sábado, 19 de janeiro de 2008

Canção de Ninar I


Era uma grande casa de madeira, de dois andares, com enormes janelas. Através delas via-se a silhueta das árvores lá fora à luz da lua cheia. Quando o vento soprava os galhos balançavam, dando um aspecto ainda mais fantasmagórico para as árvores, que pareciam sombras tenebrosas a rondar aquele casarão. Vez por outra, uma coruja assentava-se sob os grossos troncos e emitia aqueles seus cantos pavorosos.
Ur-uhhhhhhhh. Ur-uhhhhhhhhhhhhhhh!
Era quase meia-noite. Por essa hora, a lua já estava alta fazendo com que a claridade dela alcançasse o berço daquela menina, de cinco anos. Ela estava sozinha em casa. Até essa hora da noite, nem sinal de seus pais. E ela não conseguia dormir de jeito nenhum. Mesmo porque, ela havia dormido quase que a tarde inteira, enquanto seus pais ainda estavam em casa. No entanto, por volta das 20h, ela acordou. E ninguém mais estava em casa. A não ser a criança. Sozinha.

E o que é pior: no escuro. Durante horas ela ensaiou levantar para acender o interruptor e, pelo menos, sentir-se um pouco mais segura. Mas ela tinha medo. E se, ao levantar, surgisse uma mão debaixo da cama que lhe pegasse pelo pé e a arrastasse para algum lugar pavoroso? Ou ainda, que a pouco centímetros de tocar no interruptor algo puxasse a sua mão e, dando gritos horrendos, lhe engolisse numa só bocada ou um pedaço por vez? Ou ainda, que nada disso acontecesse, mas que ao clicar no interruptor de luz descobrisse que nenhuma lâmpada se acenderia. Que a luz tivesse faltado. Ou pior: tivesse sido desligada. Nesse caso, por quem? Com que intuito?

Ela não sabia. Era uma criança de cinco anos, sozinha em casa. Numa casa que, aliás, tinha um daqueles relógios gongo. A meia-noite ouviu soar as badaladas.
- Blein. Blein. Blein. Blein. Blein. Blein. Bleeeeeeeeeeeeinnnnnnnnnnnnn -
A partir daí, tudo piorou. As silhuetas das árvores tornavam-se mais assustadoras. Os galhos batiam nas janelas e arranhavam o vidro. A pouca claridade que refletia da lua, tornava-se ofuscada pela sombra de algumas nuvens. A coruja cantava pavorosamente (e dava a impressão de que era cada vez mais perto). E ainda parecia ouvir ruídos por toda a casa de madeira. E ela se estalava toda. Se já fosse crescida, a menina pensaria que tais estalos eram normais, já que a madeira recebia a luz solar durante o dia e, à noite voltaria a se contrair. Daí, os estalos. Mas como uma criança de cinco anos iria pensar nisso?

É óbvio que, para ela, aqueles barulhos se tratavam de pisadas pelo assoalho e cada vez mais perto do quarto. Será que a porta estava trancada? O negócio era continuar rezando para o anjo da guarda, enquanto se enfiava para debaixo das cobertas, prendendo cada uma das pontas do cobertor com o corpo. Ali, ela estava protegida.

Poucos segundos depois, agora ela tinha certeza, ouvia passos. Era claríssimo. Eram passos pelo corredor. De repente, a porta do seu quarto se abriu, fazendo um barulho de gelar a espinha.
- NNNNnheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeec -
E escancarou-se. E vieram os passos. Era passos que se arrastavam. Eram passos que se arrastavam e ao mesmo tempo arranhavam. A criança parou de respirar para ouvir melhor. Mas o que ouviu em seguida foi uma canção:

- NaaaAAAnnNa, nenééÉÉém. QueeEEe a CuuUUuuUuca vem PegAr. PapAi fOi prá rOOOoooÇa. MaaAAAmãeeEEEe já vai chegaAAAaaaRRrrrRRRrr......

A criança, enfim, respirou aliviada. Era verdade. Agora lembrava. Realmente, o papai tinha saído cedo para ir para a roça. Só voltaria no dia seguinte. E a mamãe, bem, ela já estava para chegar. Coisa boa. Mas..., péra lá. Se o papai foi pra roça e a mamãe não estava....

... então, quem é que tinha cantado aquela música?

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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