sábado, 19 de janeiro de 2008

Canção de Ninar II



O bebê detestava a maioria dos adultos. Se tivesse uma boa mira e pleno domínio de sua coordenação motora (ele estava trabalhando nisso) acertaria a mamadeira ou uma fralda cheia na testa daqueles bobos que vinham lhe atormentar em volta do berço.

- Ai, nenê. Bilú, bilú, bilúúúúúúúú. Blu, blu, blu!

(Que linguagem é essa? Coisa de retardado )

- Ui, que guzu, guzu, guzuzu. Que coisa mais guzuzinha!

(Ei, meu. Tinha que filmar essas caras epiléticas e pôr no YouTube)

- Cadê o nenê?? Cadê o nenê??? Cadê o nenêêêêÊ???

(Valia a pena responder?)

Putz, que gente idiota. O pior é que o bebê sabia que seu destino era se tornar um deles. Olha só onde ele foi se enfiar. Já tinha certeza que nenhum daqueles tontos seria capaz de sanar as suas dúvidas. Qual era o sentido da vida? O que aconteceu à Atlântida? Quem construiu as pirâmides? Existe vida lá fora?

Bem, a essa altura já sabia que teria de descobrir sozinho. A não ser que perguntasse coisas mais simples, como a razão do Tata (assim ele se apresentava) ter aqueles pêlos bobos debaixo do nariz. Ou porque o colinho da Mã era tão gostoso. Sem falar naquele líquido saboroso que ela lhe oferecia tão aconchegadamente. Mas, tava aí outra dúvida. Por que é que o Tata não tinha tetos? Vai saber...

O problema é que toda a vez que o bebê tirava um tempo para refletir, nos intervalos entre uma soneca e outra, vinha algum daqueles retardados lhe importunar.

- Ai, o nenê, o nenêêê. O nenezinhoooo. Que cooOOOoooisa mais tchutchuquinhazinhazinhaaaa.

(Dai-me paciência)

Não tinha jeito. O negócio era usar daquela arma que ele tanto sabia manejar com eficiência: o choro. Ele já sabia que bastava abrir o berreiro para espantar os chatos. Claro, alguns ainda tentavam remediar a situação.

- Pronto, pronto, pronto!

Mas ele só se acalmava na presença do Tata ou da Mã. Isso era inegociável. Fora, claro, alguma daquelas titias bonitas e de sorriso acalentador. Um dia o Tata cantou uma história que deixou o bebê intrigado.

- Boi, boi, boi. Boi da cara preta. Pega essa criança que tem medo de careta.

Taí uma coisa que ele nunca tinha ouvido falar. Que boi era esse? Aliás, o que era um boi? E quem disse que o bebê tinha medo de careta? Ele simplesmente as desprezava.
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Certo dia, o bebê foi com o Tata e a Mã para a fazenda dos vovôs, que eram como outros Tatas e Mãs. Só que de cabelos brancos e carinhas engraçadas. Não tinham dentes, igual a ele.

Só sei que eles jogavam cartas, despreocupados do pequeno, que dormia em seu bercinho, colocado à sombra de uma árvore. O bebê acordou sentindo alguma presença em volta do berço. Só podia ser um daqueles chatos. Mas,quando abriu os olhos enxergou ele. O boi da cara preta. Ele lhe encarava com seus grandes olhos e enormes chifres. Ele lhe encarava, mas não emitia nenhuma daquelas frases de retardado. Só fazia alguns barulhos ameçadores com o nariz, enquanto raspava a pata no chão. O bebê teve vontade de abrir o berreiro, mas ficou receoso.

Foi a essa altura que os adultos se deram conta. A porteira da mangueira estava escancarada e o boi de cara preta estava ao lado do pequeno.

O bebê só lembra que ouviu o grito apavorado da Mã...

... E o berro do boi.

Um comentário:

tainã disse...

Vou te dar uma chance... MWHAHAHA

Não esquece da Mary e seu cordeirinho!!!


=*