segunda-feira, 3 de setembro de 2007

De um suicida

Ele acompanhava notícias sobre suicídios, mas não se prendia a aspectos emocionais. O que questionava era por que tal ou qual método havia sido escolhido ao invés deste ou daquele. Para ele, esse papo de que a existência é sagrada era furado. Desacreditava de qualquer existência não-material. "Deus? Tolice, ilusão, alucinação coletiva. A pessoa morre e se apaga. Vira pó. Se acaba", dizia. Mas, ele não era tão frio quanto aparentava. Certa feita, se apaixonou. Se não fosse ateu, diria que os olhos da amada eram divinos. Se acreditasse em anjos, afirmaria que ela era um. Se acreditasse em Deus, diria que ela era sua alma-gêmea. À ela dedicou a vida. E, quando a perdeu, à ela dedicou sua morte. Não suportava a dor física no peito por perdê-la. A vida tornou-se um fardo e não importava o amor da família ou dos amigos. Não existiam mais sonhos ou primavera. Morreria por aquele amor. Iria apagar a sua existência. Viraria pó. Se acabaria. Assim, matou-se.
A dura realidade: tão logo a força vital abandonou seu corpo, foi arrastado para outro plano. Descobriu que, sim, existia vida pós-morte. E tão verdadeira quanto aquela que tinha abandonado. Abriu os olhos e viu-se fincado junto a um solo mortificado e podre, cheio de cadávares lamentosos. Ele, na forma de uma árvore humanóide, inerte. Fazendo-lhe companhia, hárpias terríveis que arrancavam pedaços de sua carne para se alimentar. Olhou para os seus braços, transformados em galhos e viu pendurado, balançando como roupa no vento, o seu corpo vazio. Sentia dores inimagináveis, com sua carne sendo rasgada, constantemente. Por vezes, frio intenso. Por vezes, calor insuportável. Gritou, chorou e compreendeu que aquela era a sua pena eterna por ter negado a própria vida, por ter sido estúpido, egoísta e cometido suicídio.

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