domingo, 30 de setembro de 2007

o abismo que nos olha...

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Domingo, passado das 23h. Hoje foi um dia como qualquer outro, um domingo qualquer. Porém, creio que tenha sido um dia, de certa forma, importante. O qual me permitiu algumas reflexões acerca sobre a vida, sobre a sociedade, sobre a vida e sobre a morte. Este final de semana foi mesmo atípico. No último sábado, caminhamos durante horas pelo asfalto, pelo mato, pelos trilhos. Fomos até a cachoeira onde costumava tomar banho junto com grupos de amigos. A cachoeira me traz algumas lembranças. Quase todos que tomaram banho naquela água se foram, de alguma forma. Apenas eu fiquei. Eu e o Chico. É, acho que sempre seremos nós. Uma pessoa que gosto muito esteve doente, quis ligar para ela e não o fiz. Bebi vinho nesse findi, como diz a Camila. É bom para curtir a depressão que se avizinha, como nuvens que prenunciam um grande temporal. Que bom que esse temporal lave a minha alma e desmanche os ídolos de pés de barro, cujo aperto de mãos acaba por enlamear quem as toque. Não queira interpretar o que escrevo. Não perca tempo. Literatura descartável. Palavras ao vento. Besteiras, cartas-testamento virtuais. Disse Andy Warhol que, no futuro, cada um teria os seus quinze minutos de fama. Abdico dos meus. Não busco fama, busco igualdade. Mas, diga onde conseguí-la, num mundo tão desigual. Depois que o trem está descarrilado, como colocá-lo de volta nos trilhos? Poeira cósmica é o que sou e que somos todos. De que adianta julgar, de que adianta condenar, de que adianta não seguir o mesmo caminho? Somos todos julgados juntos. A humanidade já se foi. Sim, foi julgada no final da década de 50 e esses tempos em que vivemos são apenas os últimos segundos do relógio fatal. Terminou para os atlantes, terminará também para os humanos. "Quando você olha para o abismo, o abismo olha para você", disse Niestzche. E o abismo nos encara há muito tempo. Estou decepcionado com uma série de coisas e sinto-me prejudicado por uma série de coisas. Texto sem nexo, blog imbecil. De que vale a pena trabalhar e acreditar num ideal, se os ideais hoje são moeda de troca? Bem disse Galadriel que "o coração dos homens se corrompe muito facilmente". Sou apenas mais um idiota que pensa que o mundo pode ser mudado e que "acredita nas flores, vencendo os canhões". Sim, eu sei que os cortadores de pedra usam de seus poderes ocultos para atingir algumas pessoas. Eu os conheço e sei que são inimigos em seus 33 graus, principalmente de quem não aceita seus cabrestos. Não consegui assistir aos capítulos da terceira temporada de Lost. Pelo menos, não ainda, enquanto Heroes está tão forte na minha cabeça. "Diga-me com quem andas e te direi quem tu és", frase que cabe uma reflexão bastante profunda. Cristo era "o cara". Quem sou e o que penso? E se penso, logo, existo? E se existo, insisto ou desisto? E será que o amor existe? Será que igualdade existe? Ou a lei do mais forte ainda não tenha sido revogada, assim como a lei da clava? E será que Deus existe? "Não tentarás o senhor teu Deus", sim, eu sei. Mas e o amor? Apenas uma ilusão para o a seleção natural e, posteriormente, o acasalamento com intuito de preservação da espécie. É isso? No fundo, apenas animais vestindo smokings? Disfarçando nossos instintos, usando de talheres para comer algo que comíamos usando as mãos? Tira-se um animal do meio da selva, mas tira-se a selva de dentro do animal? É o que somos? Ainda é a lei do mais forte? Vale a pena criticar algo ou alguém? Para quê? De que serve? O que se procura construir? O que se quer mostrar? Ocorre que algo mudou dentro de mim, ouço um clique interno e algo se ativou ou reativou. Não sei. "Eu só sei que nada sei", diria Platão. "E quem sabe, não fala e não diz", disse Raul Seixas. Não sei se continuo a escrever nesse blog, ou não sei se sigo essa linha. "Meus heróis morreram de overdose e meus inimigos estão no poder". Mas quem foram meus heróis e quem são meus inimigos? Aqueles que estão longe os que estão próximos. Pensava que compreendia o mundo, mas não compreendo. Não se pode confiar no ser humano. Por um pedaço de antílope, leva-se uma paulada na cabeça ou nas costas. "O demônio existe, mas faz de tudo para parecer que não", disse Paulo Coelho. Hoje caminhei pela praça. Geralmente, levo apenas um minuto para atravessá-la. Se me perguntassem, o que eu teria visto, diria: nada. Mas hoje cruzei a praça. Demorei quase meia hora. Se me perguntaram o que vi diria: vida, passarinhos, árvores anciãs, outras mais novas, galhos, sombra, formiga, banco, calçada, monumentos etc. Muita coisa. E cada vez que eu que olhar, algo se descobre, algo se desdobra. Algo dessa, ou de outra dimensão. Em pedaços, sinto-me em pedaços. Sinto que parti. Em pedaços.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A Teoria do Risoto

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Aquela prática que os deputados federais possuem em anunciar verbas, destinando para tal ou qual município e que venha a ser aplicado em tal ou qual área, é algo comum na política de norte a sul do Brasil. Agora, você jamais irá ver um deputado federal à frente de uma grande emissora de TV, como a Rede Globo, a RBS, o SBT, ou através de um jornal como a Zero Hora ou o Correio do Povo anunciando que "estou enviando, da minha cota, uma verba para o fulano aplicar na cidade dele". E sabe por que isso não acontece? Porque o parlamentar que ousasse aplicar esse discurso seria ridicularizado por personalizar algo que não lhe pertence, abusando do provincianismo.

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Dizer que "estou enviando dinheiro da minha cota para o fulano investir nisso ou naquilo" é debochar da inteligência de um povo, chamar os eleitores de burros, as cidades de currais eleitoreiros, e é se apropriar de verba pública a qual não lhe pertence. Pertence a todos.
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Imagine, num microuniverso: uma determinada diretoria de alguma igreja, em algum bairro de Santiago, se reúne e decide que a igreja precisa ser reformada, novos bancos devem ser comprados, o telhado precisa ser trocado, enfim. Surge uma sugestão. "Quem sabe a gente faz um risoto?". Ótima idéia. E aí, aquele grupo começa a se organizar, uns doam o arroz, outros conseguem a galinha, os temperos, as panelas. A próxima etapa é confeccionar os cartões e vendê-los. Pronto. Agora, no dia marcado, está lá todo o pessoal, produzindo o risoto, servindo as pessoas, sendo prestativos. Foram vendidos mais de 500 cartões de risoto ao todo. Deu um bom dinheiro.

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Aí, com o dinheiro em caixa, todo mundo se põe a fazer as reformas propostas. Compra-se o material e consegue-se a mão-de-obra do próprio bairro. Alguns, que são frequentadores da igreja, se oferecem para ajudar na reforma. Em pouco tempo, fica tudo muito bonito. Uma nova igreja e todo mundo se orgulha do que foi feito.
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Chegamos, então, num belo dia, o presidente daquela igreja, naquela simples vila, durante a sua prestação de contas de seu mandato diz: "Eu fiz a reforma da igreja. Eu trabalhei. Eu fiz o risoto". Imagine você, que participou dessa diretoria, que contribuiu com a cebola ou com o queijo ralado, como iria se sentir??
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Apliquemos agora esse raciocínio, que chamaremos de "A Teoria do Risoto", ao caso das emendas dos deputados. O blog do Júlio Prates acendeu a pólvora e os demais veículos de imprensa de Santiago, a Rádio Santiago e os jornais Expresso Ilustrado e Folha Regional, explodiram a informação: o deputado federal Luis Carlos Heinze, do PP, disse que mandou uma verba de R$ 3 milhões e tanto para Santiago.
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Em outro extremo, do mesmo partido, o deputado federal Vilson Covatti diz que a verba não é do Heinze, mas sim, dele. Ele é quem mandará a verba para Santiago. E tem como provar, nem que seja preciso trazer o ministro Márcio Fortes para Santiago.
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Não cheguemos a esse ponto, deputado Covatti. O dia em que um ministro venha a Santiago para esclarecer a respeito de um jogo de belezas entre dois parlamentares, sinceramente, eu rasgo a Constituição Brasileira que, em seu parágrafo único diz que "Todo poder emana do Povo". E se todo o poder emana do povo, verba alguma saiu dos bolsos dos senhores Luiz Carlos Heinze ou Vilson Covatti. Saiu do bolso de cada cidadão brasileiro. Do mais rico ao mais pobre.
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Lamentávelmente, tais deputados querem tirar para bobo o povo de Santiago, eu, você e o pessoal daquela igreja fictícia. Querem ser os "salvadores da pátria". Querem ganhar créditos às nossas custas. Querem ser os donos do risoto. Quando, na verdade, todos os cidadãos pagam os seus tributos, que são revertidos naquilo que chamamos de "dinheiro público". E esses cidadãos, Luis Carlos Heinze e Vilson Covatti estão querendo faturar em cima da soma.
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Descobriram uma nova forma de roubar o dinheiro público. Não se rouba o dinheiro em si, mas rouba-se a "idéia" do dinheiro. Todos nós colaboramos com o arroz, a galinha, o tempero e as panelas, mas os deputados Heinze e Covatti, e todos que usam dessa sistemática, se declaram os idealizadores do risoto. O Heinze já conhece os meandros de Brasília, já está habituado a esse País à parte dentro do nosso País. É uma nação que só entende a linguagem do cifrão. E o deputado Covatti, que recém entrou, decepciona o seu eleitorado praticando esse discurso velho e desbotado. Assim, ele apenas mostra que acompanha a sinfonia dos miados. Se bem que vindo do Covatti, não poderia ser diferente, já que assim como outros deputados albergueiros, muito voto ele angariou em cima da miserabilidade.
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Mas, todavia, não duvido da capacidade dos parlamentares criticados nesse post. Eles se elegeram e conquistaram a legitimidade para fazer o seu trabalho. Entre erros e acertos, espero que tenham muito mais acertos. Nesse caso, manifestaram um erro, só que um erro que influencia a cabeça das pessoas. Isso é fazer política com o dinheiro público. E é com esse tipo de política que os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Não é a toda que existe aí um segmento que critica de forma vêemente a cobrança da CPMF e a existência de programas como o Bolsa-Família, o Bolsa-Escola e outros tantos. Necessitamos todos de um despertar de uaa consciência cidadã e participativa, necessitamos todos perceber que a política é um instrumento de transformação importante e digno, que a política é a ciência do bem coletivo e que todos temos responsabilidades sobre ela. Dizer que política é algo sujo, que não queremos saber dela, é o mesmo que dizer "não me interessa a minha rua, a pracinha do meu bairro ou a merenda do colégio". Abdicar do nosso direito de cobrar, de exercer nosso papel como cidadãos, abre espaço para os maus políticos, que faturam individualmente em cima do que é público. A política influencia nossa vida e a vida das pessoas que amamos e, por isso, necessitamos compreendê-la e praticá-la. Abrir os nossos olhos e compreender o que é certo e o que é errado. Precisamos, sim, pensar. E, afinal de contas, quem pode ser capaz de pensar com a barriga vazia? Na próxima vez em que você adquirir um cartão de risoto, da igreja de seu bairro, pense bem sobre tudo isso...
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PS: Não quero ser mal agradecido. Como santiaguense, agradeço ao Governo Federal, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em que eu votei, pelo envio da verba de mais de 3 milhões para Santiago. Sem dúvida, possibilitará melhorias para o noss povo. E mando um abraço também aos deputados Luiz Carlos Heinze e Vilson Covatti, meros divulgadores da notícia da referida verba. Mas sugiro ao Presidente Lula que, para não dar briga entre os pombos-correios, da próxima vez, mande a notícia por telegrama, sucintamente:


"Companheiros. Nosso governo está enviando três milhões para Santiago. Apliquem em habitação e saneamento. PT Saudações".

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Filosofia do dia:

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Salve a líder de torcida. Salve o mundo!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Charge do Santiago

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O genial chargista Neltair Rebés Abreu, o Santiago, mostra mais uma vez a sua genialidade e prossegue a luta contra as papeleiras, como a Stora Enzo. Na edição desta segunda-feira, 24, do Jornal do Comércio, Santiago publicou a charge acima.

domingo, 23 de setembro de 2007

Muito Além de Cidadão Kane-Parte IV- A história secreta e sórdida da Rede Globo

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Muito Além de Cidadão Kane- Parte III- A história secreta e sórdida da Rede Globo

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Muito Além de Cidadão Kane Parte II- A história secreta e sórdida da Rede Globo

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Muito além de Cidadão Kane Parte I

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Assisti ontem ao documentário chamado "Muito Além de Cidadão Kane", produzido pela BBC de Londres e que fala sobre a criação da Rede Globo, bem como o monopólio das comunicações que a emissora detém. Uma produção que foi proibida de ser difundida no Brasil mas que, no entanto, obteve exibição em diversos outros países. O documentário mostra as relações escusas da emissora com o Governo e o tipo de mídia a que se propõe, onde esconde os fatos reais e esconde a sua verdadeira face sob um verniz de "padrão de qualidade global". Dizer que a Rede Globo é a melhor simplesmente porque é a mais bonitinha, sem dúvida é uma grande ignorância. Não importa o quão bela seja, importa sim, o desserviço que ela presta à população. Se hoje temos uma geração que não sabe pensar, nem exigir os seus direitos, tampouco exercer um papel crítico, a Rede Globo possui uma grande parcela de culpa. Se hoje temos uma geração "Malhação", extremamente consumista, agradeça a Rede Globo. Se hoje temos a glamourização da prostituição frente aos olhos de nossas crianças, agradeça a Rede Globo. O título "Muito Além de Cidadão Kane" faz uma referência ao famoso filme dirigido por Orson Welles, em 1940, apontado pelos críticos como o melhor de todos os tempos e que acompanha a trajetória de um magnata da comunicação. Assistindo ao documentário é possível ver o outro lado de uma história sórdida, nunca antes discutida em nosso país e que abre uma discussão: para quê os governos investem em mídia? Qual o retorno social disso, efetivamente? O que o povo tem que ver com propaganda institucional? É necessário os governos investirem muito mais em mídia do que em educação? Quem realmente se beneficia dessas relações? Assista e pense de novo quando a Rede Globo apontar que, tal ou qual político é um corrupto, quando na verdade, Roberto Marinho foi um dos maiores. Creio que, a mídia, sem dúvida é uma ferramenta importante para a sociedade, quando ela se propõe a divulgar a verdade e não uma verdade encomendada, usando da notícia como moeda de troca. Que tipo de vantagens a mídia obtém quando ela se cala? Que tipo de vantagens a mídia obtem quando ela divulga algo? Quando a mídia fecha os olhos para o que realmente é errado e se propõe a obter vantagens individuais mostra que é muito mais corrupta do que qualquer político sujo possa ser. Assista e tire suas conclusões críticas. A Globo diz que é a maior e que por isso é a melhor. Será? Você realmente é capaz de acreditar nisso? É fato que a Rede Globo atinge totalmente o território nacional. Mas isso é algo positivo? Que tipo de imprensa queremos: a que nos fala a verdade ou a que fala a verdade que é conveniente para um grupo? Que tipo de notícia queremos: a verdadeira ou a mascarada? Que tipo de jornalistas queremos: os idealistas ou os mascarados? Que tipo de imprensa queremos? Clique, deixe carregar e depois assista aos capítulos deste documentário....

