quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Guerra particular

A discussão se estendia, a ponto de terem perdido a noção de tempo. Podiam ter se passado minutos que eram como horas ou, de fato, longas horas de ofensas. O motivo? Nem lembravam mais. No momento em que defendiam seu front, novas munições eram utilizadas e lançadas em território inimigo e cada ataque resultava num contra-ataque. E a batalha se renovava a cada minuto. Cada qual, tentava gritar mais alto ou ter a última palavra, mas era praticamente impossível. Naquele momento, se odiavam mais do que tudo e levantar bandeira branca era inaceitável para ambos. Faziam uso de suas metralhadoras acusatórias mas, ao mesmo tempo, fingiam não se ferir. "Maldito dia em que te conheci. Você é a pior pessoa do mundo", ele disse. Foi nesse momento em que ela foi atingida.

Ela até que tentou encontrar alguma granada verbal para jogar no inimigo, mas não encontrou. Engasgou e as lágrimas lhe vieram aos olhos. Era hora de bater em retirada. "Eu te odeio", ela disse, enquanto se lançava para atravessar a rua e ir embora. Ele virou as costas e se foi para o outro lado, vitorioso. Cega de raiva, ela não enxergou o carro, que a atropelou. O grito dela lhe atingiu mais do que qualquer coisa. Ele se virou e viu o seu corpo de 1,60 ser arremessado a uma altura considerável e atingir o solo. Seu coração pesou uma tonelada. Instantes depois, a multidão se aglomerava em torno dela, que fechava os seus olhos. Ambulância. Hospital. Correria. Oxigênio. Médicos. Transfusão. Dois dias depois, ao abrir os olhos o viu. Com a mesma roupa, a barba crescida, com olheiras profundas. Ela suspirou. Ele se entregou às lágrimas. "Eu te amo", ele disse. "Eu sei", ela sorriu...

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