sábado, 30 de agosto de 2008

Minha pátria sem meias...




"... Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias
pátria minha
Tão pobrinha!"



Hoje, lembrei desse trecho do belíssimo poema Pátria Minha, de Vinícius de Moraes. Eu e o amigo Jones Diniz, da Rádio Santiago, fomos na exposição do Exército em frente a praça Moisés Viana. Lá estavam vários veículos, jipes, tanques de guerra e obuseiros como atrativo para a população. Além disso, havia militares por todos os lados. Não vivi o período da Ditadura, mas acredito que naquela época a disciplina entre os soldados fosse extremamente rigorosa, que eles fossem mais, digamos, alinhados.

Olhava para os lados e me senti numa história do Recruta Zero. Via à minha frente um exército bem mais simpático, mais humano, mais - digamos- ingênuo do que aquele que é retratado nos livros de história. Na praça, tinha dois soldados (fardados) e fumando (algo inconcebível a se fazer fardado, até um tempo atrás). Tinha outro escorado numa árvore tomando um chimarrãozinho, com a calça arriada quase no joelho, mostrando que estava sem meias. O Jones e eu seguimos caminhando em meio aos valentes soldados e nos aproximamos de um tanque de guerra. Eis que de dentro do veículo salta um milico com o celular nos ouvidos dizendo: "Tchê, mas onde é que tá essa lokinha? Não tô vendo aqui na praça. Tá vestindo que roupa? É aquela que eu fiquei naquele baile? A loirinha boazuda aquela...".


Sei que não é educado ficar ouvindo a conversa dos outros, mas ele falou bem na nossa frente e em alto e bom som, como era uma exposição pública e ele vestia a farda que nosso Exército apresenta como "patrimônio nacional", acabei por prestar atenção ao seu diálogo. E dei muita risada.


Em seguida, eu cutuquei o Jones:
- Não se faz mais militares como antigamente, não é? Onde está a temível disciplina e o rigor do exército? Se o Brasil entrasse numa guerra nós estaríamos ralados, não é mesmo?
O Jones deu uma risadinha e talvez não tenha entendido a minha crítica. Segui em frente
- Analisa, Johnny (como o chamo), tira a roupa verde desse pessoal aí: são um bando de guris brincando de ser soldado. Há algum tempo, todos queriam ser o Rambo. Hoje, estão mais para Recruta Zero. E, apesar disso, veja o armamento que eles tem nas mãos deles, toda essa tecnologia, todo esse investimento.


O Jones, meio entretido nas reminiscência dele do tempo em que era cabo do Exército e relatando as dificuldades, me disse que na sua época o quartel era uma grande escola. Eu o retruquei e disse que hoje o quartel era uma verdadeira "escora".

Se antes muitos tentavam fugir do serviço militar, hoje isso se inverteu e a falta de empregos faz com que a carreira se torne desejada. E o serviço militar acaba mostrando o quadro despreparado que temos de cidadãos. Não estou me refutando a instituição Exército e, sim, aos indivíduos que fazem parte dela. O recruta que ganha os seus primeiros salários trata de comprar um Chevete Preto e instala o melhor equipamento de som nele para andar pelas ruas ouvindo Modern Talking (Milico Dance) ou Calcinha Preta, Calixo e outras contra-cullturas, a todo o volume. Se preocupam muito mais em olhar as calças apertadas da loirinha boazuda da boate do que em serem cidadãos exemplares e inspiradores aos olhos dos outros. O que os jovens soldados hoje representam, em sua individualidade? O que representa ser soldado? Existe algum ideal, algum projeto de vida, algum significado, existe o bem coletivo? Individualmente, que tipo de povo nós somos? Em que essa parcela da população representa de nosso povo brasileiro, sendo eles representantes de uma classe, assim como quaisquer outras classes? Que tipo de sonhos nós temos? De que modo a nossa vida é empregada? Que tipo de atitudes, condutas, vícios, valores nós temos para defender e resguardar? Qual é a nossa soberania?


Soberania nacional? Não. Consumismo nacional, individualismo nacional, exibicionismo nacional, narcisismo nacional, idiotismo nacional. Nossa pátria anda sem sapatos e sem meias. Mas, pelo menos, de Chevette.

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