domingo, 2 de setembro de 2007

Sobre as vaidades tolas que alimentamos e sobre as lágrimas que não derramamos...


Se existe um pecado capital que me irrita e me enoja é a vaidade. E, ao dizer isso, talvez eu esteja tomado por um dos sete pecados capitais: a ira? Talvez. Acontece que não há nada mais imbecil do que ser vaidoso. Não há nada mais imbecil do que alguém se achar especial. A vaidade é um pecado capital que manifesta uma ignorância completa e que causa uma cegueira. Não me refiro àquela vaidadezinha de se arrumar em frente ao espelho. Não é essa vaidade. A vaidade que me preocupa é aquela em que o sujeito fica se "achando" porque tem mais amigos influentes ou porque tem uma cartão Visa Internacional ou porque tem mais bois ou porque tem o carro do ano ou porque o "seu" doutor lhe rende mesuras ou porque o "seu" político lhe presta favores ou porque desempenha tal ou qual função ou por um monte de etcs desse tipo. Todo aquele que é vaidoso a esse extremo é também um tolo de marca maior. Há gente que se vangloria de conseguir coisas de graça (que outros tem de pagar), porque desempenha algum tipo de atividade que é considerada mais especial e aí vem algum "coronel" e oferece benefícios para aquela pessoa, que sente envaidecida e, em contrapartida, rende puxa-saquismos aos seus beneficiários. É uma relação simbiótica essa, movida pela vaidade. Hipocrisia pura. Há também vaidosos que se acham humildes, sem reconhecer que a humildade não é laranja de amostra para ser apresentada "eu sou humilde". Jamais. A humildade é, sem dúvida, uma qualidade rara e não regula com a condição social de alguém. A humildade verdadeira é qualidade invisível aos olhos e não serve para alimento à vaidade. A humildade verdadeira é simbolizada da forma que foi manifestada por Cristo ao lavar os pés de seus apóstolos. Quem é capaz disso, de ser um grande líder, mas também estar pronto para servir? Há algum tempo, escrevo nesse blog e tenho uma coluna no jornal Expresso Ilustrado há alguns anos. Sei que escrevo de forma coerente. Afinal de contas, desde criança leio de tudo e aprendi a desenvolver uma linha de raciocínio clara. As pessoas lêem o que eu escrevo. Até recebo alguns elogios sobre o que eu escrevo. Uns verdadeiros, outros nem tanto...

Agora, eu ficar me "achando", me envaidecendo por causa disso, é o fim da picada. A mim, interessa muito mais receber um presente de um amigo, do que alguma benesse interesseira. Prefiro muito mais ganhar um pote de chimia da minha vizinha, que simplesmente gosta de conversar comigo, do que quilos de carne no açougue de algum coronel, que tem interesse que eu fale bem dele. A mim, me interessa muito mais ser convidado para comer um pastel com algum amigo, do que estar junto a uma mesa farta ao lado da elite aproveitadora e falsa que dá tapinha nas costas e faz alimentar vaidades com elogios mentirosos. A mim interessa muito mais estar ao lado das pessoas simples, que fazem e sempre fizeram parte da minha vida, do que usar e dispor da falsa amizade de pessoas influentes, que tem a possibilidade de fazer algo pelo seus semelhantes e só o fazem para seus bolsos e interesses. Não me considero e jamais vou me considerar especial e nem render tratamento especial para esses que se consideram especiais. Amo pessoas simples. Os grandes amigos que tenho são para toda a vida e não troco suas amizades por nada. São todos especiais porque são simples, sem frescuras, desprovidos de vaidades.

Um dos meus melhores amigos, o Francisco, por exemplo, não sabe escrever no sentido de expressar aquilo que sente. Seria um dos maiores críticos de cinema desse país, se soubesse escrever. Já assistiu mais de 8 mil filmes e sabe, num diálogo, emitir suas considerações críticas sobre tais produções. No entanto, não consegue colocar isso no papel. Eu consigo. E agora, pergunto: o que isso me torna mais especial do que ele?? Absolutamente NADA!!! Muito antes pelo contrário. Se tenho um dom, uma faculdade, uma facilidade em me comunicar, isso não me é motivo para me considerar "especial". É, sim, uma grande responsabilidade que tenho. Se Deus me concedeu o dom da escrita, da comunicação é porque me cabe ser um instrumento de algo maior e não satisfazer meu bel-prazer, ficar me "achando". E jamais vou usar da escrita, ao escrever publicamente, para elogiar quem não mereça. Para mentir. Para mascarar. Todos que vivemos em sociedade temos a responsabilidade sobre nossos atos. E todos que temos a possibilidade de fazer o mínimo em favor de outra pessoa e não o fazemos por inércia, temos uma culpa muito maior do que aquele que não quis fazer. Por exemplo, considero que a política é uma ciência em favor da coletividade, um instrumento que existe para ser usada em benefício de todos. E todo aquele que usa desse instrumento para tirar proveitos individuais (e quando digo individuais, me refiro para si e para grupos) é aquilo que se convenciona chamar de aproveitador.

