sábado, 21 de julho de 2007

O chimarrão do pai

O pai ainda morava no velho rancho. Foi lá que ele construiu a sua vida e criou o único filho. Hoje, o velho morava só. A companheira de tantos anos tinha passado para o outro lado. Ele acreditava que ela o estaria esperando quando chegasse a sua vez de partir. Ele mateava ao final de uma tarde, quando seu cachorro, o Magrão, começou a latir. Viu o seu filho chegando, abrindo a portão e indo até ele, pronto para abraçá-lo.

- Olá, meu pai. Vim tomar um chimarrão contigo...
O velho se emocionou em ver o filho e o abraçou. Fazia anos que o guri tinha casado e ido embora. O velho encheu a cuia e alcançou para o filho. Ele parecia diferente, com um olhar mais maduro.
- Pai, quero te dizer que tudo o que aprendi contigo foi valioso. Que devo ao senhor tudo o que sou...
O velho balançou a cabeça.
- Deixa disso, guri. Tu é muito mais sabido que eu, um ignorante. Fez tua vida e ganhou o mundo...
O filho sorriu.
- É, eu tinha essa idéia tola de querer ganhar o mundo, de querer vencer, acumular riquezas, de ter uma vida melhor. Eu achei que sabia muita coisa, que iria mudar muita coisa, que iria ganhar muitas coisas. Mas, pai, te digo: não há riqueza maior do que o amor que o senhor e a mãe me deram. Não há, para mim, outro lar nesse mundo, senão aqui, onde nasci. O engraçado é que eu tive que sair daqui e percorrer o mundo para descobrir que tudo o que eu mais precisava para ser feliz sempre esteve aqui, exatamente do lugar que eu deixei para trás. O telefone toca dentro da casa. O velho se levanta.
- Vai enchendo o mate que já volto...
Abruptamente, o filho segura sua mão. O cachorro olha a cena atento.
- Antes do senhor ir, quero pedir desculpas por algumas coisas e quero que saiba que eu te amo, pai. E que ela mandou dizer que continua o amando para sempre, como prometeu...
O guri estava esquisito, mesmo. O velho foi atender ao telefone. Era a sua nora, chorando.
- Encontraram o corpo dele esmagado nas ferragens. Morreu há uma hora atrás...
O velho derrubou o telefone e correu para a varanda. A cuia do mate estava cheia, à sua espera. E o cachorro latia sem parar na direção do portão...

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