quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Sonata ao Luar


A vizinhança toda espiava pelas frestas. Alguns, passavam diversas vezes em frente a casa. Outros, mais ousados, estavam próximos ouvindo a conversa. E, alguns poucos, legítimamente estavam preocupados com o destino daquele jovem viúvo. Sua irmã amparava a filha dele, Thaís, de apenas oito anos, que chorava a ausência do pai. A tia a consolava com "shsss" e "está tudo bem". Não. A menina sabia que não estava tudo bem. E chorava a doída ausência do pai, sentindo-se sozinha, sentindo-se culpada. Mesmo sem ter culpa de nada. Um policial surge do quarto de Thaís com uma caixinha de música nas mãos. "Encontrei algo", ele diz, abrindo a caixinha, fazendo com que o som de "Sonata ao Luar" invada o ambiente, ao mesmo tempo que uma delicada bailarina de plástico dança ao redor de si mesma. Na tampa, uma carta grudada com duréx, dobrada e com um nome escrito com caneta colorida. "Thaís", sendo que o desenho de uma flor ocupava o lugar do pingo no "i". Sua irmã suspira.
- Uma carta de despedida? Ele se suicidou mesmo?
Ela desabafa, ignorando por um instante -e se arrependendo em seguida- a presença de Thaís. A menina corre para pegar a carta, mas o policial intervém.
- É uma evidência. Vamos analisar primeiro.
Um dos vizinhos que sai da casa logo conta para outro.
- Ele se matou. Deixou uma carta de despedida para a filha...
Logo, a história era repetida. Pobre rapaz, viúvo há poucas semanas, não tinha aguentado o peso sob seus ombros e, covarde, largou a filha à própria sorte, tornando-se órfã em poucos dias. A madrinha da menina tenta lhe dar algum calmante. Ela rejeita.
- Quero ler a carta. Ela é minha
Diz afrontando o policial. Seu superior consente com a cabeça. Thaís abre a carta que, em cujo interior, encontrava-se acomodada as alianças de seu pai e de sua mãe. Sua tia começa a chorar, imaginando o pior. Com sua voz de anjo, a menina começa a ler.

"Thaís, eu te amo, minha filha. Quero que saiba disso, em primeiro lugar. E, sim, sou um covarde. Os últimos dias foram piores do que imaginei que seriam. Eu achei que estava preparado para eles, mas foram mais pesados do que qualquer fardo que eu jamais suportei. Sua mãe foi a mulher da minha vida e perdê-la foi como perder a minha própria vida. Não posso olhar para o seu lugar na mesa, seu travesseiro, sua parte no guarda-roupa, seus shampoos. Tudo que era tão simples e tão singular, hoje se tornou algo doloroso. O cheiro dela nas suas roupas é torturante. Desculpe, minha filha, eu chorei tanto durante esses meses. Achei que tinha chorado tudo, que as lágrimas cessariam e que seria capaz de me reconstruir. Mas não dá. Achei que o pior dia da minha vida tinha sido aquele, em que os médicos disseram que ela teria apenas seis meses de vida. Desde aquele dia, cada dia era menos um dia ao lado dela. E eu comecei a pensar em coisas que jamais quis pensar. Planejar como seria o seu velório, o seu enterro, que pessoas compareceriam. Sua mãe, na maioria das vezes, estava resignada, forte e isso me destruia porque eu só sabia chorar, cada vez que ela me olhava com aqueles seus olhos meigos e cheios de amor. Mas tinha vezes em que ela acordava chorando, aninhada em meus braços, dizendo que não queria morrer. E eu ali incapaz de qualquer coisa a não ser chorar junto e me prender a cada som de sua respiração, contar cada batida do seu coração, gravar a textura de sua pele na ponta de meus dedos. Mas quando amanhecia, lá estava ela, sorrindo para mim. Sorrindo para você. Lembro as vezes em que ela telefonava para alguém, pedindo desculpas por alguma coisa que tenha ocorrido no passado. Coisas bobas. Ela chegou a ligar para colegas de aula de muito tempo, desculpando-se por coisas de criança. Sua mãe dizia que não queria deixar nada pendente e que era agradecida por todos que tinham feito parte de sua vida e que todos tinham sido importantes para ela. Sua mãe era assim: só amor. Essa caixinha de jóias foi o primeiro presente que eu dei a ela e ela tem um grande significado para a nossa história. Por isso, deixei essa carta aqui, me despedindo de você, me despedindo de todo o resto, porque não consigo aguentar mais a ausência dela. Sei que você ficará bem com sua tia. Preciso de um tempo para pensar. Papai te ama".

Ela termina de ler, chorando. Olha para a sua tia, também com os olhos em lágrimas.
- Eu quero o meu pai
Thaís, joga-se nos braços da tia. Os policiais comentam entre si.
- Infelizmente, parece que o sumiço dele pode indicar isso: suicídio. Resta descobrir onde está o corpo.
O delegado começa a dar orientações de diligências a serem feitas, contatos a serem estabelecidos. O murmurinho dos vizinhos aumenta. Thaís limpa as lágrimas e abre a caixinha de música para depositar as alianças. Todos silenciam e, em meio a esse silêncio, a pequena multidão vai abrindo espaço para alguém que entrava na casa: o pai de Thaís. Ao vê-lo, ela larga a caixa em cima do sofá e corre para abraçá-lo, chorando muito.
- Me perdoe, meu anjo. Papai teve um instante de covardia. Mas já passou. Me perdõe por isso. Eu te amo muito, muito, muito. E você é a prova vida de nosso amor, meu e de sua mãe. Me perdoe por ter esquecido disso e feito o seu coraçãozinho doer mais uma vez. Eu te amo...
A menina abraça o pai com toda a força, ao mesmo tempo em que a bailarina dança ao redor dela mesma ao som de "Sonata ao Luar"...

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