sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Justiça cega e corrupta (Ou porquê ainda pretendo cursar Letras na URI...)



Há uns poucos dias, confesso, estive bastante tentado a querer cursar Letras na URI. Na verdade, até uns poucos anos, a minha idéia era de fazer Direito. Mas essa idéia se esvaneceu com o tempo, afinal, de que adianta ter no mundo mais um advogado repetidor de leis???? Cheguei a dizer que não pretendia ser um repetidor, mas um revolucionador de leis. Ok, eu sei. Foi uma frase de efeito, mas com a intenção de passar a idéia que muito pouco tenho acreditado nas leis dos homens, plenamente moldável aos seus bel interesses. Creio muito mais na Lei Divina. A deusa Têmis, que simboliza a justiça, nunca foi tão bem representada quanto na capa do disco "An Justice for All", do Metallica, onde ela aparece com sua displicente face vendada (cega) e com as balanças cheias de dinheiro (corrupta). Nota-se na arte também algumas amarras em volta do pescoço e braços e cintura. Trata-se de cordas puxando a deusa, no intuito de derrubá-la. Observa-se também algumas rachaduras no corpo da deusa, prestes a ruir com aquele ato de rebeldia popular contra o símbolo de um sistema corroído. Então, de que adianta querer ser um advogado e se submeter às leis dos homens, quase sempre injustas?


Mas, bem, as razões de que querer ir para outro rumo e me interessar por Letras são fáceis de nominar. Uma razão é Rosane Vontobel, essa guerreira da educação, professora de vocação, inspiradora e matriarca de nossa literatura regional. Mãe de meu grande amigo Rodrigo e esposa do seu Eri, um homem bastante honrado. Rosane é uma amiga que ganhei nesses anos e pela qual tenho o máximo respeito e admiração. Sempre me incentivou a buscar o curso de Letras.


Agora, a outra razão atende pelo nome de Cíntia Toledo. Sem dúvida, uma grande revelação da educação regional e uma das mais promissoras aquisições da URI em muitos anos. Uma professora jovem, idealista e intensamente sintonizada com seus alunos. Durante várias conversas que tivemos, Cíntia me relatou sobre a paixão de educar e sobre os descobrimentos em sala de aula, os quais foram transformadores na vida de muitos alunos. A paixão com que falava de seu trabalho e o extremo carinho com o qual se referia à URI me tocaram.


Além de quê, não foram poucas as vezes em que cruzei pela professora Cíntia pelas ruas da cidade, defendendo o projeto "Santiago do Boqueirão, seus Poetas quem são", desenvolvido pelo curso de Letras da URI no intuito de destacar a Terra dos Poetas. Um projeto pelo qual se entregou de corpo e alma, assim como cada um dos envolvidos: Rosane Vontobel, Cristieli Lanes, Rodrigo Kickow e outros.


Foi aí que decidi. Em 2009, minha meta seria iniciar-me no curso de Letras da URI, especialmente motivado pela professora Cíntia. E além disso, comecei a conversar sobre essa idéia com um grande amigo, o Chico, que também se interessou pela idéia.


Lamentávelmente, soube nessa semana que a professora Cíntia Toledo, que tanto defendia apaixonamente a sua URI teria sido afastada da universidade, sem maiores explicações. Num instante, ministrava aula para os seus alunos. No outro, era chamada a assinar papéis de sua rescisão. E isso sem qualquer conversa anterior com o administrador da universidade, Clóvis Brum. Boatos sobre os motivos que levaram Clóvis a essa atitude extrema são inúmeros. E todos os que ouvi envolvem fofocagens de pessoas Mara-vilhosas, intrigas, vaidades, enfim.


