quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Sobre a importância do beija-flor


Nem todas as manhãs acordo sorrindo. Aliás, não raras vezes até acordo meio mal humorado. Geralmente é com o relógio. Ou porque acordei cedo demais e não posso voltar a dormir ou porque acordei tarde demais e significa que estou atrasado. E se estou atrasado é porque devo me aprontar mais que rapidamente para estar em algum lugar e cumprir algum compromisso. Quando a gente está com pressa, não é raro acontecer de não conseguir achar a outra meia que completa o par, a camisa preferida com que se pretendia sair estar suja ou a Corsan F.D.P. resolve efetuar algum conserto e falta água naquele dia e naquele horário. Geralmente aproveito desses pequenos contratempos para fazer piada comigo mesmo, enxergando a ironia da situação. O cômico naquilo que a gente considera trágico. "Era só o que faltava", é o máximo que reclamo, afinal, não adianta se desesperar por causa desse tipo de coisa.

O fato é que a gente se leva à sério demais. O nosso trabalho não anda se não estivermos lá. O que a gente faz é importante demais ou qualquer compromisso que tenhamos é absolutamente inadiável. (claro, a não ser que se esteja falando de uma operação no cérebro ou no coração e que, devido ao caos da nossa saúde, tenha sido marcada uns seis meses antes, após uma burocracia intensa. Aí, é algo inadiável mesmo). Em geral, os nossos compromissos é que nos guiam. Somos escravos do relógio e da agenda. Mesmo que sequer usemos um dos dois. Mesmo que solenemente tenhamos o mais profundo ódio de qualquer um dos dois. O problema é que o resto da humanidade usa e aí a coisa é que nem quando a esposa nos chama para almoçar na casa da sogra: nos obrigamos a ir juntos. Somos obrigados a dançar conforme a dança.

Dizem que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Talvez por isso, por sermos herdeiros da divindade é que nos consideramos tanto. Damos importância extrema ao que é notíciado na Televisão e nos estarrecemos com a queda do dólar. Trabalhamos para ganhar dinheiro e iss se torna o centro de tudo. Precisamos de dinheiro para viver, para gastar, para ter status. Compramos videogames para nossos filhos, mas pouco dedicamos um tempo para brincar junto com eles. O dinheiro é o centro de nosso universo. Por causa de um punhado de papel, nos sacrificamos. Por causa de um punhado de papel sujo abdicamos de tanta coisa. Uma babaquice cometida por algum político ou uma futilidade de algum artista logo se torna assunto nos botequins, praças ou cabarés.

A gente se julga sério demais, profissional demais, inteligente demais, insubstituível demais. E o fato é que estamos aqui de passagem. Meramente de passagem. A vida é, nada menos, que um piscar de olhos. Quando olhamos para a frente, parece que temos muuuuito ainda a viver. Mas quando olhamos para o passado - flash- saímos do pré-escolar e estamos aqui, na fila do INSS. Ou se casando. Ou jogando strip pôquer.

Não existe outro sentido para a vida que não seja viver. E viver significa saborear a vida com todos os sentidos. Tato, olfato, paladar, visão, audição e, principalmente, coração. E isso significa aquelas coisas mesmo que você tanto acha bonito ler sobre: passear na chuva, brincar com as crianças, se encantar com a natureza, observar as flores e etc e etc. E, não se engane, você que está lendo esse texto. Não é nada de auto-ajuda. Não quero que você leia esse texto e saia pensando, "pô, é isso mesmo". Nada disso. Estou escrevendo esse texto para mim mesmo ler e sentir. Para mim mesmo lembrar de algo que não posso esquecer.

Para mim mesmo lembrar que nada é mais importante do que amar a vida. E amando-a, buscar saboreá-la com a máxima satisfação, desprendendo-se de quaisquer amarras invisíveis ou visíveis e percebendo que o objetivo maior que tenho é compreender o mundo em que vivo e os sentimentos que carrego. Reconhecer a beleza que há em tudo e o tempo que perco, me considerando sério demais, profissional demais, inteligente demais, insubstituível demais. Nada disso sou. Sou tão importante para o universo quanto um beija-flor é. E o beija-flor ainda sai na vantagem por ser infinitamente mais belo.

Não tenho nesse post respostas para nada que não possa ser encontrado no Wikipédia. Não posso lhe dizer nenhuma verdade absoluta sobre absolutamente nada. Até porque a única Verdade (com Vê maíúsculo) só existe dentro de um único lugar e só pode ser compreendida por uma única pessoa:

Seu coração. Você!

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