segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A verdade da Polentina


Acredito que a escrita, quando não está a serviço da coletividade, não vale de nada. Quando criança, tinha sede de conhecimento e lia os mais diversos livros e autores. Hoje, confesso, muito pouco tenho lido. E, sinceramente, não me tem feito falta. Penso que não adianta encher minha cabeça de intelectualidade. Não é com a minha mente que devo compreender o mundo em que vivo e, sim, com o coração. Pois todo aquele que se põe a perseguir um objetivo somente com o propósito de sobressair-se aos demais, presta um desserviço ao gênero humano, não empregando forças para auxiliar os seus irmãos. O conhecimento precisa ser compartilhado sempre.

O que é melhor: a literatura de um Stephen King ou de de um Karl Marx? Rá! Certamente, os intelectualóides dirão: Marx, assim, estabelecendo que o que é bom para eles, é bom para o resto do mundo. Será que é assim que as coisas são? Será que não é possível encontrar algum sentimento mais puro em algo mais simples, como Ami, o Amigo das Estrelas ou, até mesmo, lendo os versos de uma criança?

Antes, criança, eu lia para conhecer o mundo, para conhecer o pensamento de quem me antecedeu e deixou a sua mensagem para o mundo, compartilhando a sua visão de mundo, fosse através da literatura ou da história. Em tempos atuais, onde escritores transbordam em todos os recantos seja através do lançamento de livros ou de blogs de todos os gêneros, é cada vez menor e na mesma proporção a qualidade desses autores. Antes de prosseguir com meu raciocínio abro um parêntese: sou um escritorzinho medíocre, que tenta ter alguma habilidade escrevendo contos e crônicas. Não me prendo a técnicas e nem me valho de citar autores, filósofos, cientistas, pensadores, políticos etc. Minha literatura é passageira e, para mim, tem algum valor fugaz.

Acho que muitos escritores, jornalistas ou pensadores tem um sério defeito de se julgar sérios demais ou geniais demais. Quando digo isso não me refiro somente a Santiago, mas a tantos recantos por aí.
O Oracy Dornelles, que é considerado o maior poeta que temos aqui em Santiago, por exemplo, é um que acredita ter alcançado o pódio supremo da literariedade, reservando-se o direito de jogar raios na cabeça de quem julgue inferior: este escritor presta, aquele não vale de nada. E quando ele fala, parece ter proferido uma verdade absoluta e universal. Ledo engano. Ninguém pode exercer esse papel no lugar do leitor.

Tem ele, sim, o direito de expressar a sua opinião e essa deve ser respeitada dentro de seus limites. Mas o Oracy, na verdade, representa um segmento muito presente na literatura ou no jornalismo, de figuras que traçam um papel de julgar e condenar. De indicar ao leitor aquilo que presta ou não presta. Que isto (ou este) serve e aquele não presta.

O Diogo Mainardi, da Veja, é um exemplo de jornalista que prega um papel de falar mal do que quer seja, pregando verdades universais e quase sempre sendo contra a estrutura governamental vigente. No caso em tela, sempre perseguindo Lula e o PT. E assim, Diogo Mainardi está sempre cuspindo para cima e para os lados. Mas quando alguém aponta para ele, faz papel de vítima e de perseguido, com intuito de manipular a opinião pública para que esteja ao seu lado, para que tenha pena dele e o apóie.

É urgente e necessário que cada pessoa desperte o seu lado crítico, porém, abrindo o coração para os sentimentos humanos. As coisas não podem ser a ferro e a fogo. Nenhuma crítica pode ser tomada ao pé da linha e todo aquele que invada o plano moral, de tentar reduzir o valor dos outros, não merece ouvidos.

Neste momento, aproveito para criticar a tantos textos que eu próprio escrevi em algum momento de ânsia, de ego, de paixão ou por julgar apenas um lado da moeda, desconsiderando outros fatores da existência.

Como tenho sido (e sou) tolo em muitos momentos. Como tenho errado neste blog ou em minha coluna no jornal. Posso até refletir sobre a fala de um amigo que diz que "somos jovens e temos o direito de errar", mas não concordo 100 %. Faço parte desse plano físico neste momento, mas venho de outros tempos, minha alma já rodou algumas existências e sempre chega um momento de aprender e perceber-se equivocado.

E como tenho errado em minhas condutas pessoais em muitos momentos. Portanto, por conhecer cada falha minha é que sei que não posso me considerar esse "escritor" que alguns insistem em considerar. Por ser tão imperfeito, como posso eu receitar valores e dizer como outros devem agir ou analisar a moral e a ética de cada um?

Como posso pegar uma pessoa e reduzir sua vida a uma linha de texto e sob uma sinopse descrever quem ela é, cometendo a infantilidade de dizer ser esta pessoa "meio cheia" ou "meio chata", ou "meia isso ou aquilo"?

