domingo, 22 de julho de 2007

Em pedaços

Saudade. Era o que ela sentia quando olhava para ele. Saudade da pessoa que ele um dia foi. Não era mais. A magia, o encanto havia se quebrado. Se a paixão é narcisista e só nos faz enxergar as familiaridades (eu gosto disso, você também...), esse misto de raiva e decepção só fazia apontar defeitos que antes, não fazia questão de enxergar. Sentia que cada dia morria um pouco. Sim, é verdade que morremos mesmo a cada dia, nos aproximando do minuto fatal. Porém, percebia que seus sentimentos desmoronavam a cada dia. Nesses momentos, em que o pranto lhe escorria pela face, seu coração apertava, pesava. 

E ela sentia saudade. Tinha saudade não mais do amor tresloucado e dos gestos grandiloquentes dos primeiros atos de romance. Tampouco tinha saudades do primeiro presente de Dia dos Namorados. Tudo era apenas promessa, ilusão, um conto de fadas, como toda relação inicia, fazendo com que acreditasse que eram predestinados a viverem lado-a-lado. Nesse tempo, era como se a terra fosse preparada e somente mais tarde, o amor brotasse como uma flor. E era disso que ela sentia saudades. 

Saudade da forma como o seu corpo se encaixava no dele (e como ele a recebia) nas noites chuvosas (ela tinha medo dos trovões). Saudade do olhar de cumplicidade e do sorriso desabrido. Saudade do cheiro e dos lábios carinhosos, não esses de hoje, frios e indiferentes. Ele, hoje um estranho, dormia ao lado dela. E ela tinha saudades de alguém que estava perto, mas que há muito havia partido. Em pedaços.

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