segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Reflexões inúteis




Não sou uma pessoa feliz. Não tenho certeza de muita coisa na vida, mas tenho certeza de que não sou feliz. Creio que é um tanto utópico existir felicidade neste mundo de sofrimento e desigualdade. O que existe, sim, são momentos de alegria, descontração, riso etc. Mas felicidade? O que é isso? O que é significa essa palavra tão presente no sonho de tantas pessoas (para não dizer todas as pessoas), como quem vislumbra um horizonte mais bonito?. Será a felicidade um estado de espírito (o que é espírito, palavra ou ectoplasma?)



"E eles foram felizes para sempre", é o que diz no final de historinhas da Branca de Neve, Cinderela ou até do Shrek e da Fiona. Mas é possível ser feliz para sempre? O que é o sempre? Dura quanto tempo? Digamos que serei feliz casando com a pessoa que eu amo. Aí, olha só, eis que realizo esse sonho. Estamos nós lá, casados. E um belo dia, tudo acaba, seja com a dor, seja com a traição, seja com a rotina, seja com a morte, seja com o que seja. E aí? Onde vão parar os sonhos? Tornam-se desilusões, resta cortar aos pulsos? Felicidade é ter um carro, viajar para a Europa, comprar um telefone novo ou uma casa maior? Se essas coisas materiais definem a felicidade, então, ela é algo que caminha ao lado do egoísmo, pois é a felicidade individual e não universal.



Sorrio, abraço, conto piadas, mas carrego uma profunda tristeza e um medo absoluto. É impossível ser feliz! É impossível confiar nos próprios semelhantes: precisamos de muros, precisamos de grades, precisamos de alarmes, precisamos de polícia, precisamos de socorro. Como um único indivíduo pode viver em um planeta doente e dizer-se feliz, enquanto os seus semelhantes padecem de todas as formas (guerra, violência, doença, miséria, fome etc)? E de que vale levantar a voz em prol dos necessitados, correndo o risco de ter a própria voz calada para sempre?? De que vale lutar pelos necessitados, se quando a estes surgem alguma oportunidade se revelam pouco merecedores de quaisquer esforços? Um mendigo se presume humilde, no entanto, se cair milhões em sua mão é bem possível que se torne uma pessoa contaminada pelo egoísmo e pouco disposto a ajudar os seus semelhantes. Dane-se.



Humanidade estúpida, seres humanos malditos, câncer do planeta Terra. Raça que caminha para a extinção atômica.



Rezamos na missa aos domingos ou nos cultos de todo o dia. Não importa para qual Deus e sob qual religião. Vivemos sob o signo do dinheiro. O dinheiro é o nosso líder. Perdemos nossas horas por dinheiro, matamos por dinheiro, não prestamos atendimento médico a quem não tem dinheiro, fazemos operações estéticas para quem tem dinheiro, fazemos campanhas para conseguir dinheiro para a salvar a vida de um filho doente, pois sem dinheiro os hospitais não operam, vendemos roupas para quem tem dinheiro, compramos comida com dinheiro, vendemos cocaína para quem nos traz dinheiro (não importando muitas vezes de quem roubou o dinheiro), criamos cidades, empresas, universidades, prédios etc.Tudo por dinheiro, o grande mal da humanidade. Olhamos para um maço de dinheiro e salivamos como quem saliva diante do prato preferido e imaginamos as coisas que faríamos com aquela grana. Puro papel. Papel sujo. Papel cheio da bactéria da ganância e do egoísmo e que, em verdade, nada vale. Damos ao dinheiro um valor que ele não tem. Não tem! É uma ilusão terrível. Mas somos incapazes de rasgar uma nota de R$ 50, pois ela nos custou dias de muito trabalho.



Aff! Para quê serve a vida? Para quê estamos aqui? Existe algum propósito maior na existência humana ou somos mesmo bactérias que evoluíram com o passar dos milênios? Somos seres inteligentes ou apenas seguimos os nossos instintos básicos e naturais de viver, nos alimentar, acasalar e perpetuar a espécie e imaginar que somos filhos de algum Deus, especiais diante do universo, com um lugarzinho reservado no céu (para sequer cogitar a hipótese de que nada pode existir depois disso tudo aqui, colocando um ponto final aos seres bondosos e justos que somos, capazes de julgar, condenar e estar com a razão)?



De que valem tantos esforços e sacrifícios diários em nome de sei-lá-o-que? O que significa torcer por um time de futebol? O que significa comprar um sapato de marca? O que significa pagar metade de um salário mínimo por um perfume? O que significa o hábito de assistir as novelas da Globo? Porque todo mundo quer ter filhos? Será que o mundo já não está cheio de pessoas? Será que todo mundo realmente precisa ter filhos? Para quê? Estamos preparados para educar os seres que se originam de nossas células com o que temos de melhor, preparando seres realmente honrados a dignificar e herdar esse planeta? Ou criamos mais um para estar na multidão, sem nada a acrescentar? Somos setenta vezes sete culpados pelos erros de nossos filhos, pois erramos na construção de seu caráter, não importa a desculpa que inventemos para nossos próprios corações.



Aliás, porque a gente critica tanto os nossos pais, s e acabamos nos tornando exatamente iguais a eles? Por que a humanidade evolui a passos lentos, ao mesmo tempo que destrói o meio em que vive velozmente? Por que, numa guerra, os presidentes não se engalfinham num ringue com transmissão internacional, ao invés de enviar soldados para matar e morrer, além de destruir inúmeras vidas? O quanto vale uma vida humana? Vale alguma coisa, significa alguma coisa diante do propósito universal ou somos tal qual uma formiga, poeira cósmica, que não se perde, mas cujos átomos se convertem em outra forma em qualquer tempo ou distância?A política vale de alguma coisa? A música vale de alguma coisa? Um abraço vale de alguma coisa? Os esforços humanos valem de alguma coisa? Ou é tudo tão passageiro e tão fugaz que só nos distrai de algum outro propósito que teríamos de concluir neste planeta? Ou simplesmente não há propósito algum, a não ser repetir tudo o que repete há séculos?



Não, não sou feliz. Na verdade, sou um infeliz, das mais variadas formas...

2 comentários:

Alessandro Reiffer disse...

Márcio, muito bom este teu texto, excelente mesmo, leva-nos a profundas reflexões, parabéns. Uma hora que puder, dá uma conferida nas novidades do meu blog: www.artedofim.blogspot.com Grande Abraço.

Cintia Toledo disse...

Márcio, concordo com o Alessandro. Ficou muito bom esse texto. Nos leva a imaginar a profundidade de nosso ser.
A infelicidade é um estágio da humanidade. A felicidade é a redenção de nossa alma a algo mais elevado, que nós, dificilmente alcançamos em vida.
Só sentem isso os Bhramas, os budistas... aqueles que puderam sentir o álito de Deus.
Abraço