quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Sabedoria popular

Seu Silva não tinha muito estudo. Ele dizia que sua maior escola foi a vida. Seu neto, Pedrinho, gostava de passar as férias com o avô, que sempre tinha alguma história ou filosofia para passar. Lá pela vila, naquele fundão de interior, existia um sujeito que tinha adoração por fofocagens, o Zé Corvo. "Um alcaide", como definia o seu Silva. Ninguém da vila dava crédito para o sujeito, a não ser o dono da venda, que gostava de estar bem informado. Para ele, era cômodo ter um sujeito volúvel como Zé Corvo do lado. Fora ele, todos eram desgostosos com aquele língua-de-trapo, sempre assuntando sobre a vida alheia, contando contos e aumentando pontos. Pois bem. Um dia, seu Silva cruzou por um amigo, que queria degolar o tal alcaide por umas intrigas que ele tinha feito. Seu Silva aconselhou. "Perdoe seus inimigos. Mas não esqueça seus nomes". O amigo se acalmou e foi para casa. Pedrinho perguntou. "Essa é do Kennedy, né vovô?". Seu Silva respondeu. "Não, meu neto. Que eu saiba, é do general Bento Gonçalves".

Dias depois, Pedrinho soube que andavam dizendo que o seu Silva tinha um caso com uma solteirona da igreja, pura fofoca do Zé Corvo. Sua primeira reação era de dar uns estouros de facão no bobalhão. Mas depois pensou que ele era um infeliz mesmo. Pedrinho estava indignado. "Meu netinho, aprenda: vida longa aos seus inimigos para que possam aplaudir em pé a sua vitória". Pedrinho pensou e disse: "Essa é do Mark Twain, né vô?". Seu Silva respondeu que era do Garibaldi. Certo dia, um alvoroço na vila. Pedrinho veio correndo. "Botaram fogo na casa do Zé Corvo". Enquanto muitos diziam que aquilo era bem-feito, seu Silva tomou uma decisão. Ofereceu um galpão que ele tinha nos fundos de casa para que o Zé Corvo se ajeitasse por uns dias. Depois, Pedrinho questionou o avô. "Mas vô, ele falou mal do senhor e de todo mundo. Para quê ajudá-lo?". Seu Silva olhou bem para o netinho e respondeu. "Jamais devemos esperar dos outros o que estamos dispostos a fazer por eles, assim como também jamais devemos deixar de fazer o que a nossa consciência nos diz que podemos fazer". Pedrinho pensou, pensou e questionou. "Essa eu não conheço. É do Garibaldi?". Enquanto fechava um "paieiro", seu Silva repondia. "Também não sei de quem é. Essa eu li na traseira de uma carroça de melancia"...

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