sábado, 1 de setembro de 2007

Escola da vida

Raul Seixas fez questão de se formar em Direito. Ele costumava dizer que iria concluir o curso para mostar que "era fácil ser burro". Do seu jeito e irreverente, o roqueiro disse algo semelhante ao que o pajeador Jaime Caetano Braum, aqui das Missões, também falou. Ele disse que "diploma não encurta o tamanho das orelhas". Através desses dois exemplos, quero dizer que formação é apenas informação. E qualquer um pode ter informação. Ela está aí ao alcance de todos e há, senão, um mar de iguais buscando ser iguais a outros iguais. Todos esses, deixando que a corrente os leve. Difícil é aquele que nada contra a correnteza, braçada a braçada, superando os seus próprios limites.
------
Quando eu estudava na 4ª série do ensino primário, na escola Sílvio Aquino, lembro de uma palestra que foi proferida pelo advogado Tito Becon que, na época, se não me engano era presidente da Casa de Cultura. E, enfim, esse era o tema de sua palestra: cultura. Lembro que, numa classe com mais de 30 alunos, o Tito falou algo que me fez refletir, quando eu tinha lá os meus 10 anos de idade. Olhei para os colegas com os quais dividia o meu dia-a-dia: o João Batista, o Éder, o Jeferson, a Simone, o Volmeres, o Pedro, a Valandra e outros tantos. Naquele exato momento, sabia que no futuro, somente eu lembraria daquelas frases do Tito Becon e que eles todos esqueceriam delas. Não sei se, hoje, algum daqueles meus ex-colegas lembram o que o Tito Becon falou. Mas eu jamais esqueci. Ele contou o seguinte:

"Estava numa viagem ao Pantanal, onde passava férias com alguns amigos Éramos médicos, advogados, empresários. Estávamos lá passando alguns dias conhecendo aquele pedaço de um Brasil selvagem e encantador. Tirávamos fotos de tudo e já tínhamos muitas histórias para contar assim que retornássemos aos nossos lares, em Santiago. Certa noite, combinamos de ir pescar no rio. E, assim, pagamos para que um pescador nos acompanhasse e servisse de guia pelas águas perigosas dos rios do Pantanal mato-grossense. Ele conduzia o bote, enquanto nós ali estávamos entretidos com nossas varas de pescas. A única iluminação que tínhamos, além da lua e das estrelas, era a do lampião. Ríamos, contávamos causos e pescávamos. De repente, um barulho na água fez o pescador mudar a expressão de quem estava acostumado com a algazarra de turistas. Demonstrou preocupação e fez com que nos preocupássemos também.
- O que houve? Que foi esse barulho? Não vá dizer que é um jacaré...
- Pior -disse o pescador- É uma sucuri.
Naquele momento, o pavor tomou conta de todos nós. Não sabíamos o que poderia acontecer com a gente. Estávamos todos ali, encolhidos, com medo das sombras, com medo de barulhos, com medo da batida da água no nosso bote. Sentíamos que a qualquer momento, aquela sucuri pudesse pular para dentro do bote e arrastar algum de nós. Seria o nosso fim. Naquele momento, também pensei que de nada valeria os diplomas, nossos anos de estudo, nossas viagens, nossa cultura. Nada do que sabíamos sobre a vida, o acúmulo de conhecimento que tínhamos, nada nos ajudaria nesse momento. Só alguém tinha cultura suficiente para garantir que iríamos nos salvar: o pescador. E, naquele momento, percemos que somente a cultura e a vivência daquele pescador importava e nada mais. Graças a Deus, estamos todos bem, graças àquele homem, que mal sabia ler e escrever".

Moral da história: Jamais devemos subestimar a cultura e conhecimento de qualquer pessoa que seja, pois todos temos algo a aprender com o outro".

E, assim, ilustrando dessa forma, quero dizer mais uma vez que diploma não encurta as orelhas e que é fácil ser burro. Basta ficar achando que por se ter um diploma universitário se é mais especial ou se tem mais direito à vida, ou mais direito a respirar, a escrever, a existir, a expressar a sua opinião do que quem não tem. Quem pensa o contrário, precisa urgentemente aprender com a escola da vida.

Nenhum comentário: