quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Vida & Morte


Eram irmãs e tinham funções semelhantes e a mesma importância para o equilíbrio do universo. De vez em quando, até cruzavam caminhos, mas nunca cruzavam olhares. Cada qual fazia o seu trabalho, silenciosamente, sem se importar com a outra. Ouviam lamentações a respeito de uma e de outra, e admiravam-se mutuamente, sem nunca terem trocado uma única palavra. Certo dia, porém, um golpe do destino, fez com que algo mudasse. Uma humana estava com dificuldades no parto e havia risco tanto para ela, quanto para a criança em seu ventre. Seu esposo, ébrio, aguardava desesperado no saguão do Hospital. Ajoelhado no chão ele rezava pela vida de sua amada e e seu herdeiro. Eis que uma bela mulher de vestes alvas, aproxima-se, compadecida de sua dor e toca-lhe a face.
- Acalma-te, criança. Conheço-te deste o teu primeiro choro. Sois incapaz de compreender o tênue véu da existência. Não te desesperes", ela o consola.
Ele rechaça, gritando.
- Não sabe do que está falando. É a minha mulher e o meu filho que podem morrer!
- Nada acontecerá com teu rebento. Eu sou Vida e acompanho o teu filho...

Num piscar de olhos, a mulher desaparece de sua visão, como se nunca tivesse estado ali. Alucinação? Na sala de parto, ela contempla o desespero de uma mãe, com lágrimas, suor e sangue no rosto, dando suas últimas forças para que o filho nascesse. Ao seu lado, uma jovem de trajes escuros e olhos negros. Alguém que ela conhecia muito bem: sua irmã, Morte. Foi a primeira vez que elas cruzaram seus olhares infinitos. Foi nesse instante que as duas se apaixonaram...

Os médicos faziam de tudo para salvar a vida da mãe e de seu filho durante o parto, desconhecendo que eram anfitriões das Eternas, invisíveis aos seus olhos. Os aparelhos indicavam que aos poucos a mãe ia se despedindo da vida. A Morte, ao seu lado, encarava Vida à sua frente. Uma, indicava a luz para a criança que nascia. A outra, aguardava a mãe, para acompanhar-lhe até a porta de saída.

- "Ramente nos cruzamos, não é mesmo?", disse Morte.
Vida sorri. O menino está nascendo.
- "Nascido do sangue ele vem ao mundo. Seu pai o aguarda, acreditando amá-lo desde já. No entanto, desconhece seu destino, tampouco sabe de onde veio este ser. Só o amor de uma mãe é algo infinito. Ela se esvai para que a criança alcance minhas mãos. Te peço que não a tome ainda", diz Vida.

- "Teus olhos são lindos. E tristes", diz Morte.

- "Atendo teu pedido em troca de um beijo", oferece Morte. Mesmo ansiando por isso, Vida repreende.

- "Como podes negociar um capricho em troca de algo que não te pertence?".

Morte chega bem junto de Vida e a encara de perto.

- "Acaso os deuses não podem manifestar seus caprichos? Só quero sentir teus lábios e a mulher poderá dar a luz", barganha.

Vida a encara.

- "No momento em que a vi, tomei-me de um sentimento comum aos humanos. Poderia acariciar o teu rosto e entregar-me aos teus braços. Amo-te. Mas nego-te. Pois meu amor pelos pequenos é maior".

Morte meneia a cabeça.

- "Eis a tua criança".

O médico retira a criança, que recebe o sopro de Vida e chora. A mãe sorri e derrama a sua última lágrima. Morte lhe toca a fronte e lhe suga o sopro, que Vida concedera para aquela fêmea há um par de décadas atrás.

- "Alguém nasce, alguém morre. Triste sina", ela ironiza.

- Notaste como somos parecidas? Tu as retira de um lugar e as conduz até aqui. Eu as retiro daqui e as levo para outro plano. A diferença é que eles te celebram. A mim, eles temem. Terrível simetria", diz Morte enquanto ampara a jovem mãe, que não compreende o diálogo que testemunha, e chora ao tentar abraçar o filho com seus braços intangíveis, que não conseguem tocar o pequeno corpo que repousa nos braços do médico.

- "Ela morreu", diz uma enfermeira, observando os sinais vitais.

- "Fazer o quê?", dá de ombros Morte.

- "Espere. Façamos um acordo. Hoje, nesse instante, te peço que não cumpras a tua função. Não a leve e deixe que eu sopre novamente a sua face para que não se desampare a este pequeno que recém cruzou o véu".

Morte encara vida.

- "E?".

Vida chega próximo da irmã.

- "E dar-te-tei aquele beijo...que eu mesma sinto desejo".

Morte acaricia os cabelos de Vida.

- "Veja só. Caprichos de uma deusa. Mas tu bens sabes que preciso levar alguém que esteja contigo". Vida consente.

- "Mas não a estes, eu te peço".

Morte concorda.

- "Dê-me teus lábios...".

E as duas se beijam. Enquanto isso, os médicos comemoram a retomada dos sinais vitais da jovem mãe.

- "Ambas somos infinitamente belas juntas", diz Morte para Vida antes de se despedir. No corredor, alguém vai até o pai dar a notícia de que mãe e filho estava bem. Mas um ataque cardíaco fulminante o encontrara antes...

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