terça-feira, 22 de abril de 2008

Tempo de repensar


A menina Isabela, sem dúvida, era um anjinho. E, sem dúvida, não merecia morrer da forma cruel como morreu, como aliás, ninguém merece morrer daquela forma. Se eu lamento a morte dela? Sim. Muito. Como lamento a morte de qualquer criança, velho, negro, pobre, rico, italiano, japonês o que seja. Lamento qualquer morte violenta e não-natural. E, muitas vezes, até lamento a morte inevitável, de pessoas que estavam doentes e não tinham outra saída, senão dar adeus ao seu corpo físico no momento em que ele já não servia mais. Vejo que muitas emissoras de televisão, no Brasil inteiro, trataram o caso da morte da menina Isabella como se fosse um Big Brother, com câmeras espalhadas por todos os lados, ora cobrindo o apartamento em que o pai dela morava, ora cobrindo a delegacia, a casa dos pais dos avós, da mãe, a escola da menina. Enfim, sobrou alguma pessoa ligada a vida da menina que não fosse filmada, fotografada ou entrevistada? A televisão mostrou todo o seu aparato, capaz de criar uma superprodução em torno da menina, transformando as pessoas à sua volta num grande elenco, de uma novela tragicômica, explorando qualquer detalhe ao máximo, ultrapassando todos os limites da informação e explicitando os pormenores da vida particular de todos os envolvidos no caso. Do pai, da madrasta, da mãe, do avô, do pedreiro, da professora, da irmã. de todos. Há comunidades no Orkut dedicados Isabella, centenas de vídeos no Youtube. E não duvido que já não estejam comercializando camisetas, pôsteres e chaveiros. Todos choramos a morte Isabela. Todos nos compadecemos e lamentamos a morte daquela anjinho. Uma menina linda, o sonho de qualquer mãe ou de qualquer pai. E ela foi assassinada. Estúpidamente assassinada.

As pessoas peregrinavam, ora em frente a casa dela, ora em frente a delegacia, ora na escola. Por todos os lugares. Cada detalhe novo era aguardado com ansiedade, esmiuçado, discutido por todos. Nas filas dos supermercados, na padaria, na escola. E muito antes da Justiça definir qualquer coisa, o pai e a madrasta de Isabela já tinham sido julgados pelo público. Teve até enquetes na Internet. “Você acha que eles são culpados ou inocentes”. Bendita Internet que nos dá a possibilidade de brincar de juízes...

É uma história que seria cômica, se não fosse trágica. Eu sei que estou indo na contramão, abordando um assunto que muitos sequer ousam pensar em criticar. Mas o interesse excessivo no caso, traz a tona tais discussões. Não falar delas, é perder uma oportunidade preciosa de avaliar o nosso próprio comportamento. No filme “Tempo de Matar”, Samuel L. Jackson interpreta um pai que busca justiça pelas próprias mãos e assassina os matadores de sua filha pré-adolescente, que após a terem estuprado e matado, poderiam sair impunes, pois eram brancos. Assim, o pai descrente da justiça dos homens, os assassina para vingar a filha. E, acaba ele sendo preso e indo à julgamento. Entra em cena o advogado interpretado por Mattew McConaughey para defendê-lo. Mas, como defender um homem que é culpado por dois assassinatos? E como julgá-lo, em seu papel de pai, de vingar a honra de sua filha, violentada e assassinada bárbaramente? O advogado desce ao inferno, em seu papel de defensor, enfrentando a ira de uma cidade racista, num Estado racista, num país racista. Ao final, vendo o caso perdido, a sua vida destruída e o seu cliente prestes a ser preso para sempre, ele encara o tribunal do júri e pede que as pessoas fechem os olhos e imaginem tudo o que aconteceu com a menina, como se ela fosse filha de de um deles. Só que, ao final, o advogado sentencia. “Agora, imaginem que ela era branca”. É um soco no estômago do espectador, já que a menina assassinada era negra.

Faço esse adendo para trazer à tona o questionamento que uns poucos se fizeram: e se Isabella fosse negra? E se ele fosse pobre? Aliás, quantas meninas negras e pobres morrem diariamente nesse país, das mais variadas formas? Quantas meninas, meninos, velhos, homens, mulheres morrem das formas mais terríveis diariamente em nosso país? O que é preciso para que fiquemos compadecidos dessas mortes também? O que é preciso para que choremos cada uma das mortes que acontecem à nossa volta, em nossa cidade, região e Estado? Será que a dor é mais glamourosa quando acontece sob a mira de câmeras de televisão? Não digo que a gente não deva se compadecer com a dor da mãe de Isabella, não digo que a gente não deva sentir tristeza por ela ter morrido como morreu. Só acho que a gente deva sentir o mesmo por qualquer ser humano ou por qualquer criança. Pobre, branca, negra ou rica. Mesmo que a morte dela não seja dramatizada pela Rede Globo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Marcio,

Quanto ao caso da menina Isabella, acho que a única coisa positiva que podemos observar dessa história é que a situação nos reportou a analisar a agressão como algo inaceitável e incrivelmente perto de nós. Devemos lembrar que violência atrai violência e não estamos fora dessa energia. Todos nós fazemos parte do todo e se cada um não se comprometer em melhorar seu mundo interno, abrir a mente e mudar crenças negativas, assumindo a não-violência como um compromisso real, verdadeiramente estaremos confirmando que estamos perdidos.
Vamos aproiveitar esse epsódio embora muito triste para rever nossos conceitos, e tentar melhorar nosso eu para evitar sofrimentos como esse,em qualquer ,raça ou escala social...
um abraço...
uma amiga...