sábado, 8 de dezembro de 2007

O filho do Super-Homem

- Mãe, pede para o Super-Homem vir me ver?
Foi esse o pedido que o pequeno Michel de 08 anos fez à sua mãe, Clarissa, com sua voz fraquinha e cansada. Numa situação normal, ela poderia explicar que o herói só existia nos filmes e nos desenhos que ele assistia e nas revistas em quadrinhos que lia. O garoto adorava o herói e tinha bonecos, lancheiras, tênis e até uma capa vermelha que amarrava no pescoço para correr em volta da casa com os braços abertos, fingindo voar. Mas isso quando ele era um menino saudável. Hoje, a sua rotina era praticamente casa-hospital-casa-hospital. Há meses, o pequeno enfrentava uma luta pela vida. Apesar de ter um coração nobre e corajoso no sentido metafórico, no real, ele sofria com o câncer, que definhava o seu pequeno corpo. Michel já tinha enfrentado várias batalhas pela vida e, não raras vezes, esteve perto de morrer. Mas ele insistiu e se manteve. Há menos de uma semana, uma grave crise respiratória o trouxe de volta ao hospital, mas ele vinha se recuperando. Como dizer para uma criança nessas condições que o seu ídolo não existia?
- Mamãe vai ligar para o Super-Homem. Ele vai vir te visitar, sim.
ela disse, segurando as lágrimas.
- Promete, mamãe?
Ela prometia.

Assim que o menino adormeceu, Clarissa se dirigiu ao corredor do hospital. Escorou-se próximo a uma janela e acendeu um cigarro, fixando o seu olhar na vida lá embaixo, aquele movimento todo de carros e de pessoas. Visto dali de cima, do quarto andar, tudo parecia feio, desorganizado e barulhento. Um interminável movimento de vai e vem, um formigueiro humano. Seu pensamento vôou nessa comparação entre homens e formigas. Talvez, em virtude do cansaço. Em seguida, voltando a si, sacou o celular da bolsa e ligou para o pai do Michel, o seu ex-marido. Hoje, ela era uma mulher casada e as aflições de criar o filho eram divididas com o seu atual marido. Porém, para o que tinha em mente, só poderia contar com ele, o pai do menino, seu antigo amor. Apesar dele se revezar com ela no hospital e cumprir suas obrigações paternas, ela não mais morria de amores por ele (como outrora). Na verdade, se cumprimentavam só com olhares e trocavam instruções peculiares de pais separados que dividem a atenção do filho.
- Preciso que tu faça isso pelo Michel, por favor...
Finalizou ela, ao telefone, desligando-o, deixando ele proferir para ninguém a palavra "beijos".

