal da Belizário, que ficou ainda melhor depois das reformas. Com o início do horário de verão, o time que jogava antes, acabou jogando na nossa hora e, assim, tivemos que esperar uma hora para poder disputar a nossa partida. Tudo bem, sem estresse. Ficamos todos por ali, cuspindo e jogando conversa fora. O Éverton, que havia confirmado 100% ir jogar, passa uma mensagem 5 minutos antes do jogo. "Chegou visita. Não vou poder ir". Olho para a mensagem e dou risada. Mostro para o Divaldo. "O que acha, Diva?". Ele teve a mesma opinião que eu: se o nosso amigo tivesse enviado a mensagem uma hora antes daria para acreditar, mas cinco minutos? Ele estava era com preguiça de ir jogar...
---------
O Chico foi outro que não foi ao futebol. "O que houve com ele?", pergunta o Luciano. "Disse que está meio que ficando gripado e quer se resguardar", respondo. "Cumequié? O Chico, se resguardando?", pergunta o Divaldo. E logo começamos a rir. O Chico é do tipo que não se abalaria de jogar nem se tivesse contraído Ebola. Achamos que foi a esposa que o amarrou na perna da cama. Marido e pai, as coisas mudaram para o Chico...
-------
Em meio às conversas descompromissadas e risadas gratuitas, o Luciano se achega para o meu lado e faz uma pergunta séria. "O que tu acha sobre a pena de morte, Márcio?". Olho para o meu amigo e fico pensando se respondo seriamente ou digo um simples "sei lá". Resolvo falar. Se me perguntassem isso há uns três anos, eu diria que seria contra. Argumentaria que o Estado não tem o direito de tirar uma vida, que ele não poderia tornar-se uma instituição medieval, em plena era da modernidade. Que os criminosos deveriam, sim, sofrer uma pena sem privilégios de bom comportamento. Prisão perpétua, sim. Pena de morte, não. Afinal, o que há do outro lado? O que é pior: matar o criminoso ou deixá-lo vivo e encarcerado pelo resto de seus dias sabendo que o crime que cometeu trouxe a consequência da perda de sua liberdade, de viver como outros cidadãos de bem. E, afinal, nos países onde existe a pena de morte, houve uma diminuição da criminalidade? Muitos crimes acontecem por consequência de uma ou outra situação, todos os casos seriam julgados com a pena de morte, ou ela seria aplicada para assassinos seriais?
--------
Precisamos de pena de morte ou de uma lei justa? Sim, porque não há justiça em nossas leis. É o que falta em nossa sociedade: Justiça verdadeira e plena. Cidadãos verdadeiros e conscientes. Uma utopia tão grande quando a que achar que a pena de morte traria paz para a sociedade. Aliás, eis o contrasenso: usar de uma prática bárbara para nos sentirmos mais civilizados.
-------
"O que acha da pena de morte", a pergunta de meu amigo Luciano me faz pensar. O que vale a minha opinião, perante uma questão de enorme profundidade humana? Não sei dizer se sou a favor ou contra. Me indigno com a raça humana e com tantos atos bestiais cometidos por tantas pessoas.
Quando nos vemos atingidos, de qualquer forma, por algum ato de violência, a vontade que nos surge é de dar um tiro no joelho daquele bandido. A vontade que dá é de linchar em praça público os assassinos e estupradores que convivem em nosso meio. E linchar não seria um ato de barbárie? E dar o poder ao Estado de matar, nos exime da culpa sobre aquela morte, uma vez que o Estado exerce o poder representativo, delegado pela própria sociedade?
A pena de morte seria a solução para criar uma sociedade mais ordeira? Creio que não. Os crimes continuariam acontecendo. Só que iria acontecer é que os assassinos seriam descartados de nosso convívio. As ervas daninhas seriam banidas. De certa forma, seria bom para o resto da sociedade. Mas creio que não impediria a proliferação de outros crimes. Veja o caso de tantos cidadãos "normais" que, num repente, tornam-se assassinos protagonizando tantos espetáculos midiáticos. E aí, vem aquelas procissões, como o caso da moça que foi morta pelo namorado e em cujo funeral participaram mais de 10 mil pessoas. Putz, 10 mil! Quase a população inteira de Jaguari. Para mim, não bastaria apenas instituir a pena de morte como forma de corrigir a sociedade. Seria necessário aplicar inúmeras regras sociais. Uma delas, seria de mudar a própria mídia. Hoje, a divulgação de crimes e atos de violência criam a sensação de insegurança do cidadão. E aumentam a certeza da impunidade do bandido/assassino/infrator. Se hoje somos uma sociedade ainda mais bárbara do que na idade média, não há dúvidas de que a imprensa é muito culpada por isso, justamente por permitir a propagação instantânea de tantos casos horrendos, multiplicando os seus efeitos de formas positivas e negativas.
-----
Alguém aí assistiu a um filme chamado "Assassinos por Natureza"? Mostra justamente isso: um casal de assassinos torna-se um espetáculo para a mídia. Suas ações apavoram e, ao mesmo tempo, fascinam e geram seguidores. Em tempos de Big Brother, onde a TV, jornais e revistas lançam moda e dita o que calçar e o que vestir, também acabam gerando criminosos através da propagação de notícias violentas. É o velho adágio de que "violência gera violência" e isso vai continuar acontecendo até que a própria sociedade compreenda que ela precisa mudar de todas as formas, não apenas aplicando injeções letais ou colocando na cadeira elétrica os seus assassinos. A natureza humana é complexa e sujeita a ações surpreendentes. Nem todo cidadão de bem de hoje está livre de cometer um crime ou violar alguma regra social amanhã. Eu, que escrevo esse texto pacifista hoje, posso tornar-me um guerrilheiro amanhã. Quem sabe? Quem pode se dizer acima do bem e do mal? Eu, pelo menos, não posso dizer. Posso apenas tentar, o que já é um começo, em todo o caso.
----
Portanto, os pensadores de nossa sociedade precisam pensar o amanhã e encontrar soluções pacíficas e transformadoras para toda a sociedade, a começar pelos próprios canais de comunicação em todo o mundo, passando pela política, comércio, propaganda, escola etc. Se declarar contra ou a favor da pena de morte com um simples "sim ou não", é algo sem efeito algum. Todo o resto precisa ser pensado e considerado de forma muito profunda. Ocorre que isso implica mudar o mundo e mudar o mundo implica que cada cidadão faça a sua parte e mude, no mínimo, os seus hábitos. Alguém estaria disposto a isso? As pessoas compreendem que tudo está intrínsico e nada é aleatório em toda essa rede de seis bilhões de pessoas que habitam esta orbe?

2 comentários:

Diego Neves disse...

Um assunto realmente polêmico e muito bem abordado por esse teu post.

Um abraço!

Anônimo disse...

Então bonita este site parece bem organizado.........bom trabalho :)
Gostei muito faz mais posts assim !!