Como alguém pode ser meio algo? E as outras qualidades e os outros defeitos? Cabe a mim analisar e ditar uma consideração com propósito de influenciar a opinião alheia? Faço uma mea-culpa: várias vezes fiz isso e como fui imbecil em tê-lo feito. Por criancice, por birra, por estupidez ou por influência de outrem. É preciso que haja justiça para todos. Portanto, espero ser julgado com a mesma pena que, em alguns momentos, julguei a outros. Afinal, a Terra é, senão, um laboratório das emoções e como reagimos diante delas. E como elas conduzem os nossos atos.

Qualquer profissional de qualquer área está equivocado quando se julga superior a outras profissões a outros seres humanos. O que é mais importante: escrever ou plantar mandioca? Sinceramente, creio que plantar mandioca. O que é mais importante: escrever ou ser um médico e ter a possibilidade de curar? Assim, sucessivamente. Um escritor é mais importante que um gari?

Porém, acredito que por mais habilidoso tenha sido o escritor ou jornalista em desenvolver quaisquer raciocínios, terá sido fracassado em seu intento se a sua mensagem não servir para tocar o coração de alguém. Ou, no mínimo, dele próprio. Insisto em meu raciocínio: acredito que a escrita, quando não està a serviço da coletividade, não vale de nada.

Ganhar um prêmio, ter sua obra elogiada, ter fãs, vender livros? Puá! Qualquer escritor medíocre pode fazer isso. Qualquer livro, com uma boa dose de marketing é capaz de vender aos montes, por ruim que seja. Por mal escrito que seja.

Tudo bem, todos que gostam de escrever que continuem com a sua arte e ignorem as minhas críticas. As faço para mim mesmo. Mas se engana quem pensa que me considero o supra-sumo da literatura tupiniquim. Sou um nada, um vermezinho, uma coisa à toa, toda vez que deixo o meu ego escrever por mim. "Olha, vejam como sou bom, como me adoram, como eu sou genial, como minhas palavras dançam nesse texto tão inteligente, tão inteligível". Conversa fiada. Escritores não são astros.

E leitores que se gabam de terem lido 300 e tantos livros são uns ególatras. De que adianta ler tanto, se muitos são incapazes de passar esse conhecimento para a prática? Enchem a cabeça de referências, datas, personagens, poemas, mas de que vale tudo isso se tornam-se incapazes de sobrepujar as paixões humanas e colocar-se em defesa da coletividade em repassar seus ensinamentos. Não como forma repetidora, mas sim, tradutora. Acredito que qualquer mensagem deva ser codificada e transmitida da melhor forma possível.

O que tem mais valor: Guerra e Paz, de Tolstói ou o Pequeno Príncipe, do Exupery? A literatura adulta tem mais valor que a infantil? Por que? É preciso realmente ler algum livro para ser um humano melhor? É preciso ter dinheiro para ser feliz? É preciso ter um carro para ser feliz? É preciso lançar um livro, plantar um árvore e ter filhos?

Adultos são realmente capazes de compreender alguma coisa? Ou são criaturas dotadas de um ego enorme e que simplesmente adoram dizer que leram tal livro ou que escreveram tal texto e que por isso merecem aplausos por terem contribuído com o crescimento humano? Na verdade, eu tenho até vergonha de muitos textos que escrevi e penso, preocupadamente, que possa ter influenciado alguém com alguma de minhas imbecilidades.

Acredito que os melhores textos que concebi foram aqueles pueris mesmo, ingênuos, românticos e praticamente inofensivos. Gostaria de deletar todos aqueles textos em que, em algum momento, destilei algum tipo de sentimento mais agressivo. Como me arrependo de alguns textos em caráter político que escrevi. Só não os deleto para não esquecer de meus erros. Eles fazem parte da minha vida e assim continuarão.

Ser escritor é uma qualidade? Eu não me considero escritor, a não ser pelo fato que é através da escrita que exerço uma profissão, ganho minha vida. Talvez só venha a me considerar um escritor quando seja capaz de tornar-me um ser humano melhor, destilado de sentimentos raivóticos, egoístas, de ter acessos psicossomáticos, auto-piedade ou de natureza oriunda de infra-dimensões.

Até lá, sou um escriba, alguém que empilha palavras bêbadas em linhas tortas, nem um pouco digno de ser seguido ou compreendido. Fora isso, não creio que minhas palavras valem mais do que as descritas numa embalagem de Polentina que, afinal, está a serviço da coletividade. Para alguns povos, a palavra é sagrada e deve ser usada como um alimento, jamais como veneno.

Um comentário:

Lígia Rosso disse...

...Márcio, ao ler esse texto se justifica o porquê do quanto te admiro, te considero e te adoro! Aqui tu expressou muito do que penso também. Pobres daqueles que pensam que tudo sabem...estão tão enganados. William Shakespeare, o maior fenômeno literário que já existiu (na minha opinião), disse certa vez: "O tolo pensa ser sábio. E sábio sabe, por vezes, ser um tolo." Grande abraço com todo carinho, Lígia.