segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Deuses de lama


Somos deuses. Capazes de criar sociedades, organizar estruturar, inventar, governar, imperar, prosperar, curar, produzir, criar arte, comunicar, escrever poemas, cantar.Mas também somos demônios. Destruímos, estupramos, maltratamos, exterminamos. A despeito de sermos deuses ou demônios, diante do universo somos menos que insetos, mera poeira cósmica, diante da infinita criação, incapazes de compreender nossa própria finitude. E seguimos, acreditando em nossas ilusões. E seguimos, criando altares para a nossa burra inteligência. E seguimos, exaltando nossas insignificantes conquistas. E seguimos, acreditando que o fato de subjulgar alguém nos coloca acima de todo o resto, nos julgando especiais diante da humanidade. E assim, a vida segue. E ela segue. Até que um dia ela acaba.

Um rei não é diferente da plebe. O cientista não é diferente do caipira. O religioso não é diferente do ateu. A modelo não é diferente da caiçara. A vida passa, a morte chega. E, apesar de termos na morte a única certeza, nos agarramos à vida com todas as forças. No velório, choramos não aceitando a despedida. "Como pode? Tão jovem". morte não escolhe idade, não escolhe condição social e tampouco poupa quem tem mais inteligência. Não há importantes, não há escolhidos. Só o que fica é a lembrança. O resto se apaga. Pouco importa o choro, pouco importam as homenagens. Tampouco importa a santidade.

Pouco importam as aquisições. Pouco importa a informação. Nada importa. Tudo brilha por um instante, por um mísero segundo. Homens, animais e estrelas, tudo cumpre um propósito no universo. E, humanos que somos, seguimos desconhecendo esse propósito e nos entretendo com imbecilidades.

Criamos mentiras para ignorar a verdade. Vivemos ilusões de grandeza. Nos glorificamos, criando altares para o nosso ego. Colocamos fotos nas paredes, colecionamos diplomas, compramos sapatos, colocamos película escura no carro, precisamos do novo MP5, nosso cabelo só ficará mais sedoso com o novo shampoo, nosso dia só começa depois de ler o horóscopo, nosso dia só será completo com o capítulo da novela, nosso vizinho é um imbecil que ouve a música que nos irrita, o resto da sociedade age errado, a política é uma droga, os partidos políticos reúnem grupos de interesseiros, porque ninguém ouve os nossos conselhos sobre a organização planetária, sobre o que é certo ou errado.

E seguimos cegos de todo o resto, do que realmente importa, que é a busca pelo conhecimento. Que é busca pela humanidade, nosso elo perdido com o divino. E a única verdade do universo segue incompreendida: o amor. Nunca compreendido em sua totalidade, o amor é uma força infinita que deveria envolver todos os seres viventes e ser o único norte para guiar nossos passos. No entanto, só amamos quem nos ama. Ou nem assim. E que se dane todo o resto. Somos deuses, mas preferimos chafurdar na lama.

2 comentários:

Anônimo disse...

"Criamos mentiras para ignorar a verdade"...parabéns, meu amigo, você foi muito feliz em colocar tanto de nós em seu texto. Muito bom mesmo! Até breve.

Hélio Diógenes

Anônimo disse...

"Criamos mentiras para ignorar a verdade"...parabéns, meu amigo, você foi muito feliz em colocar tanto de nós em seu texto. Muito bom mesmo! Até breve.

Hélio Diógenes