Antes de prosseguir com esse texto, quero dizer o seguinte. Admiro imensamente a URI. Acredito que a história de nossa cidade e região podem se dividir em Antes e Depois da URI. É inegável a contribuição da universidade para o desenvolvimento regional. A URI tem sido responsável pela elevação de nosso nível educacional, pela formação de profissionais, pela movimentação do comércio etc e dezenas de etcs. E, se é bom para Santiago, é bom para mim. A despeito de não haver ainda estudado na URI, tenho centenas de amigos que estudam ou estudaram e sendo assim, posso dizer que amo a URI. Não é a toa que na campanha publicitária da URI em 2005, produzi as fotos para a agência que coordenou a campanha. As fotos que produzi foram utilizadas em propagandas de jornais pelo Estado, outdoors etc. Por esse trabalho, nada cobrei. Afinal, era para a nossa URI. E, para mim, era uma honra em contribuir com a universidade.


Fiz esse parêntese apenas para salientar o quanto admiro a URI. E, por admirar a URI enquanto instituição, ouso dizer que separo o que significa a instituição do que significa a sua Direção, nesse caso, representada por seu diretor Clóvis Fernando Ben Brum. Dizem que quem está de fora ou avalia melhor ou tem uma impressão incompleta das coisas. Bem, no decorrer da gestão de Clóvis Brum se ouve falar que a URI diminuiu pela metade o número de alunos; se ouve falar que os preços cobrados pela instituição são altíssimos; se ouve falar que há um elevado número de parentes de Clóvis, Ayda e cia LTDA trabalhando na universidade, cuja denominação é de ser comunitária. Além disso, se ouve falar que seguidamente bolsas de estudo são concedidas a quem pode - e bem- pagar (em detrimento de quem não pode. Ou seja, a clássica inversão de valores) ou que apadrinhados políticos tem todo o espaço que desejam. Também se ouve falar que houve casos de alunos que teriam feito abaixo-assinado para que a direção retirasse um determinado professor das salas de aula, por compreenderem que este pouco tinha a contribuir com o ambiente universitário. E que tal ato digno e de direito teria sido em vão.

Se tais boatos são ou não verdade, talvez eu jamais venha a saber. Talvez sejam apenas isso, boatos. Ou o príncipio do fio de um enrolado novelo. Não sei de nada disso.


Só o que sei é o quanto admiro a professora Cíntia Toledo. E o quanto a URI vai perder com a sua saída. E quando digo URI, não digo a direção, digo os alunos. Afinal, sem eles de que adiantaria existirem salas de aula, corredores ou o próprio salário dos diretores. Sem os acadêmicos, a instituição perde a razão de ser. E, creio, no momento em que um grupo de alunos reivindica pela permanência da professora Cíntia Toledo e Clóvis Brum faz que não vê, é algo que realmente preocupa.


O que precisaria para que Cíntia permanecesse na universidade? Abaixo-assinado de toda a comunidade acadêmica?? Tenho certeza de que isso não seria difícil de conseguir e até não duvido que alguns acadêmicos já não estejam providenciando isso. Mas seria suficiente? Será que o fato dela ter sido afastada não estaria na falta de algum padrinho ou mesmo um sobrenome desses tradicionais que temos por aí e que pessoas que chegam a um Poder adoram puxar o saco?? O que seria necessário para que se fizesse justiça, que os alunos fossem ouvidos em suas reivindicações legítimas e que Cíntia Toledo recebesse um pedido de desculpas homéricos por esse crime contra a comunidade acadêmica, de privá-los desta grande educadora? Não quero crer que uma pessoa inteligente como Clóvis seja desses que se deixe levar por conversas de comadre. Não quero crer que seja guiado por vaidades. Não quero crer em revanchismos, em disputas, enfim. Não quero crer em nada disso.


Por isso é que o Direito e a própria Justiça dos homens se torna tão porca para mim. Ela serve muito mais a quem está no topo do poder, ou no topo da cadeia alimentar, do que aqueles que ajudam a sustentar os pilares de uma instituição através de seu trabalho, de sua dedicação, de seu conhecimento.
Mas, enfim. A despeito de tudo isso, quero dizer que desisti de ser um acadêmico de Direito. Tenho o máximo respeito por quem cursa e espero que não se desiludam jamais, como eu me desiludi, perdendo o interesse de seguir nesse caminho, desacreditando da justiça dos homens. Quero, sim, cursar Letras. Quero, sim, me encantar com aquele universo da gramática e da literatura, tão defendido pela professora Rosane e pela Cíntia.