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Vida & Morte

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Eram irmãs e tinham funções semelhantes e a mesma importância para o equilíbrio do universo. De vez em quando, até cruzavam caminhos, mas nunca cruzavam olhares. Cada qual fazia o seu trabalho, silenciosamente, sem se importar com a outra. Ouviam lamentações a respeito de uma e de outra, e admiravam-se mutuamente, sem nunca terem trocado uma única palavra. Certo dia, porém, um golpe do destino, fez com que algo mudasse. Uma humana estava com dificuldades no parto e havia risco tanto para ela, quanto para a criança em seu ventre. Seu esposo, ébrio, aguardava desesperado no saguão do Hospital. Ajoelhado no chão ele rezava pela vida de sua amada e e seu herdeiro. Eis que uma bela mulher de vestes alvas, aproxima-se, compadecida de sua dor e toca-lhe a face.
- Acalma-te, criança. Conheço-te deste o teu primeiro choro. Sois incapaz de compreender o tênue véu da existência. Não te desesperes", ela o consola.
Ele rechaça, gritando.
- Não sabe do que está falando. É a minha mulher e o meu filho que podem morrer!
- Nada acontecerá com teu rebento. Eu sou Vida e acompanho o teu filho...

Num piscar de olhos, a mulher desaparece de sua visão, como se nunca tivesse estado ali. Alucinação? Na sala de parto, ela contempla o desespero de uma mãe, com lágrimas, suor e sangue no rosto, dando suas últimas forças para que o filho nascesse. Ao seu lado, uma jovem de trajes escuros e olhos negros. Alguém que ela conhecia muito bem: sua irmã, Morte. Foi a primeira vez que elas cruzaram seus olhares infinitos. Foi nesse instante que as duas se apaixonaram...

Os médicos faziam de tudo para salvar a vida da mãe e de seu filho durante o parto, desconhecendo que eram anfitriões das Eternas, invisíveis aos seus olhos. Os aparelhos indicavam que aos poucos a mãe ia se despedindo da vida. A Morte, ao seu lado, encarava Vida à sua frente. Uma, indicava a luz para a criança que nascia. A outra, aguardava a mãe, para acompanhar-lhe até a porta de saída.

- "Ramente nos cruzamos, não é mesmo?", disse Morte.
Vida sorri. O menino está nascendo.
- "Nascido do sangue ele vem ao mundo. Seu pai o aguarda, acreditando amá-lo desde já. No entanto, desconhece seu destino, tampouco sabe de onde veio este ser. Só o amor de uma mãe é algo infinito. Ela se esvai para que a criança alcance minhas mãos. Te peço que não a tome ainda", diz Vida.

- "Teus olhos são lindos. E tristes", diz Morte.

- "Atendo teu pedido em troca de um beijo", oferece Morte. Mesmo ansiando por isso, Vida repreende.

- "Como podes negociar um capricho em troca de algo que não te pertence?".

Morte chega bem junto de Vida e a encara de perto.

- "Acaso os deuses não podem manifestar seus caprichos? Só quero sentir teus lábios e a mulher poderá dar a luz", barganha.

Vida a encara.

- "No momento em que a vi, tomei-me de um sentimento comum aos humanos. Poderia acariciar o teu rosto e entregar-me aos teus braços. Amo-te. Mas nego-te. Pois meu amor pelos pequenos é maior".

Morte meneia a cabeça.

- "Eis a tua criança".

O médico retira a criança, que recebe o sopro de Vida e chora. A mãe sorri e derrama a sua última lágrima. Morte lhe toca a fronte e lhe suga o sopro, que Vida concedera para aquela fêmea há um par de décadas atrás.

- "Alguém nasce, alguém morre. Triste sina", ela ironiza.

- Notaste como somos parecidas? Tu as retira de um lugar e as conduz até aqui. Eu as retiro daqui e as levo para outro plano. A diferença é que eles te celebram. A mim, eles temem. Terrível simetria", diz Morte enquanto ampara a jovem mãe, que não compreende o diálogo que testemunha, e chora ao tentar abraçar o filho com seus braços intangíveis, que não conseguem tocar o pequeno corpo que repousa nos braços do médico.

- "Ela morreu", diz uma enfermeira, observando os sinais vitais.

- "Fazer o quê?", dá de ombros Morte.

- "Espere. Façamos um acordo. Hoje, nesse instante, te peço que não cumpras a tua função. Não a leve e deixe que eu sopre novamente a sua face para que não se desampare a este pequeno que recém cruzou o véu".

Morte encara vida.

- "E?".

Vida chega próximo da irmã.

- "E dar-te-tei aquele beijo...que eu mesma sinto desejo".

Morte acaricia os cabelos de Vida.

- "Veja só. Caprichos de uma deusa. Mas tu bens sabes que preciso levar alguém que esteja contigo". Vida consente.

- "Mas não a estes, eu te peço".

Morte concorda.

- "Dê-me teus lábios...".

E as duas se beijam. Enquanto isso, os médicos comemoram a retomada dos sinais vitais da jovem mãe.

- "Ambas somos infinitamente belas juntas", diz Morte para Vida antes de se despedir. No corredor, alguém vai até o pai dar a notícia de que mãe e filho estava bem. Mas um ataque cardíaco fulminante o encontrara antes...

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Canção da América, por Elis Regina

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Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou
No pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou
No pensamento ficou
Com a lembrança que o outro trancou
Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a Distância digam não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto
Pra te encontrar
Qualquer dia amigo
A gente vai se encontrar...

Barbie Girl

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Ela tinha descoberto a pessoa que lhe completava. Sua alma gêmea, seu amor. Ao olhar nos olhos dela, via-se invadida de um sentimento de compreensão. E, como alguém já disse, não há sentimento melhor do que sentir compreendido por alguém. Nos braços da pessoa amada encontrava o calor, o aconchego e o desejo mútuo. Seus corpos nus encaixavam-se quase que perfeitamente. Se o amor é eterno enquanto dura, sabia que, pelo menos, enquanto durasse esse sentimento, ela era a pessoa ideal. Doce, compreensiva, amiga, sincera, companheira.A pessoa amada lhe fazia esquecer de outras experiências. E experiências, ela teve várias. Era uma dama da noite. Enfeitiçava os homens. Todos a queriam, todos a desejavam. Uma ninfa que se transformava numa deusa do sexo. Aos seus pés, vários homens rastejaram. Os seus pés vários homens lamberam. Nos seus pés, os mais caros sapatos os homens colocaram. O seu corpo estava à venda, mas não o seu coração. Por isso mesmo, ela sabia se vender bem caro. E os homens pagavam o que ela pedia. Uns tolos que, muitas vezes, deixavam metade de seus ordenados na cabeceira de sua alcova.Ninguém pechinchava. De início, poucos esvaziavam a carteira para deitar na mesma cama que ela. Com o tempo, tornou-se uma celebridade. Todos a queriam. De dia, era uma moça da sociedade, uma Barbie, filha de gente de nome. Mas não existe nada mais sujo e obscuro do que a própria sociedade. De dia, condenavam o seu ofício. “Como pode? Uma sem-vergonha”. À noite, os mesmos que lhe condenavam buscavam os seus encantos. Os seus peitos. Os seus pêlos. As suas pernas. O sexo oral. O sexo animal.Ela lembra, quando menina, sonhava com o príncipe encantado. Aquele homem delicado e compreensivo com quem iria viver o resto da vida uma vida romântica. Durante algum tempo, procurou por esse ser perfeito. Não o encontrou em meio aos príncipes que, enfim, revelavam-se sapos. Depois, passou a procurar em meio aos próprios sapos. Não há momento que revele mais da personalidade de uma pessoa do que na hora do sexo. Os corpos nus, as roupas no chão. Há quem goste de bater, há quem goste de apanhar. Há quem se lambuze como um porco na lama. Há quem goste de lambuzar. Há quem cuspa, para depois comer. Há quem goste de goste de ser dominado. Há quem puxe os cabelos. Há quem enfie os dedos em todo o lugar. Há quem tome a força aquilo que deseja (dolorosas vezes isso aconteceu...).
E há os mais variados tipos de desejo. Os mais secretos. Uns choravam e contavam o quanto suas mulheres eram tiranas, frígidas, tão diferentes daquela dama da noite. Na hora do sexo, a sociedade se revela. O rei e o plebeu ficam de quatro do mesmo jeito. Uns urram, outros sussurram. Uns a chamavam de princesa, outros de puta, de cadela, de vadia. No final, o gozo. E o desprezo.Sim, ela teve muitas experiências. Conheceu muitos homens. Namorou com muitos homens. Conheceu o universo masculino e foi incontáveis vezes tomada à força por ele. Por isso mesmo, ela queria distância desse universo. Homens eram apenas animais, dominados pelo instinto.Hoje, ela tinha descoberto a pessoa que lhe completava. Sua alma gêmea, seu amor. E, como já foi dito, não há sentimento melhor do que sentir compreendido por alguém. Ela jurou amor eterno (enquanto durasse esse amor) por uma mulher: a mulher de sua vida. De corpo macio e de toque suave. E ninguém tinha nada o que ver com isso.