Mais tarde, vencida pelo cansaço, Clarissa adormecia na poltrona ao lado da cama de Michel. Suavemente, era despertada pelo roçar de dedos em sua face. Era o seu marido.
- Estava te olhando dormir. Tens que ir para casa. Chame o pai do Michel para vir aqui um pouco. Tu precisa de uma cama para descansar...
Ela olhou no relógio, já estava na hora dele aparecer mesmo, mas pontualidade nunca tinha sido o seu forte. Pelo menos com o filho, poderia ter mais consideração.
- Eu estou bem, meu querido. Quero ficar aqui mais essa noite. Não vou me sentir bem em casa.
- Aquele cara é um irresponsável mesmo.
"Psst", ela o repreendeu.
- Não fale isso na frente do Michel.
Mas o menino assistia a um desenho animado na televisão e pouca atenção dava aos dois. E o soro dependurado no suporte pingava o veneno químico em suas veias abertas nos bracinhos inchados.
- Bem, então terei que passar a noite contigo...
Resolveu ele, sentando numa cadeira. Clarissa pegou a bolsa e foi até a janela do quarto para acender um cigarro. Abriu a bolsa, pegou o isqueiro e, quando foi acender o cigarro, surpreendeu-se ao voltar o seu olhar para o formigueiro humano, logo abaixo. Num instante, ela colocou tudo de volta e ordenou para o marido.
- Vamos sair daqui do quarto. Michel, querido, nós vamos aqui fora tomar uma água e já voltamos...
Ela disse, arrastando o seu companheiro porta afora, deixando-o sem entender nada. Michel ficou sozinho no quarto assistindo ao seu desenho na TV. Alguns minutos depois deles terem fechado a porta, uma figura colorida aparece na janela. Michel reconhece o traje vermelho e azul, a capa e o "S" no peito e grita.
- Super-Homem!!.
Ele entra pela janela, saindo detrás das cortinas esvoaçantes.
- Olá, Michel. Eu vim te visitar, como tu querias...
À medida que o herói vai se aproximando do garoto, ele reconhece aquela figura imponente, um tanto surpreso.
- Ah, é tu papai.
- Sim, meu anjo. Sou eu.
- Como o senhor chegou aqui? É alto...
- Eu vim voando, Michel...
- Voando, pai?
O garoto ficou confuso, mas devia ser verdade. Eles estavam no quarto andar do hospital. Ele acreditou no pai, que continuou a história.
- Chegou a hora de eu te contar um segredo, que fica sendo só nosso... eu sou o Super-Homem.
Michel, envolto com máscara de oxigênio, olha atentamente para aquele homem próximo dele, tocando em sua fantasia com a ponta dos dedos, deslizando a mão sobre a capa vermelha e se questionando sobre algo que nunca tinha se dado conta. Seria possível?
- Verdade, pai? O senhor é mesmo o Super-Homem?
- Sim, meu querido. Eu nunca tinha te contado, nem mesmo para a sua mãe, porque... preciso manter em segredo. Mas eu sei que tu é corajoso... e eu confio em ti. Sei que guardará esse segredo e não vai contar para ninguém.
- Não vou não, se o senhor me diz para não fazer isso...
- Meu filho, eu quero dizer que nós te amamos e que tu é forte. Vai dar tudo certo. Vai te recuperar, sair desse hospital em breve. E nós poderemos nos divertir muito ainda...
- O senhor me leva para voar?
- Sim, eu te levo para voar... mas não hoje. Eu quero que tu descanse e continue sendo forte, sendo... de aço. A sua mãe precisa disso, eu preciso disso, que tu continue sendo corajoso, forte, porque tudo vai terminar bem. Tu vais ver...
- Eu acredito no senhor...pai, digo, Super-Homem.
- Esse é o nosso segredo...
O gigante beija a fronte do menino com muita delicadeza. Ele sorri. O pai olha para a janela da porta, vê sua ex-esposa acompanhando a cena com lágrimas nos olhos. Por um instante, o olhar dos dois se entrelaça e à distância parece dizer mais do que muito já disse quando estiveram próximos.
- Eu tenho que ir, meu querido.
- Eu sei, pai. O senhor precisa salvar as pessoas.
- Sim, é isso mesmo.
Ele se vira em direção a janela e olha para baixo. O pessoal do Corpo de Bombeiros o aguardava com uma grua de salvamento à altura do parapeito, como havia combinado com o capitão, que era seu amigo e estava lhe quebrando o maior galho de sua vida.
- Por isso o senhor foi embora, não é mesmo?
O pai vira-se com a pergunta do filho.
- O senhor não pôde ficar com a minha mãe para protegê-la... e não revelar a sua identidade...para poder continuar salvando as pessoas. Mas eu sei que o senhor a ama... ela é que nem a Lois Lane, né?

Por um instante, ele reflete sobre as palavras do garoto. Olha para as suas vestes, sentindo-se um tanto ridículo por estar naquela situação, com aquela fantasia ultrapassada de Carnaval. Como ele aceitou fazer isso? Em seguida, olha novamente para a porta, tentando vê-la, mas ela não estava mais lá. Volta o seu olhar para o filho.
- Esse é mais um segredo que nós dois vamos ter que dividir...