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"An Justice for All" significa "Uma Justiça para Todos". Chegará um tempo em que a justiça não mais use vendas, a fim de não ser chamada de cega? Afinal, a desculpa de que a venda serve para não reconhecer nem diferençar feições, já não soa convincente. Pois bem, por melhor vendada que esteja, ela ainda é capaz de sentir o cheiro do vil metal ou saborear os mais requintados pratos nos ricos jantares sociais. A balança, me parece, está mais desequilibrada do que nunca.

3 comentários:

César Braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
César Braga disse...

Se a Justiça hoje em dia já não é tão confiável com antigamente, ou até mesmo nunca foi, por fatos como esse sempre existir de prevalever o sobrenome de uma pessoa ao invés de seu caráter.

Caráter esse que pessoas mesquinhas que vimos Mara-vilhadas com seu sobrenome ou grau de parentesco pensam que podem ser algo por causa do que seu antecessor foi.


Mas, digo a essas pessoas que o poder da palavra ainda tem um forte impacto que causa como se fosse uma lâmina e com certeza, meu amigo Márcio, o EGO dessas pessoas mesquinhas que pensam que são alguma coisa por simplesmente nascerem com um sobrenome foram escoriados com essa lâmina ardua que é a verdade e através da tão ironica, Letras...

Forte abraço meu amigo e conte comigo.

Excelente seu texto. Parabéns por usar essa lâmina tão bem e pelo bem.

Anônimo disse...

Sou um acadêmico do Curso de Letras e confesso que não sou um leitor assíduo dos teus textos, mas a professora CÍNTIA TOLEDO deixou o endereço eletrônico no meu orkut e eu, pressentindo o assunto, cliquei e li.

Em primeiro lugar, quero dizer que me identifiquei muito com tuas palavras, pois também pensava em cursar Direito, porém acabei nas Letras por motivos parecidos com os teus.

Em segundo, mas mais importante que o parágrafo anterior, é a questão da demissão inesplicável, ou com explicações tergiversativas, da professora CÍNTIA TOLEDO. Além de professora do curso de Letras, ela é uma ótima amiga, diferente de muitos professores e diretores que "se acahm autoridades" e não devem ter nenhuma expressão de afeto com os alunos. Ao contrário de alguns, CÍNTIA TOLEDO está, ou estava, na URI, porque tem, ou tinha, plenas condições de ministrar aulas em um curso de nível superior, fazia seu trabalho com gosto e eficiência, ou seja, não entrou lá por sobrenome famoso ou apadrinhamento político.

Outro fato importantíssimo, é a sua paixão pelo curso e pelos projetos do cruso; principalmente "Santiago do boqueirão seus poetas quem são?". Não foram poucas as vezes que vi a professora CINTIA TOLEDO e a professora ROSANE VONTOBEL (outra amiga do peito) trabalhando incanssávelmente para que os nomes e os escriotos dos poetas e escritores da nossa terra sejam ouvidos, lidos e reconhecidos por todos. Isso sem contar que a direção da universidade pouco, ou melhor, quase nada, auxiliou para a realização desse projeto e de outros que o curso de Letras organiza. Bem, o que quero dizer é que para o curso de Letras tudo é difícil de conseguir, tudo tem que ser batalhado, pois a direção da URI não dá a devida importância para o curso que é o mais antigo da universidade.

O meu comentário já está deversas longo, mas acho que o recado está dado. Concordo plenamente com tuas palavras, Márcio. A justiça está muito porca mesmo. Ah! Eu prometo que vou ler mais os teus textos.

Eduardo Brum de Vargas, acadêmico do VII Semestre do curso de Letras.