Muros e grades

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Seu Silva era um brasileiro preocupado com a violência. Tomava chimarrão com os vizinhos e criticava os rumos que o mundo velho tomava. Já não tinha mais a confiança dos tempos de antigamente de deixar a janela posar encostada. Hoje, ela tinha de estar cadeada e acorrentada. Os gatos finos andavam à solta e ele tinha medo que um desses, sorrateiro, lhe furtasse seu patrimônio. Não tinha lá grandes coisas, mas o que era seu, era seu e não era nenhum vagabundo que iria roubar aquilo que suou para conseguir. Para ele, a culpa era sempre do Governo, que não dava jeito nessa gente. O jeito, para ele, seria baixar o laço nesses pivetes desocupados que perambula-vam, sem alguma serventia e ensiná-los a fazer alguma coisa, nem que fosse capinar. Seu Silva achava que o presidente tinha que dar um jeito na violência, pois os cidadãos de bem já não aguentavam mais.Botou muros e grades envolta da casa. Agora, seu Silva se sentia mais seguro. Se o Governo não fazia a sua parte, ele é que não deixaria de fazer a dele. Agora, podia tomar a sua cachaça à vontade, discutir e ofender a sua esposa e até mesmo, de espancar o filho que lhe olhasse de atravessado. Ainda mais, quando descobriu que um deles já andava tragueando uns fumos brabos. Seu Silva expulsou seu filho de casa, afinal, não iria criar filho para ser bandido e dar incômodo. Se era para incomodar, que incomodasse a outros. Assim, ainda esperava que o Governo, e somente ele, fizesse algo para conter a violência. Mesmo que ele próprio não fizesse nada.

Nove meses

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Ela estava com o envelope nas mãos, sem coragem de abrir. Sentada na praça, mordia nervosamente o canudinho mergulhado na lata de Fanta e olhava para os lados. Estava esperando por ele. Alguns minutos atrasados depois ele chegou, também nervoso, dando explicações para o atraso. Não importava. Ela o aguardou para que, juntos, abrissem o envelope mais importante de suas vidas, o que iria mudar a forma como eles enxergavam a vida até esse dia, nessa praça. Abriram. "Estou grávida", ela disse. Logo, veio um friozinho na barriga e ela ficou tonta. Ele ajudou ela a sentar. "E agora?", ela perguntou, na insegurança de seus 16 anos. "Não sei, eu sou muito novo", respondeu ele. "E eu, o que sou?", ela se desesperou. Ele jogou o envelope no colo dela. "Preciso pensar". E foi embora (e não voltou mais..).E, assim, ela ficou sozinha, com medo de tudo, sem ter coragem para nada. Sentia-se frágil e insegura como jamais tinha se sentido. Com o passar das semanas, foram surgindo dificuldades e foram aparecendo ainda mais responsabilidades. A pessoa que esperava que ficasse ao seu lado não estava, porém, muitos outros a amparavam. Ao contrário do que pensava, muitos se importavam com ela e a amavam. O medo que tinha de contar para os pais, mostrou-se exagerado. Eles estavam, sim, ao seu lado. Mesmo assim, ela tinha medo e acordava chorando, em sua aflição de mulher. E assim foi, durante nove meses. Foi numa manhã de primavera que, finalmente, ela nasceu. Delicadamente os médicos colocaram aquela frágil criaturinha em seus braços. E a menina-mãe mal se se aguentava em sua ânsia de abraçá-la bem apertado, junto ao seu corpo e beijá-la, em meio à lágrimas. Durante nove meses, tinham sido uma só. Hoje ela era mãe e a menina em seus braços era "Thaís". Os pequenos olhinhos encaravam a mãe, que viu-se inundada de uma coragem que jamais havia sentido antes. "Tudo vai dar certo. Agora eu sei.", dizia com lágrimas de alegria rolando por seu rosto...

domingo, 16 de setembro de 2007

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Amo a Shakira. Ela me conquistou desde quando "Estoy Aqui", estourou nas rádios. Desde aquela época, crei o hábito de comprar cada CD que ela lançava. O que me chama atenção na Shakira é que, além de ser uma artista latina, é ela quem escreve as letras das músicas que canta. É uma mulher inteligente e de atitude. Uma das frases de Shakira que mais me marcou é uma em que ela resumiu o seu pensamento político com o seguinte: "O amor está precisando de líderes. E os líderes estão precisando de amor". Creio que o amor deva ser a razão de ser de toda e qualquer atividade. O que não vem daí não encontra bases, fenece e se corrompe facilmente. Temos líderes da guerra, líderes politicagem, líderes de todo o jeito. Mas temos poucos líderes que agem em nome do amor. E o amor está precisando de líderes. E os líderes estão precisando de amor.
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Tinha um monte de assuntos que eu queria abordar, mas não estou me sentindo bem à frente do computador.
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MAs quero observar que será criada a Associação Regional de Imprensa. Esse foi o ponto principal no Encontro de Blogueiros ocorrido durante almoço na Churrascaria Gaúcha. A idéia é de agregar todos os órgãos de imprensa da região, entre rádio, TV e jornais, e incluir também os blogueiros que atuam no segmento crítico.
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Agradeço ao Júlio Prates a garrafa de vinho Jaguari que recebi de presente. Outro dia estava discutindo com um amigo de Bento Gonçalves e afirmei que os Vinhos Jaguari estão melhores do que os vinhos da Serra.
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Foi ótimo poder conversar com o amigo Cassal, com o Froilan, a Gislaine, a Íris, a Lizi Mello e o Júlio. Uma conversa inteligente e de alto nível.
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Vou tornar a escrever mais tarde...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

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Olá pessol. Eu até que pretendia atualizar o meu blog agora, nessa noite de sexta-feira, mas sabe como é que é, estou cansado, a semana foi bastante corrida. E eu trabalho bastante. Não reclamo de maneira alguma de trabalhar bastante, muito pelo contrário. O que vier, eu topo. Não tenho medo de desafios e cara feia para mim é um prato de doce. Tinha um monte de assuntos para abordar nesse blog, mas vou deixar para escrever amanhã. Estou curtindo a noite de sexta-feira. Loquei dois DVDs da série Heroes e estou ouvindo um DVD da Shakira. Ah, e nunca se esqueça: as coisas tem a importância que a gente dá para elas. Vou tomar uma Coca-Cola. Vou cozinhar alguma coisa. Vou dar comida para os gatos. Vou assistir "O Náufrago" pela oitava vez. Vou cortar as unhas do pé. Vou dormir. Vou parar de digitar nesse momento.