Ele se despede de Michel com o olhar, fecha a cortina e entra cuidadosamente na grua. Ele sempre teve medo de altura, mas teve de encarar esse medo por causa de Michel. Enquanto os bombeiros o descem lentamente, ele vai lembrando do telefonema que recebeu da ex-esposa.
- Ele quer conhecer o Super-Homem. E tu vai ser o Super-Homem dele...
Ela praticamente ordenou. Sempre foi boa em dar ordens.
- Olha, eu faria qualquer coisa por ele, mas...
Ele tentou argumentar. Mas ela sentenciou.
- Então, faça!
Ele disse "beijos", mas ficou no ar. Ela já tinha desligado. Foi a partir daí que ele começou a correr atrás de uma fantasia. Ela nunca imaginaria toda a peregrinação que ele fez até chegar à janela do quarto andar onde Michel estava. Em todo o trajeto elevado, na volta para o chão seguro, uma inevitável música não saía de sua cabeça: "Superman Theme", de John Willians.
............
Michel abraça a sua mãe com carinho.
- Eu te amo, mamãe. É a melhor mãe do mundo...
Pelo resto da noite ele se manteve feliz, disposto, com um brilho diferente no olhar, o qual esteve um tanto apagado. Perguntou dos coleguinhas da escola, falou sobre as coisas que gostaria de fazer quando saísse do hospital e deu boas risadas, apesar da voz rouquinha e fraca. Clarissa olhava para ele, frágil e lembrava de suas primeiras palavras, de seus primeiros sorrisos, de seus primeiros passos. Algumas noites de agonia ela o abraçou tão forte, como que desejando que ele voltasse para o seu ventre e, protegido de todo o resto, pudesse nascer de novo, saudável.
Mas, naquela noite, Clarissa se sentiu em paz e com a esperança renovada. Naquela noite, ela dormiu confortável na desconfortável poltrona ao lado de Michel, que também descansava do tormento das quimioterapias.
..........
No meio da noite, Michel acorda sentindo uma leve brisa no rosto. Levanta um pouco a cabeça e olha em direção a janela que estava aberta, fazendo com que as cortinas dançassem à mercê do vento. Do lado de fora, uma figura que ele conhecia bem. Era o Super-Homem, ou melhor, o seu pai. Michel livra-se da máscara de oxigênio, retira o soro das veias e levanta com suavidade, evitando acordar sua mãe, que dormia ao seu lado. Ele vai até a janela e vê o seu pai sorrindo e flutuando no ar.
- Oi, Michel. Ainda quer dar aquele passeio?
- Para onde o senhor vai me levar?
- Vou te levar para o céu, meu anjo. Vou te levar para voar...
O pai estende a mão, convidando. Michel aceita, mas antes corre até a sua mãe e lhe dá um beijo no rosto, carinhosamente.
- Eu estou pronto, pai.
Os dois se dão as mãos e em seguida começam a se afastar da janela flutuando. Michel se vê invadido por uma sensação indescrítivel, que jamais experimentara, sentia-se leve como uma pluma, tendo a brisa a lhe acariciar o rosto. Lá embaixo, via a cidade em movimento, a praça onde brincava com a turma, o seu colégio, a rua de sua casa, a piscina do vizinho, tudo pequenininho. Nesse momento, ele estava voando de mãos dadas com o maior herói do mundo, que era o seu pai. Viu-se invadido por uma sensação de amor infinito, de bondade suprema e teve vontade de agradecer por isso. Dali de cima, o mundo era muito mais bonito, organizado e tranquilo. Dali de cima, o mundo parecia estar em paz.
- Tu está pronto para voar mais alto?
- Para onde?
- Já te falei, meu querido...para o céu.
Michel vira-se para tentar enxergar o prédio do hospital, mas ele aparecia minúsculo, bem ao longe de onde estavam. Pensou na sua mãe, no sofrimento que ela vinha passando e no que iria passar. Mesmo sem conseguir enxergar (não tinha visão de raio-x), ele sabia que nesse momento, os médicos já estavam tentando trazê-lo de volta, em vão. Sabia também que sua mãe não se conformava e teve vontade de chorar. Mas estranhamente viu-se invadido por uma sensação de tranquilidade.
- Tudo é amor, meu filho...
- Pode me levar para o céu, sim, pai.

E os dois foram subindo cada vez mais, distanciando-se deste plano físico, superando a superfície, deixando para trás a estratosfera, a mesosfera,a atmosfera. Para o alto e avante.

4 comentários:

Anônimo disse...

Espetacular, guri! Teu talento dispensa comentários supérfluos; bom mesmo é vir aqui lê-lo. Um abraço trilegal do Jorge.

Tainã Steinmetz disse...

Esse conto é a tua obra prima. E é emocionante!

Abigail disse...

Lindo texto! Sua escrita é fantástica.

Ivânia Garcia Felipe disse...

Genial. Você é um mestre na escrita.