sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Cinzas mitológicas

Publicado no jornal Expresso Ilustrado, de14 de setembro de 2007

Em determinada cidade, algumas pessoas diziam ter visto um gigantesco pássaro com penas cor-de-fogo cruzar pelos céus, entoando um canto melodioso e triste. A notícia se espalhou de que se tratava de uma ave rara e, por isso mesmo, caríssima. Encontrá-la seria comprovar a existência de um mito antigo e conquistar status e dinheiro. E, assim, alguns se puseram à procura daquele pássaro, não logrando êxito. Nesse tempo, o mundo estava mergulhado na escuridão da ganância e do individualismo. O mito do pássaro ganhava notoriedade e instigava o deboche, tal qual se debochou do famoso chupa-cabra.
No entanto, foi numa tarde de verão que o pássaro surgiu nos céus, aos olhos de todos, tal qual era descrito pelos rumores. E entoou o seu canto por onde passou. Em seu íntimo, o pássaro despertou a força naqueles que eram fracos, a coragem nos que eram covardes, o amor nos que nutriam sentimentos nobres, a esperança para os desesperançosos e a alegria para quem estava triste. Também despertou o arrependimento nos corações trevosos. E as lágrimas rolavam no rosto de todos os que contemplaram aquela raridade, que tinha algo de divino e, talvez, de profano. A ave pousou nos galhos de uma árvore na praça e todos correram para observá-la, tirar fotos e admirar a sua beleza. Foi quando um tiro abriu um rombo no peito da ave, que tombou fulminada. A multidão se voltou para o homem armado. Por um momento, todos o encararam, resignados. Mas antes que ele pudesse dar um passo, cairam em cima dele, raivosos, desarmando-o e chegando a linchá-lo por ter dado fim a algo tão belo. Foi quando alguém apontou para o pássaro, que havia sumido. Em seu lugar, apenas cinzas...

Um comentário:

Lu disse...

Fala Márcio. Tudo bem?
Gostei muito deste conto. Parece muito com outro conto, a da Galinha dos Ovos de Ouro, onde a ganância, digamos, secou a fonte do seu dono.
Ótimo fds. Abração do Lu.