segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Cigarras e formigas


Como não gosto de Carnaval e nem nunca gostei, esse de 2008 está sendo uma maravilha em Santiago. Nada de algazarra, nada de bebedeira, nada de acidentes, som alto, gritaria, nada, nada. A cidade está uma calmaria, sem blocos agitando dia e noite, gente dormindo nas calçadas, lixeiras servindo de churrasqueira, garrafas de cerveja por toda a parte. É, para mim, esse está sendo um bom Carnaval. Sei que esse é um sentimento até egoísta da minha parte. Afinal, eu não gosto, mas muita gente gosta dessas farras. O que me revolta, em relação ao Carnaval, é a facilidade com que as pessoas se organizam para esse tipo de evento. Festa é rapidinho de organizar. Bebida é super-fácil de comprar. Bagunça é super-fácil de fazer.No entanto, se buscarmos organizar uma frente para empreender alguma campanha comunitária, algo que seja para a solidariedade, para ajudar o próximo, ah, daí falta gente. Aí, faltam recursos. Aí, falta apoio, falta tudo. Para festa, isso tem. Para ajudar quem precisa, aí deixa-se para as autoridades ou para qualquer outra pessoa. Então, mesmo sabendo que sou um egoísta por achar a cidade fica muito melhor sem Carnaval, também sei que a minha crítica é válida. Poxa, não gosto de ver semelhantes meus vomitando pelas ruas, bêbados, fazendo fiasco. Quem gosta? Porque é tão mais fácil juntar dinheiro para beber todas as noites do que usar dessa disposição para a farra e ajudar quem precisa? Nesse aspecto, penso também no Natal e na Páscoa. Datas de profundo significado humano e místico, mas que superlota os mercados e as lojas porque as pessoas querem comer bem, querem comprar presentes etc. No entanto, a reflexão e a compreensão que poderia ser assimilada nesses períodos fica em décimo terceiro plano. Ou nem se pensa em nada. Que povinho somos nós, os brasileiros. Reclamamos do Governo, reclamos dos baixos salários, reclamamos da falta de saúde, reclamamos de tanta coisa. Mas é só o que sabemos fazer mesmo, reclamar. Ao invés de usarmos nossa energia para melhorarmos, damos o péssimo exemplo de sermos baderneiros, festeiros, bebedores de cerveja, campeões em acidentes de trânsito e morte nas estradas. É nisso o que somos melhores.Somos pentacampeões? Puá, grande porcaria. Temos as melhores novelas do mundo? Putz, grande droga. O nosso país poderia ser grandioso. O nosso povo poderia ser fantástico. No entanto, perdemos tempo com coisas inúteis. Valorizamos a futilidade, a imagem. Assistimos ao Big Brother e nos emocionamos com aquele festival de imbecilidades, porém, é claro que a imbecilidade maior é do telespectador que perde tempo com essas baboseiras. Ao povo brasileiro falta equilíbrio para discernir o bem do mal, o certo do errado. Falta equilíbrio para saber provar do mel e provar do fel. A vida não é nem doce e nem amarga é um ponto de equilíbrio entre os dois para que não seja arrepunenta e nem intragável.
Mais imbecil sou eu, escrevendo essas coisas todas. Se uma maioria prefere que as coisas sejam assim, é óbvio que nada vai mudar. Afinal, é a velha história da democracia, onde a maioria decide o que é melhor para todos. Sendo, assim, volto a recolher-me na insignificância de uma (cada vez mais) minoria que continua longe dos excessos do Carnaval, longe da imbecilidade da Televisão, longe da letargia dos que nada fazem para melhorar a sociedade em que vive. Aliás, não duvido que o escritor Jean de La Fontaine tenha escrito a fábula da "Cigarra e da Formiga", pensando justamente no povo brasileiro. Somos o melhor exemplo disso. Uma parte de nós é cigarra e outra parte é formiga. Muitos trabalham e muitos ficam festejando. Somos divididos em brasileiros e brasilianos. Essa é a nossa pátria "sem sapatos e sem meias, pátria minha tão pobrinha".

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