sábado, 4 de agosto de 2007

I'll be there for you

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Era uma sensação mais forte do que ele próprio. E olhe que ele era uma pessoa determinada. Porém, determinação alguma resiste a uma noite de intensas bebedeiras. Ele havia decidido correr o mundo, pôr uma mochila nas costas e se aventurar sem destino (ou seguir seu destino), desgarrado de mordomias. Ficaria algum tempo fora, talvez ele nem voltasse. Por isso, a festa de despedida organizada pelos velhos amigos proporcionou momentos de farra e muita emoção. Seriam lembranças que lhe fariam companhia em sua solitária jornada. Ele não pretendia deixar nada para trás, nenhuma raiz que o prendesse a cidade onde nasceu e na qual tinha vivido sua história de vinte e poucos anos. Havia concluído a faculdade, e queria se distanciar de tudo aquilo: estudo, trabalho, ex-amores. Mas queria acertar as contas com o coração e não tinha porque ter medo de nada. Já que se jogaria numa viagem incerta, não queria ficar pensando no que deixou de fazer. Encorajado pelos litros de vinho que consumiu, deixou-se levar por aquela sensação de euforia que estava sentindo, pegou o violão desafinado de um amigo e tomou o caminho da casa de uma antiga paixão. Ele nunca foi muito romântico, nem sabia cantar ou tocar droga alguma. Mas não seria isso que o impediria de fazer uma serenata:

"Ill be there for you, these five words i swear to you. When you breathe i want to be there for you. I'll be there for you".

Cantou até não poder mais, até ficar rouco. Mas não viu qualquer sinal de interesse por parte dela, o alvo de sua sofrível cantoria. Nada, nem uma luz acesa ou uma simples sacudida na cortina. "Bem, quem ainda gosta de Bon Jovi hoje em dia?". Só mesmo ele e os fãs mais apaixonados. Até pensou em mudar o repertório e cantar alguma outra música, mas o efeito-vinho não o deixava lembrar de nada. Não conseguia pensar em nenhuma outra canção. Era hora de ir para casa. Havia colocado tanta emoção para fora tanta emoção reprimida que se sentiu em paz consigo mesmo. Mesmo em um inglês sofrível disse tudo o que gostaria de ter dito muito tempo atrás quando as coisas poderiam ter sido diferentes e a vida hoje poderia ser outra. No outro dia, depois da ressaca ajeitou as mochilas na moto. Na bagagem, nenhuma foto. Além das roupas, apenas alguns CD's. Demorou um pouco para se despedir da mãe, preocupada se ele levava agasalhos suficientes. Ela insistiu para que ele, ao menos, fizesse uma última refeição feita por ela. Depois, ele partiu, resistindo a vontade de passar em frente a casa dela, uma última vez. Centenas de quilômetros mais tarde, num bar à beira de estrada, foi pegar sua jaqueta na mochila e encontrou um bilhete que sabe-se lá como foi parar ali. "Eu posso te prometer o amanhã, mas não posso trazer de volta o ontem". Ele sorriu. Ela ainda gostava de Bon Jovi...

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