sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Um dia em que o mundo não acabou...

Ele não tinha muitas lembranças daquele dia. Cada vez que tentava se lembrar, pouca coisa vinha a mente. Algumas imagens, talvez, que antes eram cristalinas, hoje um tanto enuveadas pelas brumas do tempo, mesmo que não tenha sido há tanto tempo. As lembranças lhe pareciam mais vivas no peito. Dava uma sensação esquisita que parecia surgir como que um friozinho na barriga, que ia subindo e dava uma paulada no coração. É aí que ele sentia que sentia muito mais que era capaz de lembrar. E é aí que ele sentia que a mente pode até mentir e ir deletando o seu arquivo de imagens aos poucos, mas o coração não. Engraçado, naquele dia não há notícias de que tenha ocorrido algum eclipse lunar ou solar. Nem se houve a passagem de algum cometa. Não se sabe da ocorrência de algum fenômeno sobrenatural, ou que tenha sido avistado algum disco voador, se houve quebra na bolsa de valores, nem da queda um avião, se alguém recebeu um prêmio Nobel, se houve alguma possibilidade de paz mundial ou se algum maluco quase apertou o botãozinho vermelho e disparado milhares de bombas nucleares. Naquele dia, nem mesmo há notícias de que alguém tivesse ganhado sozinho na Mega Sena acumulada, nem que a cura do câncer tenha sido anunciada. Daquele dia, também não há lembranças menores como a do vôo de um colibri, ou que alguém tenha recebido flores, ou mesmo de crianças jogando bola na rua, ou que um senhor tenha tirado o chapeu e desejado "um bom dia". E,a ssim, nada de especial parece ter acontecido naquele dia. Um dia como qualquer outro, que poderia ter sido deletado do arquivo de sua vida como qualquer outro. A não ser por um detalhe, que fez toda a diferença: foi naquele dia que ele cruzou o olhar com o amor de sua vida. E mesmo que tivesse acontecido tudo o que ele pensou que pudesse ter acontecido, naquele dia nada mais no mundo importaria.

Um comentário:

tainã disse...

Obrigada...