Cinzas mitológicas

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Publicado no jornal Expresso Ilustrado, de14 de setembro de 2007

Em determinada cidade, algumas pessoas diziam ter visto um gigantesco pássaro com penas cor-de-fogo cruzar pelos céus, entoando um canto melodioso e triste. A notícia se espalhou de que se tratava de uma ave rara e, por isso mesmo, caríssima. Encontrá-la seria comprovar a existência de um mito antigo e conquistar status e dinheiro. E, assim, alguns se puseram à procura daquele pássaro, não logrando êxito. Nesse tempo, o mundo estava mergulhado na escuridão da ganância e do individualismo. O mito do pássaro ganhava notoriedade e instigava o deboche, tal qual se debochou do famoso chupa-cabra.
No entanto, foi numa tarde de verão que o pássaro surgiu nos céus, aos olhos de todos, tal qual era descrito pelos rumores. E entoou o seu canto por onde passou. Em seu íntimo, o pássaro despertou a força naqueles que eram fracos, a coragem nos que eram covardes, o amor nos que nutriam sentimentos nobres, a esperança para os desesperançosos e a alegria para quem estava triste. Também despertou o arrependimento nos corações trevosos. E as lágrimas rolavam no rosto de todos os que contemplaram aquela raridade, que tinha algo de divino e, talvez, de profano. A ave pousou nos galhos de uma árvore na praça e todos correram para observá-la, tirar fotos e admirar a sua beleza. Foi quando um tiro abriu um rombo no peito da ave, que tombou fulminada. A multidão se voltou para o homem armado. Por um momento, todos o encararam, resignados. Mas antes que ele pudesse dar um passo, cairam em cima dele, raivosos, desarmando-o e chegando a linchá-lo por ter dado fim a algo tão belo. Foi quando alguém apontou para o pássaro, que havia sumido. Em seu lugar, apenas cinzas...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

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Fazem dois anos que eu trabalho para a Câmara de Vereadores de Santiago. O trabalho lá é algo constante. E, para a satisfação da comunidade, existe uma competente equipe de funcionários que fazem o dia-a-dia do Poder Legislativo. As atribuições de cada um são várias, para poder atender ao expediente administrativo ou legislativo. Quando findar minhas atividades, levarei uma experiência profunda e gratificamente que me acompanhará pelo resto de minha existência. Sem dúvida, exercer o cargo que exerço na Câmara foi como fazer uma faculdade de administração na prática. Sinto-me lisongeado e privilegiado por estar vivenciando essa oportunidade e sou extremamento grata por ela. Sempre me dediquei de corpo e alma em todos os trabalhos que desempenhei e isso trago há muito tempo, desde quando era criança e vendia picóle ou sanduíche. Aliás, quem diria, não é? Um vendedor de picolé chegar à chefia de gabinete da Presidência da Câmara de Vereadores. Todas as decisões administrativas dos últimos dois anos à frente da Câmara tiveram a minha interferência e entre erros e acertos, graças ao meu bom Deus, tivemos muito mais acertos. É algo que não pensava para mim. Mas, graças a Deus, foi uma oportunidade que me sorriu e que valorizo com muito orgulho. Como todos sabem, faço parte dos colunistas do jornal Expresso Ilustrado, algo que prezo muito. No entanto, as pessoas acabam confundindo algumas coisas. Acho que estão tão acostumadas em verem a minha foto nas páginas do jornal, que acham que sou alguém influente dentro da diretoria do jornal. Não o sou. Comecei a trabalhar para o Expresso em 1999, por indicação de meu grande amigo Sidnei Garcia. Ná época, tinha 19 anos. Minha função no jornal, era de auxiliar na diagramação. Nesse ponto, devo dizer que aprendi a fazer isso com o Sidi, que me deu o treinamento nas suas horas de folga. Mas entrar para o Expresso era uma meta antiga que eu tinha, desde os primórios do jornal. Sempre gostei de escrever, desde criança e, logo que o jornal se instalou por aqui, aquilo me instigou a possibilidade de realizar um de meus sonhos infantis de trabalhar num jornal (como os heróis que eu gostava: O Homem-Aranha e o Superman, respectivamente Peter o fotógrafo Parker e o repórter Clark Kent, suas identidades "secretas). Lá pelos idos de 1997, fui convidado pelo meu amigo Marcos Fiorenza para fazer algumas reportagens para o jornalzinho Espaço Popular, que ele tinha inventado de fazer. Eu participei de algumas edições, além de publicar algumas coisas no Letras Santiaguenses. Foi quando abriu uma seleção de repórteres para o Expresso. Então, com 17 anos, eu pensava: "eu escrevo bem. Pelo menos, melhor que esse Araponga aí", pensei. E levei um currículo para o Expresso. Isso, em 1997. Acho que foi mais ou menos nessa época também que o Júlio Prates lançou o seu Jornal A Hora, cujas reportagens e artigos extremamente inteligentes chamaram a minha atenção. No Expresso, conversei com o João Lemes, mas cheguei um pouco atrasado. Eles já tinham formado uma equipe, estavam testando algumas pessoas e desejou sorte para outra oportunidade. Tudo bem, não foi daquela vez. Pelo menos, deixei um currículo lá, com alguns escritos que tinha feito. Pensei em procurar o Júlio Prates, em 1997, e me oferecer para trabalhar para o jornal dele. Mas aí, tornei a ler as páginas do "A Hora" e me vi pequeno diante da grandiosidade daqueles artigos tão bem construídos. Eu não era capaz de escrever com tamanha desenvoltura. E, assim, se passaram dois anos. Em 1999, eis que o Sidi me observou de uma vaga que abriria para diagramador e se dispôs a me ensinar o ofício. E assim aconteceu. Tornei-me um dos diagramadores do jornal, ao lado do Mário, do Sidi e, mais tarde, do Antônio. A responsável pelas reportagens era a Cristiane Salbego, quande amiga. Mas, como eu tinha recém entrado para a equipe, queria aprender. E me oferecia e me dispunha a servir à firma para a qual eu estava trabalhando. "Se precisar de faça alguma foto, ou que escreva alguma coisa, estou à disposição", eu dizia para os chefes. E, assim, acabei conquistando um espaço. Com o passar do tempo, conquistei também a confiança da Sandra, do João e da Suzana. Confiança essa que mantenho até hoje. Discutimos algumas vezes e divergimos de opiniões muitas outras, mas no final impera o respeito e a amizade. No Expresso tive a oportunidade de crescer profissionalmente e de me aperfeiçoar na escrita, na diagramação e também na fotografia. Aliás, creio que fui o responsável pela mudança na linha editorial de fotografia do jornal. Passei a criar imagens tal qual os fotógrafos da Zero Hora e Veja faziam. Buscava me inspirar nos grandes. Em seguida, passei a ter uma coluna de opiniões, principalmente críticas, nas páginas do jornal. Ajudei a criar diversos espaços e posso dizer que sou o criador do "X da Questão", porque achava que o jornal deveria ter um espaço para entrevistas. A idéia inicial era que fosse de entrevistas similar ao das Páginas Amarelas, da revista Veja. Aquela história de "Clone", fui eu que iniciei, "bem na foto, mal na foto", "Musa da Piscina" e um monte de outras coisas (assim como ajudei a transformar a locadora de minha ex-namorada, a Videoclube, no que ela é hoje, uma das melhores de Santiago). Dei idéia para dezenas de charges, produzi centenas de reportagens, fiz muita coisa. Certa vez, o João Lemes me disse que eu era um profissional para estar numa Prefeitura, numa Câmara de Vereadores, num grande jornal. Talvez tenha sido um dos maiores elogios que ele tenha me dado. Pois bem. Trabalhar para um grande jornal era um sonho que eu tinha quando pequeno e esse eu realizei. Porém, um outro ideal que sempre tive também, desde adolescente, era entrar para a política. Era ter a oportunidade de fazer algo pelo meu semelhante. Era poder ter a oportunidade de trabalhar pela coletividade e ver a minha cidade ter a melhor qualidade de vida do Estado. No entanto, durante muito tempo, reprimi a minha vontade de querer entrar para a política por causa de uma namorada que tive, a Lidiane, que sempre teve preconceitos com relação a política, que considerava um mundo sujo, de artimanhas e de pouca utilidade. Bem, quando a Lidiane e eu terminamos o nosso namoro, posso dizer que foi uma fase extremamente difícil em minha vida, pensei que seria o momento de retomar aquele sonho antigo, de entrar para a política e de tentar ser útil para a sociedade. Por um tempo, me deixei influenciar pelo que a Lidiane dizia e de não querer saber de me envolver com a política. No entanto, a política está em nossa vida de todo o modo. Está no calçamento em frente a nossas casas, no esgoto, na pracinha, na iluminação, está em tudo. E ficar à parte da política é como se desligar para o mundo. E se as pessoas que têm condições de fazer algo de bom e não o fazem, acabam sendo piores do que aqueles que, simplesmente não querem fazer. Acredito que eu tenha condições de fazer algo de bom. Não por um ideal. Mas por minha natureza. Sou filho de gente pobre e sou pobre. Não dou bola para dinheiro. Não almejo isso e estou sempre quebrado, sem dinheiro no bolso. E não é dinheiro que faz o meu caráter. Não é o dinheiro que me torna melhor ou pior uma pessoa. É a natureza. É a pimenta que minha vó colocava na minha língua para eu não dizer palavrão (e como resultado, eu NUNCA falo palavrão), foram as cintadas que meu pai me deu por eu ter matado aula alguma vez (e isso me faz arcar com as minhas responsabilidades e ter essa mentalidade de que somos responsáveis por nossos atos). Bem, outro dia, alguém me disse que não gosta do Expresso, que o jornal Expresso é isso e aquilo, que não fala mais as verdades que as pessoas deveriam saber, que até gosta da minha coluna, mas que o jornal em si tinha perdido a sua essência e que o Folha Regional estava melhor. Para essa pessoa tive que dizer que o jornal é um produto e que està à venda. Que não se faz mais jornalistas ideológicos e apaixonados como antigamente. Ou, pelo menos, dificilmente esses estão nas páginas da maioria dos jornais. Hoje há quem faça um jornalismo ideológico através de blogs como o do meu amigo Júlio Prates, o da Rebeca, em função de não ter que desenvolver relações comerciais para escrever. Mas, enfim, por mais que eu tenha influenciado diversas questões estruturais dentro do Expresso, fazem dois anos que não o faço. Há dois anos, a minha dedicação principal é em função da Câmara de Vereadores. É para fazer um bom trabalho na função que eu desempenho, assim como sempre procurei fazer em tudo aquilo a que me dediquei.