Todo aquele que se utiliza da esperança de alguém, do voto de confiança de alguém, da expectativa de alguém, que explora da miserabilidade para se enaltecer, este tem a sua recompensa reservada, mais cedo ou mais tarde. Neste ponto, devo dizer que, sim, acredito em Justiça Divina, acredito em Deus, acredito em Jesus Cristo. E, também quero dizer que, não, não acredito em religiões. As religiões são instrumentos usados pelos homens. E tudo aquilo que homens fracos põem a mão se deteriora. Homens com o toque de Midas ao contrário. Ao invés de tornar ouro aquilo que tocam, fazem com que apodreça. E a religião, em geral, é assim: está apodrecida e serve a propósitos individualistas, tendo como produto-chefe a fé, seja em Deus ou Jesus. As religiões fizeram de Jesus Cristo um produto mais rentável do que a Coca-Cola. Assim como a política desvirtuou-se de seu propósito. Por isso tenho nojo de gente vaidosa, que fica se engrandecendo com status ou posição social. E a tais pessoas me cabe combater.

E rogo que, se um dia, eu vier a me corromper, trair os princípios que carrego, alguém me derrube com a espada da verdade e da justiça. Não descarto essa possibilidade, afinal de contas, sou humano. O que não é desculpas para não ter consciência sobre meus atos.Outro dia, numa postagem do blog do meu amigo Júlio Prates, uma foto e um relato sobre a vida dos que vivem à margem da sociedade, dos que vivem embaixo de pontes, viadutos e marquises de Porto Alegre (foto acima). O Júlio, aliás, é uma pessoa que tem uma visão surpreendente e bastante humana, é um sociólogo que sempre faz considerações pertinentes, instigantes e inquietantos em sua escrita. Mas, como dizem, uma foto vale mais do que mil palavras. E na imagem acima, captada por um jornalista e sociólogo, não é necessário dizer muita coisa: a imagem fala por si. Seres humanos envoltos em cobertores rasgados e fedidos. Seres humanos regidos por uma única lei: a lei do estômago. Que os faz mendigar por um pedaço de pão. Que não se importa com olhares penalizados ou com a displicência de quem faz de conta que não os vê, que não os enxerga. Estão ali como cães, àqueles cães que recebem as migalhas que sobram de nossas mesas. Malditos esses seres humanos que enfeiam nossas capitais. É uma condição sub-humana que faz pensar num tempo em que, dizem, nós todos habitávamos cavernas. Vivíamos assim também, pela lei do estômago. Tempos antigos que as produções hollywoodianas ou os historiadores nos dizem que a humanidade vivenciou e que se prestava a uma vida animalesca. E se todos éramos iguais há tanto tempo, como ficamos hoje tão desiguais? Se antes vivíamos com tão pouco, porque hoje temos que viver com muito?

E será que ninguém vê que o fato de tantos viverem com muito causa esse desequilíbrio que nos faz ver nossos semelhantes maltrapilhos e famintos pelas ruas? E se há tanta coisa no mundo, se tudo o que há fosse dividido, quem estaria disposto a diminuir sua condição social em nome da igualdade? Por isso, digo que a vaidade me enoja. Não sou nada diferente daquelas pessoas que obedecem à lei do estômago pelas ruas da capital. Também sou regido pela lei do estômago, com a diferença que posso comer a hora que eu quiser e eles não. Tem que passar por muitos "não tenho hoje", até encontrar aquela pessoa que lhes alcance uma moeda que sirva para comer um pedaço de algo. Por isso digo, meus amigos, meus poucos amigos que tenham chegado até essa parte desse longo texto: a vaidade é um pecado absurdo. Envaidecer-se de qualquer coisa nesse mundo é, simplesmente, absurdo. É um ato de ignorância, um ato de violência contra a própria humanidade que carregamos dentro de nossos peitos. Em cada ser vivente, bate um coração. Em cada ser vivente, há uma parcela divina. E como podemos tantos, que dizemos acreditar num Deus cuja mensagem maior é a da igualdade e a do amor ao próximo, querer se envaidecer por possuirmos uma condição especial? Como posso querer achar que sou especial porque escrevi tudo isso? Tudo isso, meus amigos, poderia ser resumida apenas por uma única coisa: uma lágrima. E alguém pode se envaidecer de ser capaz de derramar uma lágrima?

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