terça-feira, 8 de julho de 2008

Segundos...



Acordei tarde hoje e dei uma passada no Chico, para ver como ele e a Luana estavam. Os encontrei quebrando nozes. Ambos, com um martelinho quebrando as cascas, recolhendo as amêndoas e colocando-as numa bacia. Julgo que tivesse já uns dois quilos de nozes limpas na bacia. O Chico me disse que ira vendê-las ainda hoje numa padaria da cidade. Sei que o meu amigo não tem medo de tempo feio e encara qualquer serviço, qualquer coisa, mas me dói o coração que ele esteja se sacrificando só com cobranças para videolocadoras, enfrentando chuva e vento. Até mesmo porque eu sei das suas capacidades, do seu carisma e do seu talento. A Luana adora mostrar a barriga e ninar o filho, que deve nascer no final de setembro. O Chico é todo orgulhoso do filho, imaginando como será o seu futuro. A gente brinca dizendo que vai ensinar a criança (se for menino) a correr pelos trilhos, pular vagão, jogar taco, brincar na areia, roubar milho e bergamota e se aventurar pelos matos. Ou seja, proporcionar a ele a infância que tivemos. Será o meu afilhado. E começo a compartilhar desses sentimentos todos com o Chico, que é o irmão que a vida me deu. Estou atento e tenho certeza de que a vida deles vai melhorar e o que eu puder fazer por eles, farei. São meus amigos, são pessoas que eu amo. E estou do lado deles do jeito que for. O Chico sempre sonhou que um dia derrubássemos o muro que separa as nossas casas e vivêssemos num pátio só. É um grande amigo, é um grande irmão, que encontrou no amor pela Luana o seu bem mais precioso. Já eu, há muito tempo não penso na palavra amor, a não ser coletivamente, no amor pela humanidade, pela coletividade. Já o amor individual? Tive alguns lampejos, mas não o sinto em sua plenitude. Há algumas dúvidas, há alguns receios. Talvez eu seja egoísta demais para querer amar alguém. Talvez eu prefira ficar sozinho. Talvez eu afaste quem eu ame. Talvez eu afaste quem me ame. Talvez seja como disse Oscar Wilde, "a gente sempre destrói aquilo que mais ama". Talvez eu não queira mais amar alguém. Talvez eu não queira perder alguém. Talvez, não existe o que perder porque ninguém pertence a ninguém, pois todos somos livres, porém unidos por amarras invisíveis que julgamos inquebrantáveis e imprescindíveis, mas que são extremamente tênues e fugazes. Talvez, uma série de talvez. Não entendo o porquê, na verdade, que as pessoas tem de se apegaram umas às outras. Isso é curioso em nossa natureza. É a "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade.

Falando em amor e desamor (e talvez por isso eu esteja falando em amor...) hoje eu a vi. O ex-amor da minha vida. Cruzamos na esquina da Obino Top. Brevemente conversamos. Ambos, sem tirar os óculos escuros. Ela, toda agasalhada. Eu, de camiseta. Engraçado, durante as vezes que conversamos, houve sempre uma certa distância, uma certa frieza (muito mais de minha parte, eu sei). Hoje, foi como antes (nada é como antes). Sorrimos e rimos. E perguntamos como estávamos. Perguntas tolas. E rimos. Eu ousei chamá-la de um antigo apelido (que eu a tinha colocado). Ela surpreendeu-se e sorriu. E nos despedimos. Eu não olhei para trás, pois via seu reflexo pela vitrine à minha frente, mas vi que ela olhou. E tudo isso durou mais ou menos uns eternos segundos. E cada um foi para o seu lado. Talvez, como duas pessoas que se viam pela primeira vez ou como duas pessoas que se amaram profundamente. E que não estavam mais juntas, mas eram capazes de sorrir e de se admirar mutuamente. Talvez seja um princípio de maturidade. Talvez, seja o ar invernal...

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns .Além de muito bem escrito é tão verdadeiro e sempre os seus sentimentos de humanidade superam e transformam as minhas emoções. Amamos .Ery e Rosane

Lígia Rosso disse...

...Márcio,
estou sem palavras. Li teu texto e chorei. Te entendo perfeitamente meu querido amigo. Também ando cansada de amar, assim, esse amor do qual do fala tão claramente em teu texto. Optei pelo amor mais universal, incondicional. Talvez esteja sendo egoísta também. Mas é o que posso fazer agora pra me proteger. Não quero mais sofrer por amor. E se for para amar alguém novamente, que seja pra valer e que os dois caminhem juntos com lealdade e paixão. Também ando só, como na canção dos Engenheiros, às vezes é melhor assim. Sobre o Chico e a Luana...puxa, quer exemplo maior de amor do que esses dois?
Tenha um domingo iluminado.