Uma surpresa para a "Caíca"...

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Fazem dois anos que eu trabalho para a Câmara de Vereadores de Santiago. O trabalho lá é algo constante. E, para a satisfação da comunidade, existe uma competente equipe de funcionários que fazem o dia-a-dia do Poder Legislativo. As atribuições de cada um são várias, para poder atender ao expediente administrativo ou legislativo. Quando findar minhas atividades, levarei uma experiência profunda e gratificamente que me acompanhará pelo resto de minha existência. Sem dúvida, exercer o cargo que exerço na Câmara foi como fazer uma faculdade de administração na prática. Mas como sou daquele raciocínio de que, da vida a gente leva os sentimentos e o aprendizado espiritual, quero dizer que tenho a máxima admiração, carinho e respeito por meus colegas de trabalho e que cada momento ao lado deles é um privilégio e é um fato a ser comemorado. Felizmente, há esses momentos de comemoração, como uma feliz pausa, aos intensos trabalhos de cada um. Nessa quarta-feira, fizemos uma pequena surpresa para a nossa colega Clarissa, com um buffet de sorvetes para celebrar a passagem de seu aniversário, ocorrido no último sábado. Como não era dia de expediente, deixamos a festa para tarde de hoje. Em posts anteriores, você viu vídeos de uma festa nossa, no feriado, onde lembramos de que a Clarissa estaria aniversariando no dia seguinte. E, assim, ela recebeu homenagens. Ela merece. Confira algumas imagens da turma aí...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Clarissa vai às lágrimas

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Durante a festa dos funcionários da Câmara de Vereadores, a nossa colega Clarissa Paz Bordinhão, foi às lágrimas com uma singela homenagem por ocasião de seu aniversário...

Rose & Bordinhão

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Confira a dança apaixonada de minha colega de trabalho Rose e seu esposo Bordinhão, durante festa dos funcionários da Câmara de Vereadores...

Festa da Câmara

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Imagens de festa da equipe de funcionários da Câmara de Vereadores de Santiago, ocorrida na última sexta-feira, 07 de setembro...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Um dia em que o mundo não acabou...

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Ele não tinha muitas lembranças daquele dia. Cada vez que tentava se lembrar, pouca coisa vinha a mente. Algumas imagens, talvez, que antes eram cristalinas, hoje um tanto enuveadas pelas brumas do tempo, mesmo que não tenha sido há tanto tempo. As lembranças lhe pareciam mais vivas no peito. Dava uma sensação esquisita que parecia surgir como que um friozinho na barriga, que ia subindo e dava uma paulada no coração. É aí que ele sentia que sentia muito mais que era capaz de lembrar. E é aí que ele sentia que a mente pode até mentir e ir deletando o seu arquivo de imagens aos poucos, mas o coração não. Engraçado, naquele dia não há notícias de que tenha ocorrido algum eclipse lunar ou solar. Nem se houve a passagem de algum cometa. Não se sabe da ocorrência de algum fenômeno sobrenatural, ou que tenha sido avistado algum disco voador, se houve quebra na bolsa de valores, nem da queda um avião, se alguém recebeu um prêmio Nobel, se houve alguma possibilidade de paz mundial ou se algum maluco quase apertou o botãozinho vermelho e disparado milhares de bombas nucleares. Naquele dia, nem mesmo há notícias de que alguém tivesse ganhado sozinho na Mega Sena acumulada, nem que a cura do câncer tenha sido anunciada. Daquele dia, também não há lembranças menores como a do vôo de um colibri, ou que alguém tenha recebido flores, ou mesmo de crianças jogando bola na rua, ou que um senhor tenha tirado o chapeu e desejado "um bom dia". E,a ssim, nada de especial parece ter acontecido naquele dia. Um dia como qualquer outro, que poderia ter sido deletado do arquivo de sua vida como qualquer outro. A não ser por um detalhe, que fez toda a diferença: foi naquele dia que ele cruzou o olhar com o amor de sua vida. E mesmo que tivesse acontecido tudo o que ele pensou que pudesse ter acontecido, naquele dia nada mais no mundo importaria.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Parabéns aos biólogos!

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Na data de hoje, 03 de setembro, comemora-se o "Dia do Biólogo", já que foi nesse dia no ano de 1979, que foi regulamentada a profissão. O biólogo é um profissional de grande importância e que pode, dependendo de sua formação, atuar em mais de 50 áreas de trabalho. O Biólogo é um profissional capacitado para, além de executar, pensar, colaborando nas áreas de medicina, controle de pragas, farmácia e preservação ambiental, entre outros segmentos. Certamente, as prefeituras e instituições de toda a região e o Estado devem proporcionar mais espaço para que os biólogos possam atuar, sendo indispensável essa função. Através deste registro, então, quero render homenagens aos biólogos de Santiago, ao curso de Biologia da URI, professores e alunos e em especial a minha amiga e bióloga Eliziane Mello. Um grande abraço a todos.

