terça-feira, 31 de julho de 2007

Homem-continente

Alguém disse que nenhum homem é uma ilha. Como podia, então, ele manter distâncias continentais de outras pessoas? Só. Ele estava só. Pela manhã, arrastava os chinelos até a porta, onde recolhia o seu jornal. Lia sobre o que estava acontecendo no mundo, praguejava alguma coisa e mantinha longos diálogos consigo sobre as mudanças que julgava necessária para a sociedade. Chamava os políticos de corruptos e os vizinhos de fofoqueiros. Suas mulheres? Todas umas golpistas. Seus amigos? Uns falsos. Só podia contar com ele mesmo. E com o jornal que recebia todas as manhãs. Nem sempre foi assim. Era um grande homem. Forte, poderoso, inabalável. Fez de tudo para enriquecer e conseguiu atingir seu intento. Provou de todas as glórias, todos os luxos, mulheres, elogios, festas lotadas. Sua palavra, era solenemente respeitada.E ele envaidecia de si mesmo, de sua própria lenda. Sentia-se vigoroso, perene, amado. Seu sangue, era nobre. Por isso mesmo, não respeitava a opinião alheia. Por isso mesmo, quando ele falava, os outros calavam-se.
Por isso mesmo, queria ser amado, idolatrado. Por isso mesmo todos se foram. Eis que, hoje, velho. Permanece em meio a riqueza. Sua fortuna lhe faz companhia. Somente ela. Todos os outros se foram. Não eram dignos de compartilhar do mesmo ar que ele respirava. Ele arrastava seus chinelos para lá e para cá. De vez em quando, via a vida lá fora, por alguma fresta. Não atendia quem batia à porta. Quase sempre eram vendedores. Ou o jornaleiro, para cobrar a mensalidade. Até o dia em que o rapaz mudou de profissão. O jornaleiro parou de vir. O jornal, ele parou de assinar. E assim, se tornou uma ilha. Incomunicável. E ele vivia feliz, saboreando a sua própria infelicidade.

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