De um suicida

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Ele acompanhava notícias sobre suicídios, mas não se prendia a aspectos emocionais. O que questionava era por que tal ou qual método havia sido escolhido ao invés deste ou daquele. Para ele, esse papo de que a existência é sagrada era furado. Desacreditava de qualquer existência não-material. "Deus? Tolice, ilusão, alucinação coletiva. A pessoa morre e se apaga. Vira pó. Se acaba", dizia. Mas, ele não era tão frio quanto aparentava. Certa feita, se apaixonou. Se não fosse ateu, diria que os olhos da amada eram divinos. Se acreditasse em anjos, afirmaria que ela era um. Se acreditasse em Deus, diria que ela era sua alma-gêmea. À ela dedicou a vida. E, quando a perdeu, à ela dedicou sua morte. Não suportava a dor física no peito por perdê-la. A vida tornou-se um fardo e não importava o amor da família ou dos amigos. Não existiam mais sonhos ou primavera. Morreria por aquele amor. Iria apagar a sua existência. Viraria pó. Se acabaria. Assim, matou-se.
A dura realidade: tão logo a força vital abandonou seu corpo, foi arrastado para outro plano. Descobriu que, sim, existia vida pós-morte. E tão verdadeira quanto aquela que tinha abandonado. Abriu os olhos e viu-se fincado junto a um solo mortificado e podre, cheio de cadávares lamentosos. Ele, na forma de uma árvore humanóide, inerte. Fazendo-lhe companhia, hárpias terríveis que arrancavam pedaços de sua carne para se alimentar. Olhou para os seus braços, transformados em galhos e viu pendurado, balançando como roupa no vento, o seu corpo vazio. Sentia dores inimagináveis, com sua carne sendo rasgada, constantemente. Por vezes, frio intenso. Por vezes, calor insuportável. Gritou, chorou e compreendeu que aquela era a sua pena eterna por ter negado a própria vida, por ter sido estúpido, egoísta e cometido suicídio.

domingo, 2 de setembro de 2007

Sobre as vaidades tolas que alimentamos e sobre as lágrimas que não derramamos...

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Se existe um pecado capital que me irrita e me enoja é a vaidade. E, ao dizer isso, talvez eu esteja tomado por um dos sete pecados capitais: a ira? Talvez. Acontece que não há nada mais imbecil do que ser vaidoso. Não há nada mais imbecil do que alguém se achar especial. A vaidade é um pecado capital que manifesta uma ignorância completa e que causa uma cegueira. Não me refiro àquela vaidadezinha de se arrumar em frente ao espelho. Não é essa vaidade. A vaidade que me preocupa é aquela em que o sujeito fica se "achando" porque tem mais amigos influentes ou porque tem uma cartão Visa Internacional ou porque tem mais bois ou porque tem o carro do ano ou porque o "seu" doutor lhe rende mesuras ou porque o "seu" político lhe presta favores ou porque desempenha tal ou qual função ou por um monte de etcs desse tipo. Todo aquele que é vaidoso a esse extremo é também um tolo de marca maior. Há gente que se vangloria de conseguir coisas de graça (que outros tem de pagar), porque desempenha algum tipo de atividade que é considerada mais especial e aí vem algum "coronel" e oferece benefícios para aquela pessoa, que sente envaidecida e, em contrapartida, rende puxa-saquismos aos seus beneficiários. É uma relação simbiótica essa, movida pela vaidade. Hipocrisia pura. Há também vaidosos que se acham humildes, sem reconhecer que a humildade não é laranja de amostra para ser apresentada "eu sou humilde". Jamais. A humildade é, sem dúvida, uma qualidade rara e não regula com a condição social de alguém. A humildade verdadeira é qualidade invisível aos olhos e não serve para alimento à vaidade. A humildade verdadeira é simbolizada da forma que foi manifestada por Cristo ao lavar os pés de seus apóstolos. Quem é capaz disso, de ser um grande líder, mas também estar pronto para servir? Há algum tempo, escrevo nesse blog e tenho uma coluna no jornal Expresso Ilustrado há alguns anos. Sei que escrevo de forma coerente. Afinal de contas, desde criança leio de tudo e aprendi a desenvolver uma linha de raciocínio clara. As pessoas lêem o que eu escrevo. Até recebo alguns elogios sobre o que eu escrevo. Uns verdadeiros, outros nem tanto...

Agora, eu ficar me "achando", me envaidecendo por causa disso, é o fim da picada. A mim, interessa muito mais receber um presente de um amigo, do que alguma benesse interesseira. Prefiro muito mais ganhar um pote de chimia da minha vizinha, que simplesmente gosta de conversar comigo, do que quilos de carne no açougue de algum coronel, que tem interesse que eu fale bem dele. A mim, me interessa muito mais ser convidado para comer um pastel com algum amigo, do que estar junto a uma mesa farta ao lado da elite aproveitadora e falsa que dá tapinha nas costas e faz alimentar vaidades com elogios mentirosos. A mim interessa muito mais estar ao lado das pessoas simples, que fazem e sempre fizeram parte da minha vida, do que usar e dispor da falsa amizade de pessoas influentes, que tem a possibilidade de fazer algo pelo seus semelhantes e só o fazem para seus bolsos e interesses. Não me considero e jamais vou me considerar especial e nem render tratamento especial para esses que se consideram especiais. Amo pessoas simples. Os grandes amigos que tenho são para toda a vida e não troco suas amizades por nada. São todos especiais porque são simples, sem frescuras, desprovidos de vaidades.

Um dos meus melhores amigos, o Francisco, por exemplo, não sabe escrever no sentido de expressar aquilo que sente. Seria um dos maiores críticos de cinema desse país, se soubesse escrever. Já assistiu mais de 8 mil filmes e sabe, num diálogo, emitir suas considerações críticas sobre tais produções. No entanto, não consegue colocar isso no papel. Eu consigo. E agora, pergunto: o que isso me torna mais especial do que ele?? Absolutamente NADA!!! Muito antes pelo contrário. Se tenho um dom, uma faculdade, uma facilidade em me comunicar, isso não me é motivo para me considerar "especial". É, sim, uma grande responsabilidade que tenho. Se Deus me concedeu o dom da escrita, da comunicação é porque me cabe ser um instrumento de algo maior e não satisfazer meu bel-prazer, ficar me "achando". E jamais vou usar da escrita, ao escrever publicamente, para elogiar quem não mereça. Para mentir. Para mascarar. Todos que vivemos em sociedade temos a responsabilidade sobre nossos atos. E todos que temos a possibilidade de fazer o mínimo em favor de outra pessoa e não o fazemos por inércia, temos uma culpa muito maior do que aquele que não quis fazer. Por exemplo, considero que a política é uma ciência em favor da coletividade, um instrumento que existe para ser usada em benefício de todos. E todo aquele que usa desse instrumento para tirar proveitos individuais (e quando digo individuais, me refiro para si e para grupos) é aquilo que se convenciona chamar de aproveitador.

Todo aquele que se utiliza da esperança de alguém, do voto de confiança de alguém, da expectativa de alguém, que explora da miserabilidade para se enaltecer, este tem a sua recompensa reservada, mais cedo ou mais tarde. Neste ponto, devo dizer que, sim, acredito em Justiça Divina, acredito em Deus, acredito em Jesus Cristo. E, também quero dizer que, não, não acredito em religiões. As religiões são instrumentos usados pelos homens. E tudo aquilo que homens fracos põem a mão se deteriora. Homens com o toque de Midas ao contrário. Ao invés de tornar ouro aquilo que tocam, fazem com que apodreça. E a religião, em geral, é assim: está apodrecida e serve a propósitos individualistas, tendo como produto-chefe a fé, seja em Deus ou Jesus. As religiões fizeram de Jesus Cristo um produto mais rentável do que a Coca-Cola. Assim como a política desvirtuou-se de seu propósito. Por isso tenho nojo de gente vaidosa, que fica se engrandecendo com status ou posição social. E a tais pessoas me cabe combater.

E rogo que, se um dia, eu vier a me corromper, trair os princípios que carrego, alguém me derrube com a espada da verdade e da justiça. Não descarto essa possibilidade, afinal de contas, sou humano. O que não é desculpas para não ter consciência sobre meus atos.Outro dia, numa postagem do blog do meu amigo Júlio Prates, uma foto e um relato sobre a vida dos que vivem à margem da sociedade, dos que vivem embaixo de pontes, viadutos e marquises de Porto Alegre (foto acima). O Júlio, aliás, é uma pessoa que tem uma visão surpreendente e bastante humana, é um sociólogo que sempre faz considerações pertinentes, instigantes e inquietantos em sua escrita. Mas, como dizem, uma foto vale mais do que mil palavras. E na imagem acima, captada por um jornalista e sociólogo, não é necessário dizer muita coisa: a imagem fala por si. Seres humanos envoltos em cobertores rasgados e fedidos. Seres humanos regidos por uma única lei: a lei do estômago. Que os faz mendigar por um pedaço de pão. Que não se importa com olhares penalizados ou com a displicência de quem faz de conta que não os vê, que não os enxerga. Estão ali como cães, àqueles cães que recebem as migalhas que sobram de nossas mesas. Malditos esses seres humanos que enfeiam nossas capitais. É uma condição sub-humana que faz pensar num tempo em que, dizem, nós todos habitávamos cavernas. Vivíamos assim também, pela lei do estômago. Tempos antigos que as produções hollywoodianas ou os historiadores nos dizem que a humanidade vivenciou e que se prestava a uma vida animalesca. E se todos éramos iguais há tanto tempo, como ficamos hoje tão desiguais? Se antes vivíamos com tão pouco, porque hoje temos que viver com muito?

E será que ninguém vê que o fato de tantos viverem com muito causa esse desequilíbrio que nos faz ver nossos semelhantes maltrapilhos e famintos pelas ruas? E se há tanta coisa no mundo, se tudo o que há fosse dividido, quem estaria disposto a diminuir sua condição social em nome da igualdade? Por isso, digo que a vaidade me enoja. Não sou nada diferente daquelas pessoas que obedecem à lei do estômago pelas ruas da capital. Também sou regido pela lei do estômago, com a diferença que posso comer a hora que eu quiser e eles não. Tem que passar por muitos "não tenho hoje", até encontrar aquela pessoa que lhes alcance uma moeda que sirva para comer um pedaço de algo. Por isso digo, meus amigos, meus poucos amigos que tenham chegado até essa parte desse longo texto: a vaidade é um pecado absurdo. Envaidecer-se de qualquer coisa nesse mundo é, simplesmente, absurdo. É um ato de ignorância, um ato de violência contra a própria humanidade que carregamos dentro de nossos peitos. Em cada ser vivente, bate um coração. Em cada ser vivente, há uma parcela divina. E como podemos tantos, que dizemos acreditar num Deus cuja mensagem maior é a da igualdade e a do amor ao próximo, querer se envaidecer por possuirmos uma condição especial? Como posso querer achar que sou especial porque escrevi tudo isso? Tudo isso, meus amigos, poderia ser resumida apenas por uma única coisa: uma lágrima. E alguém pode se envaidecer de ser capaz de derramar uma lágrima?

Um e-mail emocionante

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Há anos, gosto de fotografar a minha cidade e criar um arquivo de imagens de Santiago, cidade em que nasci e que tanto amo. Há poucos meses, criei o blog "Visões de Santiago", onde estou publicando pouco-a-pouco algumas das imagens de nossa cidade, compartilhando a minha visão dela com os internautas, divulgando Santiago e principalmente permitindo que pessoas que estejam longe daqui, mas que sejam igualmente apaixonados pela Terra dos Poetas possam matar um pouco das saudades. Em função disso, recebo alguns e-mails de santiaguenses que estão distantes e manifestam os seus sentimentos em rever nossa cidade. Fico feliz em contribuir um pouco com essas pessoas. Leiam alguns dos e-mails:

"Sou um dos tantos santiaguenses que há mais de trinta anos não visita a Terra. Nenhuma das fotos postadas me causou tanta saudade quanto esta da Ponte Seca, sob a qual perambulava equilibrando nos trilhos percorridos nos meus tempos de criança.A saudade é tanta que se continuar eu choro...Um abraço e obrigado por colocarem em mim mais um pedaço da minha Terra". Alberto Afonso Landa Camargo (Beto)

"E aí Márcio! Cara, estou salvando as fotos, assim lá em Curitiba eu mato um pouco da saudade! hehe". Alberto Ritter.

Clique na foto acima para visitar o blog e ver um pouquinho de Santiago.

sábado, 1 de setembro de 2007

Escola da vida

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Raul Seixas fez questão de se formar em Direito. Ele costumava dizer que iria concluir o curso para mostar que "era fácil ser burro". Do seu jeito e irreverente, o roqueiro disse algo semelhante ao que o pajeador Jaime Caetano Braum, aqui das Missões, também falou. Ele disse que "diploma não encurta o tamanho das orelhas". Através desses dois exemplos, quero dizer que formação é apenas informação. E qualquer um pode ter informação. Ela está aí ao alcance de todos e há, senão, um mar de iguais buscando ser iguais a outros iguais. Todos esses, deixando que a corrente os leve. Difícil é aquele que nada contra a correnteza, braçada a braçada, superando os seus próprios limites.
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Quando eu estudava na 4ª série do ensino primário, na escola Sílvio Aquino, lembro de uma palestra que foi proferida pelo advogado Tito Becon que, na época, se não me engano era presidente da Casa de Cultura. E, enfim, esse era o tema de sua palestra: cultura. Lembro que, numa classe com mais de 30 alunos, o Tito falou algo que me fez refletir, quando eu tinha lá os meus 10 anos de idade. Olhei para os colegas com os quais dividia o meu dia-a-dia: o João Batista, o Éder, o Jeferson, a Simone, o Volmeres, o Pedro, a Valandra e outros tantos. Naquele exato momento, sabia que no futuro, somente eu lembraria daquelas frases do Tito Becon e que eles todos esqueceriam delas. Não sei se, hoje, algum daqueles meus ex-colegas lembram o que o Tito Becon falou. Mas eu jamais esqueci. Ele contou o seguinte:

"Estava numa viagem ao Pantanal, onde passava férias com alguns amigos Éramos médicos, advogados, empresários. Estávamos lá passando alguns dias conhecendo aquele pedaço de um Brasil selvagem e encantador. Tirávamos fotos de tudo e já tínhamos muitas histórias para contar assim que retornássemos aos nossos lares, em Santiago. Certa noite, combinamos de ir pescar no rio. E, assim, pagamos para que um pescador nos acompanhasse e servisse de guia pelas águas perigosas dos rios do Pantanal mato-grossense. Ele conduzia o bote, enquanto nós ali estávamos entretidos com nossas varas de pescas. A única iluminação que tínhamos, além da lua e das estrelas, era a do lampião. Ríamos, contávamos causos e pescávamos. De repente, um barulho na água fez o pescador mudar a expressão de quem estava acostumado com a algazarra de turistas. Demonstrou preocupação e fez com que nos preocupássemos também.
- O que houve? Que foi esse barulho? Não vá dizer que é um jacaré...
- Pior -disse o pescador- É uma sucuri.
Naquele momento, o pavor tomou conta de todos nós. Não sabíamos o que poderia acontecer com a gente. Estávamos todos ali, encolhidos, com medo das sombras, com medo de barulhos, com medo da batida da água no nosso bote. Sentíamos que a qualquer momento, aquela sucuri pudesse pular para dentro do bote e arrastar algum de nós. Seria o nosso fim. Naquele momento, também pensei que de nada valeria os diplomas, nossos anos de estudo, nossas viagens, nossa cultura. Nada do que sabíamos sobre a vida, o acúmulo de conhecimento que tínhamos, nada nos ajudaria nesse momento. Só alguém tinha cultura suficiente para garantir que iríamos nos salvar: o pescador. E, naquele momento, percemos que somente a cultura e a vivência daquele pescador importava e nada mais. Graças a Deus, estamos todos bem, graças àquele homem, que mal sabia ler e escrever".

Moral da história: Jamais devemos subestimar a cultura e conhecimento de qualquer pessoa que seja, pois todos temos algo a aprender com o outro".

E, assim, ilustrando dessa forma, quero dizer mais uma vez que diploma não encurta as orelhas e que é fácil ser burro. Basta ficar achando que por se ter um diploma universitário se é mais especial ou se tem mais direito à vida, ou mais direito a respirar, a escrever, a existir, a expressar a sua opinião do que quem não tem. Quem pensa o contrário, precisa urgentemente aprender com a escola da vida.